Agricultura familiar representa 77% das propriedades rurais, mas responde por apenas 23% da produção nacional, aponta estudo

A agricultura familiar concentra 76,8% dos estabelecimentos agropecuários do Brasil, o equivalente a cerca de 3,9 milhões de propriedades, mas responde por apenas 23% do Valor Bruto da Produção (VBP) nacional, segundo estudo do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). O levantamento, com base no Censo Agropecuário de 2017, foi divulgado nesta segunda-feira (10/11/2025) e revela a disparidade entre o número de propriedades e sua contribuição econômica.

O estudo intitulado “Caracterização do Perfil dos Estabelecimentos Enquadráveis no Pronaf e no Pronamp” indica que o setor é marcado por ampla diversidade produtiva e desigualdade econômica. De acordo com o documento, há desde agricultores voltados à subsistência até grupos integrados às cadeias produtivas nacionais.

Diagnóstico da agricultura familiar no Brasil

Conforme o levantamento, 83,3% da produção da agricultura familiar está concentrada em dois grupos minoritários: Pronaf V e Pronamp Familiar, que somam aproximadamente 1,16 milhão de propriedades.

O estudo contesta a estimativa popular de que a agricultura familiar seja responsável por 70% dos alimentos consumidos no país. Segundo o pesquisador do FGV Agro Felippe Serigati, o dado não tem base científica e foi amplamente difundido sem comprovação.

Serigati destacou que a avaliação realista do setor é essencial para políticas públicas eficazes, afirmando que “a agricultura familiar não precisa de números distorcidos para demonstrar sua importância”.

Cadeias produtivas de maior relevância

O levantamento aponta que o segmento tem peso expressivo em cadeias específicas, como:

  • Fumo: 93,7% do VBP nacional

  • Mandioca: 80%

  • Leite: 62,8%

  • Horticultura: 62,2%

  • Açaí: 79%

  • Morango: 79%

  • Uva: 75,8%

  • Abacaxi: 68,7%

Esses dados reforçam o papel estratégico da agricultura familiar na produção de alimentos básicos e culturas regionais, ainda que sua contribuição no VBP total seja menor.

Desafios e necessidade de políticas públicas específicas

De acordo com o estudo, a formulação de políticas públicas deve considerar a diversidade de perfis da agricultura familiar, desde pequenos produtores de subsistência até unidades produtivas voltadas ao mercado.

A FGV recomenda que políticas voltadas a agricultores com renda de até um salário mínimo priorizem infraestrutura, bem-estar social e geração de emprego rural. Já os grupos mais produtivos, como Pronaf V e Pronamp Familiar, necessitam de crédito e assistência técnica.

O pesquisador Felippe Serigati reforça que a definição de políticas deve estar alinhada aos objetivos e características de cada grupo, afirmando que “a agricultura familiar não é uma unidade homogênea; o desenho das políticas precisa refletir essa diversidade”.

Perfis produtivos identificados

O levantamento dividiu os produtores em quatro perfis principais de acordo com renda e inserção no mercado: Pronaf B, Pronaf V, Pronamp Familiar e Familiar Demais.

Pronaf B

Engloba 53,9% dos estabelecimentos familiares (2,73 milhões), com renda anual de até R$ 20 mil e 2,8% do VBP familiar. A agricultura é majoritariamente de subsistência, e a renda é complementada por pensões e aposentadorias. A concentração está nas regiões Nordeste (60%) e Sudeste (14,7%).

Pronaf V

Considerado o grupo mais dinâmico da agricultura familiar, o Pronaf V reúne 1,14 milhão de propriedades com renda entre R$ 20 mil e R$ 360 mil por ano. As cadeias mais representativas são horticultura, leite e frutas tropicais, com maior presença nas regiões Sul (35%) e Sudeste (24,7%).

Pronamp Familiar

Com renda anual entre R$ 360 mil e R$ 2 milhões, o grupo conecta a agricultura familiar aos médios produtores. Representa 0,5% dos estabelecimentos, mas responde por 13,8% do VBP da agricultura familiar. As principais cadeias são leite, aves, bovinos e suínos.

Familiar Demais

Reúne cerca de 870 propriedades familiares com renda acima de R$ 2 milhões, que não se enquadram no Pronaf ou Pronamp. Esse perfil corresponde a 1% do VBP agropecuário nacional e se concentra nas regiões Sul (42,9%) e Sudeste (26,2%).

Perspectivas para o setor

O coordenador de mercados da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, ressaltou que o diagnóstico da FGV é essencial para aprimorar políticas públicas e estimular produtividade por meio de crédito e capacitação técnica.

Segundo Iglesias, “um diagnóstico claro permite que os produtores tenham acesso a linhas de crédito adequadas, tecnologias de produção e programas de capacitação que ampliem sua competitividade no mercado”.

O estudo da FGV também propõe revisar os critérios de enquadramento de agricultores familiares, visando incluir produtores com múltiplas fontes de renda, mas que ainda enfrentam barreiras estruturais ao desenvolvimento.


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