No Domingo de Páscoa, data em que os cristãos do mundo inteiro celebram a ressurreição de Jesus Cristo, é oportuno refletir não apenas sobre o sacrifício e o retorno glorioso do Mestre, mas também sobre aquilo que Ele efetivamente ensinou — e o que foi distorcido, esquecido ou mal interpretado ao longo dos séculos. É a partir dessa perspectiva que o autor baiano Joseval Carneiro estrutura sua obra O que não disse Jesus (Editora EME, 2ª ed. ampliada, 2021), um exercício crítico e espiritual que propõe revisitar as palavras do Cristo à luz da doutrina espírita codificada por Allan Kardec.
A proposta da obra
A obra não pretende criar polêmica religiosa, tampouco se posicionar como portadora da verdade absoluta. Joseval Carneiro declara, já na introdução, que seu objetivo é “pinçar aspectos polêmicos” do Evangelho e apresentar interpretações lógicas e compatíveis com a moral espírita, com base nos próprios evangelistas e na tradição kardecista.
Ele escreve:
“Ele próprio, o doce rabino, sabia que à sua época não poderia dizer tudo, na forma como deveria. Por isso, preferiu dar sua mensagem cifrada por parábolas.”
Com isso, Joseval sinaliza que a plenitude do ensinamento cristão só poderia vir com o Consolador prometido — identificado no espiritismo como a revelação codificada por Kardec.
A crucificação e a distorção da mensagem
Em capítulo inaugural, Carneiro contesta a célebre frase atribuída a Jesus na cruz — “Senhor, por que me abandonaste?”. Segundo ele, essa expressão resulta de erro de tradução do hebraico e do aramaico. Jesus jamais teria questionado o Pai por abandono, pois isso contradiz todo o seu ensinamento. O autor sugere uma nova leitura da passagem:
“Senhor, Senhor, como quero glorificar-Te!”
Essa mudança de interpretação não é meramente semântica. Ela propõe uma visão em que o Cristo assume a cruz como glória e missão redentora, jamais como queixa ou dúvida quanto à presença divina.
Ressurreição, reencarnação e justiça divina
A Páscoa, em seu núcleo simbólico, celebra a vida triunfando sobre a morte. Para Joseval Carneiro, essa celebração encontra eco mais coerente na doutrina da reencarnação. No capítulo “Renascer da água e do espírito”, o autor afirma:
“É o princípio da preexistência, reencarnacionista, portanto.”
Ao abordar a célebre conversa de Jesus com Nicodemos, ele argumenta que o Mestre não se referia ao batismo ritualístico, mas sim ao retorno do espírito à carne, como condição para o progresso moral. Essa interpretação reforça a lógica da justiça divina, ao permitir que cada ser humano possa reparar faltas e evoluir ao longo de múltiplas existências.
A ética cristã redescoberta
A obra revisita também os ensinamentos morais do Cristo, como as bem-aventuranças, a mansuetude, a humildade e a caridade. Joseval sustenta que:
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“Bem-aventurados os mansos” refere-se à força interior de quem não reage com ódio, mas com serenidade;
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“Oferecer a outra face” não é submissão covarde, mas demonstração de força moral e domínio sobre o instinto de vingança;
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A expressão “Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita” é um chamado à caridade desinteressada e discreta, longe da ostentação;
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E sobre o célebre “Fora da caridade não há salvação”, Carneiro sublinha:
“Na caridade reside o amor, que redime, antítese do egoísmo, que aprisiona.”
Joseval Carneiro: trajetória e legado
Nascido em Salvador (1941), Joseval Brito Carneiro é advogado, professor e escritor espírita, com vasta atuação intelectual. Autor de 35 livros publicados, contribuiu ativamente para o movimento espírita da Bahia, tendo presidido a Federação Espírita do Estado da Bahia e editado o jornal Bahia Espírita. Sua escrita busca sempre unir fé e razão, religiosidade e ciência, conforme os princípios do espiritismo kardecista.
Série mensal de artigos
A partir deste artigo inaugural, o Jornal Grande Bahia iniciará a publicação mensal, aos domingos, de textos inspirados na obra O que não disse Jesus e em outros escritos de Joseval Carneiro. A proposta é estimular a reflexão espiritual e moral, promovendo um diálogo entre o evangelho e os desafios contemporâneos.








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