Na segunda-feira (29/07/2025), o professor Vinícius Mariano de Carvalho, do King’s College London, afirmou que os ultimatos de Donald Trump a Vladimir Putin agravam a tensão internacional e comprometem a diplomacia multilateral. Segundo o especialista, a ameaça de encerrar a guerra na Ucrânia em até 12 dias representa mais uma estratégia de comunicação política do que uma medida com potencial de impacto real.
Especialista vê bravata política e pouca eficácia
Trump declarou que, caso reeleito, imporia sanções severas à Rússia para forçar um cessar-fogo imediato no conflito ucraniano. Para Carvalho, trata-se de uma retórica direcionada ao público interno norte-americano, sem viabilidade concreta no contexto internacional.
“Parece-me uma bravata política, uma retórica que soa bem ao eleitorado, mas sem efeito prático”, afirmou à RFI.
Rússia ignora ultimato e mantém estratégia
O especialista destacou que a Rússia não reagiu com seriedade às declarações de Trump. Segundo ele, as respostas diplomáticas de Moscou foram desdenhosas, sinalizando que o Kremlin não considera as ameaças uma intervenção concreta nas decisões militares.
“Não estão levando isso como uma ameaça real à condução da guerra,” explicou.
Força como ferramenta de comunicação
Carvalho, com experiência em missões de paz e comunicação estratégica, avalia que a abordagem de Trump repete um padrão baseado na imposição e ameaça.
“Ele se posiciona como grande negociador, mas sempre por meio da força. Esse tipo de negociação não se sustenta e atrai novos atores para a arena global, como a China,” afirmou.
Escalada internacional do conflito
O especialista alertou que a guerra na Ucrânia não é mais um conflito regional, mas sim uma disputa com impactos globais.
“A entrada de tropas norte-coreanas ao lado da Rússia e o enfraquecimento da coesão da OTAN mostram que o conflito alcançou uma fase de escalonamento global,” disse.
Carvalho explicou que o envolvimento direto de países da OTAN aumenta o risco de uma guerra de maiores proporções.
“Qualquer declaração de líderes, incluindo Trump, pode escalar a guerra para um patamar que ninguém deseja,” afirmou.
OTAN enfrenta divisões internas
O analista também destacou a instabilidade na Aliança Atlântica, mesmo com decisões consensuais recentes.
“A OTAN não está unificada. Essa fragilidade é um sinal de alerta, pois a aliança foi por décadas um pilar de estabilidade internacional,” avaliou.
Efeitos colaterais das sanções propostas por Trump
O presidente norte-americano sugeriu sanções secundárias a países que mantêm relações energéticas com Moscou, o que, segundo Carvalho, pode provocar efeitos contrários aos desejados.
“A tentativa de isolar a Rússia pode incentivar países do Sul Global a fechar acordos mais vantajosos com Moscou,” explicou.
Esse cenário amplia a disputa por hegemonia nas redes emergentes de cooperação internacional.
Estratégia russa mantém objetivos pouco transparentes
Sobre a postura de Moscou, Carvalho apontou a falta de clareza nos objetivos estratégicos.
“A Rússia alterou o discurso várias vezes desde o início da guerra, dificultando qualquer previsão sobre o fim do conflito,” destacou.
Ele afirmou que é improvável que Vladimir Putin aceite retirar tropas sem algum ganho territorial concreto, o que se opõe à exigência da Ucrânia de restituição completa dos territórios ocupados.
Diferença entre cessar-fogo e paz duradoura
Carvalho encerrou a análise reforçando a distinção entre cessar-fogo e acordo de paz.
“Suspender as hostilidades não é o mesmo que alcançar a paz. Isso exige negociação, concessões e reconhecimento mútuo,” explicou.
Para o especialista, a condução atual do conflito, com discursos midiáticos e ameaças unilaterais, revela um vácuo de lideranças diplomáticas efetivas.
“O sistema internacional carece de mediadores comprometidos com soluções sustentáveis e multilaterais,” concluiu.
*Com informações da RFI.
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