A menos de dois meses do início da implementação da Reforma Tributária, um levantamento do setor produtivo divulgado nesta sexta-feira (14/11/2025) aponta que 72% das empresas de médio e grande porte ainda não adaptaram seus processos internos às novas exigências de recolhimento e declaração dos tributos sobre consumo. O cenário acende alerta sobre custos operacionais, riscos de inviabilidade e necessidade de ajustes imediatos.
A pesquisa, realizada pela V360 com 355 executivos, mostra que gestores concentram esforços na emissão das novas notas fiscais, que passarão a ter 200 campos de preenchimento, mas enfrentam gargalos no recebimento e pagamento de documentos de fornecedores. Especialistas afirmam que a falta de preparação pode comprometer faturamento, especialmente durante o período de testes em 2026.
Segundo o advogado tributarista Luís Garcia, sócio do Tax Group e do MLD Advogados Associados, a previsibilidade tributária será determinante. A ausência de parametrização das notas fiscais com os novos tributos pode impedir empresas de faturar e comprometer a continuidade de alguns negócios.
Adaptação tecnológica e desafios das duplicatas escriturais
Um dos pontos críticos identificados no levantamento é a adoção das duplicatas escriturais, registro eletrônico que valida operações comerciais. De acordo com os dados, 32,7% das empresas ainda não iniciaram a adaptação, 55,8% estão em fase preparatória, e apenas 11,5% já utilizam o processo de forma automatizada.
A automação operacional também aparece como desafio. Segundo a pesquisa, 61% das empresas mantêm fluxos total ou parcialmente manuais, o que aumenta o risco de inconsistências e atrasos no cumprimento das novas obrigações fiscais. A baixa automação impacta diretamente o ritmo de integração das novas regras em sistemas internos.
Estrutura da reforma prevê unificação dos tributos
A regulamentação aprovada este ano estabelece a extinção de PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS, que serão substituídos por dois tributos principais: Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de gestão estadual e municipal, e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal. O Imposto Seletivo (IS) também será aplicado em produtos e serviços específicos.
A partir de (05/01/2026), entram em vigor alíquotas iniciais de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS, etapa que marca o início da fase de transição do novo sistema tributário nacional.
O vice-presidente Jurídico da CACB, Anderson Trautman, alerta que micro e pequenos empreendedores também enfrentarão desafios. Mesmo com a permanência das regras do Simples Nacional, o novo modelo poderá reduzir competitividade e exigir planejamento tributário mais detalhado, especialmente para empresas que migrarem ao regime de créditos.
Fluxo de caixa e impacto no setor de serviços
A reforma altera o momento de recolhimento dos tributos, que passará a ocorrer na operação de cobrança, ou seja, antes da entrada do recurso no caixa da empresa. O modelo pode modificar estratégias financeiras e exigir liquidez constante para manter o giro operacional.
Segundo Garcia, o setor de serviços deverá sentir o maior impacto, com alíquotas ampliadas em cerca de 20 pontos percentuais em comparação ao regime atual. Empresas com benefícios fiscais ou regimes especiais devem revisar planejamentos, já que muitos desses mecanismos serão descontinuados ao longo da transição.








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