O filósofo espanhol José Ortega y Gasset nos ensina que “a clareza é a cortesia do filósofo”. Ouso parafraseá-lo para dizer que a brevidade é a cortesia do orador. Serei breve, por conseguinte. Mas devo confessar que essa não é uma mera gentileza, uma deferência desinteressada inspirada no referido apotegma. A verdade é que eu também estou ansioso para ouvir a conferência do polímata Joaci Fonseca de Góes, que hoje (05/11/2025), mui merecidamente, é o nosso homenageado com a outorga da Medalha Ruy Barbosa, maior honraria concedida pelo Poder Judiciário da Bahia, limitada a uma personalidade por ano, na data do nascimento do proeminente baiano que, hoje, completaria 176 anos.
Como veremos em alguns instantes, a máxima inglesa “the right man in the right place”, ou seja, o homem certo no lugar certo, talvez nunca tenha sido tão apropriadamente invocada como aqui e agora.
Joaci Góes, não bastassem sua cultura enciclopédica e sua jovialidade contagiante, é um homem de múltiplas realizações.
Trata-se, como se sabe, de um empresário dinâmico, cujos feitos ultrapassam as fronteiras do Brasil. Sempre teve uma visão muito além do horizonte do homem médio no tempo e no espaço. Foi ele, por exemplo, o idealizador do primeiro shopping center da Bahia, cuja construção, embora não tenha participado diretamente por motivos que não cabem na dimensão deste nosso modesto pronunciamento, mudou o eixo consumerista da cidade do Salvador, antes concentrado na Rua Chile e adjacências, para o Caminho das Árvores.
Homem de sucesso na agropecuária, indústria, educação e energia, com destacada atuação na construção civil, na imprensa e no âmbito cultural, sendo o atual Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, aliás, um combativo presidente em defesa dessa instituição centenária, fundada em 1894.
Como político, atuou diretamente no que de mais importante aconteceu no nosso país nas últimas décadas, a exemplo de ter sido deputado constituinte em 1988 e relator do Código de Defesa do Consumidor de 1990, legislações que mudaram para melhor a vida do povo brasileiro.
Nosso ilustre homenageado sempre se portou com coragem inconteste para contrapor-se ao arbítrio, sendo um defensor intransigente da democracia e da livre iniciativa, como tem feito em sua coluna no respeitável jornal Tribuna da Bahia, denominada “Ponto de Vista”, fazendo valer os versos do Hino da Bahia: “nunca mais o despotismo regerá nossas ações. Com tiranos não combinam brasileiros corações”, sobretudo se esse coração é o de Joaci Góes.
Miguel de Cervantes, na sua obra-prima Dom Quixote, diz que “quem perde seus bens, perde muito; quem perde um amigo, perde mais. Porém, quem perde a coragem, perde tudo.” E aqui estamos diante de um homem digno de louvação, porque com seu trabalho honesto soube multiplicar seus bens; com sua generosidade conquistou amigos — o que é bom —, mas principalmente os preservou, o que é muito melhor.
Por sua independência e coragem, tantas vezes demonstradas, mormente como jornalista e escritor, tem ampliado o rol de seus admiradores. Eis um vencedor, cujo maior patrimônio é sua inteligência singular e memória espantosa, capaz, dentre outras proezas, de recitar a obra poética completa de Castro Alves.
Todo o sucesso de Joaci Góes, seguramente, não decorre do que ele acumulou, material ou intelectualmente, mas do que magnanimamente compartilhou.
Não o chamarei de pontífice porque este é um título privativo do Cardeal de Roma, mas é certo que Joaci Góes constrói pontes metafísicas, ajudando pessoas a superar obstáculos que seriam intransponíveis. Noutras palavras, não lhe sendo possível multiplicar peixes ou pães — tarefa divina —, distribui anzóis e sementes para viabilizar perspectivas de um futuro melhor.
Sua profícua obra literária, como lúcido ensaísta, deve ser consultada, lida e relida, porque se “a leitura é uma das formas de felicidade”, como acentua Jorge Luis Borges, isso só ocorre quando dela se infere algum proveito.
Rogo ao homo zapiens — esse novo tipo de ser humano que sucede ao homo sapiens — que se debruce sobre a obra literária de Joaci Góes, porque lê-lo faz bem à elevação do espírito.
Recomendo, mui brevemente, quatro livros de sua vasta produção intelectual:
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A INVEJA NOSSA DE CADA DIA – COMO LIDAR COM ELA: li esse livro quando foi lançado em 2001, em Porto Seguro. Posso assegurar-lhes que é uma obra estupenda. Um verdadeiro tratado sobre esse pecado capital.
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ANATOMIA DO ÓDIO: NA FAMÍLIA, NO TRABALHO, NA SOCIEDADE: outro tratado. Aproveito o ensejo para sugerir que escreva sobre os demais pecados capitais — luxúria, gula, soberba, avareza, ira e preguiça —, sendo esta última, felizmente, alheia à personalidade de Joaci.
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51 PERSONALIDADES MAIS MARCANTES DO BRASIL: naturalmente, dentre elas, Ruy Barbosa e Castro Alves, paixões do autor.
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ESQUERDAS E DIREITAS: A SUPERIORIDADE DA SOCIEDADE ABERTA: título autoexplicativo e recomendável para quem pensa livremente.
Por fim, devo dizer que Joaci é um homem sedutor no bom sentido, dado o carisma e magnetismo pessoal. Sua carreira de sedutor foi encerrada, contudo, quando conheceu sua amada esposa, Lídice Ferraz de Góes. Diante de sua beleza e elegância, Joaci pôde compreender os versos de Luís de Camões: “cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”, pois encontrara sua musa definitiva.
Homem afortunado, Joaci constituiu uma bela família — Lídice, seus filhos Jô e Alex, e os netos gêmeos Daniel e Maria Eduarda — a quem o orador presta homenagem.
Quando disse que Joaci era o homem certo no lugar certo, é porque resta irrefutável que se trata de um erudito sobre a vida e a obra de Ruy Barbosa.
Seu filho Jô, de Madri, contou que cresceu ouvindo o pai narrar histórias sobre Ruy Barbosa. Agora chegou a vez de ouvirmos Joaci falar — livremente, como é da sua natureza apolínea — sobre o que bem lhe aprouver.
*Cássio José Barbosa Miranda, conhecido como Cássio Miranda, é desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), onde exerce também a função de presidente da Comissão Permanente de Memória e do Fórum de Memória, instâncias vinculadas à Universidade Corporativa (Unicorp) do TJBA.











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