Longevidade | Por Joseval Carneiro

Ao longo das últimas décadas, pesquisadores dedicados ao estudo das chamadas Zonas Azuis — regiões do mundo com altas concentrações de centenários saudáveis — identificaram entre elas Okinawa (Japão), Ikaria (Grécia) e Loma Linda (Califórnia), locais onde a expectativa de vida supera as médias globais e os casos de doenças crônicas são consideravelmente menores. Inicialmente, os estudos enfatizavam elementos pontuais, como o consumo de vinhos produzidos a partir de uvas de casca escura, ricas em resveratrol, composto associado ao bom funcionamento cardiovascular.

Com o amadurecimento das pesquisas, porém, um quadro mais complexo e revelador emergiu. As expedições científicas posteriores constataram que a extraordinária longevidade desses povos não se explicava apenas por um alimento ou molécula específica. O que realmente distinguia Okinawa, Ikaria e Loma Linda era um conjunto de práticas integradas, moldadas ao longo de gerações, que combinavam simplicidade, rotina ativa, sociabilidade espontânea e profundo sentido de pertencimento.

Essas comunidades reuniam-se ao entardecer sob grandes árvores para conversar com naturalidade, trocavam confidências, relembravam histórias, jogavam damas, dominó e gamão — atividades que exigem raciocínio, paciência e convivência. Muitos cultivavam pequenas vinhas em quintais ou sítios, deslocando-se diariamente, enxada ao ombro, para o cuidado das plantas. Esse movimento constante, sem pressa e sem sedentarismo, já representava um exercício físico natural. A alegria simples, o sorriso fácil, o amor à família e a integração comunitária eram traços constantes, revelando um estilo de vida onde a ansiedade moderna simplesmente não tinha lugar.

Da convivência solidária à rotina de trabalho leve, esses hábitos mostraram-se determinantes para vidas mais longas e saudáveis.

Contribuições da geriatria moderna

A ciência contemporânea, especialmente a geriatria, acrescentou novas camadas a esse entendimento. Caminhadas diárias fortalecem o coração, ajudam a reduzir placas ateroscleróticas e estimulam a boa circulação sanguínea. Exercícios aquáticos simples, como bater as pernas sentado à beira da piscina, três vezes por semana por 40 minutos (ou cinco sessões de 20 minutos), auxiliam a flexibilidade, melhoram o tônus muscular e reduzem o risco de quedas — especialmente sob luz solar suave, que favorece a síntese de vitamina D e contribui para o metabolismo do cálcio.

No campo nutricional, estudos confirmam a importância de iniciar refeições com verduras e fibras, capazes de modular a absorção de carboidratos. Carnes magras, legumes, ovos preferencialmente caipiras e o consumo reduzido de bebidas açucaradas formam um padrão alimentar protetor. Os “venenos brancos” — açúcar refinado, sal em excesso e farinha de trigo — devem ser evitados sempre que possível.

A partir dos 40 anos, exames periódicos de vitaminas, minerais, colesterol, glicemia e função cardíaca tornam-se indispensáveis. Visitas semestrais ao cardiologista e ao dentista previnem complicações silenciosas que, quando ignoradas, abreviam a longevidade.

O cuidado com a mente e a vida social

Nenhuma vida longa prescinde de serenidade emocional. Guardar mágoas, alimentar ressentimentos ou acumular frustrações é corroer o próprio corpo por dentro, como ensina a psicologia contemporânea. O perdão, a compreensão e a convivência harmônica com familiares e amigos funcionam como um bálsamo diário. Boas leituras, participação em comunidades religiosas, clubes e associações protegem a mente contra o isolamento — um dos maiores inimigos da velhice.

O sono, por sua vez, é uma medicina natural. Dormir entre sete e oito horas por noite, em ambiente silencioso e escuro, fortalece a memória, regula hormônios e renova a energia vital.

Higiene, tradições e espiritualidade

A longevidade também se sustenta em cuidados cotidianos simples: banho completo, atenção às dobras da pele, limpeza entre os dedos, lavagem semanal dos cabelos. São hábitos que refletem civilidade, disciplina e respeito ao próprio corpo.

No plano espiritual, estudos mostram que religiosos vivem, em média, mais do que não religiosos — não por dogma, mas pela força da rotina moral, da oração diária e do senso de propósito. Cultivar a solidariedade, ajudar os menos favorecidos, visitar enfermos e consolar os que sofrem fortalece o espírito e devolve ao coração uma paz que nenhuma medicina consegue produzir.

O envelhecimento como obra da vida

O mundo assiste a uma transição demográfica acelerada. Os idosos vivem mais, convivem com seus filhos, netos e bisnetos e desfrutam da plenitude de uma família ampliada. São gerações que se sobrepõem, preservando a memória, o afeto e a continuidade da vida.

Nada disso combina com irritações desnecessárias. Ao longo da jornada, poucos conselhos são tão sábios quanto estes: releve as ofensas, compreenda as diferenças alheias e cultive o amor. A longevidade, antes de ser um destino biológico, é uma construção moral, emocional e comunitária.

E quem distribui amor, invariavelmente, recebe de volta os respingos luminosos da própria generosidade.

*Advogado, jornalista, escritor e professor, Joseval Carneiro (joseval@plenus.net) reúne sólida trajetória no serviço público e na vida intelectual baiana. É delegado de Polícia aposentado, com especialização realizada nos Estados Unidos, e exerceu as funções de diretor do Detran do Distrito Federal e do Conselho Estadual de Trânsito da Bahia. Integra a tradicional Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e ocupa a vice-presidência da Academia de Cultura da Bahia, destacando-se por sua atuação jornalística, produção literária e dedicação às instituições culturais.


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