Na segunda-feira (10/03/2025), Albert Ramdin foi eleito novo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). O chanceler surinamês venceu após a retirada da candidatura do paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, apoiado pelos Estados Unidos, El Salvador e Argentina. A decisão reflete a articulação de Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Bolívia, que buscaram reduzir a influência norte-americana na organização.
Eleição e apoio dos países da região
Dos 34 países com direito a voto, Ramdin recebeu apoio da Comunidade do Caribe (Caricom), além de Brasil, Chile, Colômbia, Bolívia, Costa Rica, Equador, República Dominicana e Uruguai. Com ampla margem, superou os 18 votos necessários para assegurar o cargo. A retirada de Lezcano evidenciou a falta de apoio para uma candidatura alinhada à política externa dos EUA na América Latina.
Especialistas avaliam que a escolha de Ramdin não representa uma ruptura com Washington, mas sinaliza um desejo da região por mais autonomia nas decisões políticas. Segundo Eduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, a mobilização contra Lezcano foi uma reação ao histórico de influência dos EUA na OEA, que já interveio em momentos críticos, como no golpe de 2019 na Bolívia e nas sanções à Venezuela.
Impacto na geopolítica regional
O professor Corival Alves do Carmo, da Universidade Federal de Sergipe, destaca que a tentativa frustrada de eleger Lezcano demonstra resistência dos países da região à agenda de política externa defendida por Donald Trump e Javier Milei. Segundo ele, a OEA não é central para a maioria dos países latino-americanos, que mantêm relações diretas com os EUA, sem intermédio da organização.
Se a candidatura apoiada pelos EUA tivesse sido vitoriosa, Carmo avalia que a OEA poderia se tornar um instrumento para pautas americanas, incluindo migração, relações com a China, regulamentação de big techs e conflitos como a guerra na Ucrânia. Esse cenário, segundo o especialista, limitaria a autonomia dos países da região.
Consequências para a política externa dos EUA
A articulação contra Lezcano revela mudanças na influência dos EUA na América Latina. Galvão avalia que Washington não tem mais a mesma facilidade para impor interesses na região, como em décadas anteriores. No entanto, ele diferencia uma derrota pontual de uma perda de influência duradoura, destacando que os EUA ainda financiam a OEA e mantêm poder decisório na organização.
O episódio, segundo o especialista, evidencia um desgaste na estratégia americana para a América Latina. A postura adotada durante o governo Trump gerou reação defensiva entre os países da região, levando ao fortalecimento de blocos alternativos e a maior aproximação com China e União Europeia.
Possível retaliação dos EUA e futuro da OEA
Os EUA, como principais financiadores da OEA, podem considerar cortes no orçamento da organização em resposta à derrota na eleição. No entanto, Galvão avalia que reduzir o financiamento da OEA seria prejudicial aos próprios EUA, pois abriria espaço para novas articulações regionais independentes e ampliaria o papel de China e outros atores internacionais na América Latina.
Segundo Carmo, um eventual corte de recursos poderia resultar na desmobilização da OEA e no fortalecimento da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) como principal fórum de diálogo regional. No entanto, ele avalia que é improvável que Washington abandone totalmente a OEA, pois isso impactaria diretamente sua presença institucional na América Latina.
A eleição de Ramdin demonstra que países da América Latina e Caribe buscam maior autonomia na condução de sua política externa. A pressão para reduzir a influência dos EUA na OEA pode levar a novas disputas dentro da organização, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos precisarão reavaliar sua abordagem para manter influência na região.
*Com informações da Sputnik News.
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