A manutenção de bases militares dos Estados Unidos na América Latina reflete uma estratégia histórica de projeção de poder, segundo apontam especialistas durante entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, nesta terça-feira (03/06/2025). Eles analisam que, apesar de oficialmente estarem vinculadas a acordos de cooperação e combate ao narcotráfico, as bases cumprem funções de espionagem, logística, treinamento e vigilância em regiões de interesse estratégico.
O cientista político e professor de relações internacionais Bruno Lima Rocha afirma que a presença militar norte-americana na região configura uma prática imperialista e representa uma ameaça à soberania dos países latino-americanos.
“Nenhuma base militar funciona de forma isolada. Ela interfere na sociedade local, cria relações, influencia economicamente e socialmente. Além disso, representa risco constante à soberania dos países, funcionando como mecanismo de contrainteligência e controle regional”, declarou Rocha.
Ele também classificou a rede de bases como “uma versão contemporânea da Doutrina Monroe”, política dos EUA estabelecida no século XIX para justificar sua influência sobre o continente americano.
“Por que os EUA, que não estão em guerra formal, mantêm entre 750 e 800 bases militares no mundo? No caso da América Latina, isso é a Doutrina Monroe atualizada”, afirmou.
Rocha citou como exemplo a retirada da base norte-americana de Manta, no Equador, durante o governo do ex-presidente Rafael Correa, demonstrando que é possível legalmente encerrar esses convênios militares.
“Existem prazos nos convênios. Não é um acordo eterno. Assim como o Equador fez, outros países podem fazer. Em casos como Cuba, haveria maiores dificuldades por conta de sanções e bloqueios, mas é possível remover essas bases e recuperar a soberania plena”, explicou.
O professor de relações internacionais Thiago Rodrigues, do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (Inest/UFF), destacou que a manutenção das bases é uma política permanente dos EUA, independente da gestão ser democrata ou republicana.
“Essa política é um traço estrutural da estratégia dos Estados Unidos na América Latina desde o final do século XIX. Governos mudam, mas a presença militar permanece como instrumento de projeção de poder na região”, afirmou.
Rodrigues também ressaltou que a Doutrina Monroe nunca deixou de vigorar, apenas foi sendo adaptada ao longo das décadas, incluindo no contexto atual.
No caso do Brasil, a recente movimentação diplomática dos EUA para obter acesso irrestrito à Base Aérea de Natal (RN) e ao aeroporto de Fernando de Noronha é classificada por Rodrigues como uma tentativa de criar “um factoide político”.
“Esses são acordos pontuais da Segunda Guerra Mundial, firmados entre o governo brasileiro, na época comandado por Getúlio Vargas, e o governo dos EUA, então liderado por Roosevelt. Não existe cláusula de continuidade após aquele contexto histórico”, esclareceu.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de os EUA utilizarem o combate ao narcotráfico como justificativa para estabelecer bases militares no Brasil, Rodrigues descartou essa hipótese, apesar da retórica adotada durante governos anteriores.
“Os processos de classificação de organizações como terroristas têm sido aplicados principalmente a grupos mexicanos e venezuelanos. No caso do Brasil, apenas o PCC possui alguma atuação transnacional, mas, até o momento, não representa uma ameaça direta aos interesses dos EUA”, afirmou.
Ele também comentou sobre a tentativa de setores da política brasileira de pressionar os EUA a classificarem o Comando Vermelho (CV) como organização terrorista.
“Essa é uma pauta de grupos da extrema direita no Rio de Janeiro, com objetivos eleitorais. Não faz parte da agenda séria do governo norte-americano. É uma provocação local sem impacto na política externa dos EUA”, concluiu.
*Com informações da Sputnik News.











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