Memorial das Matriarcas Odé Kayodé é inaugurado no Pelourinho e destaca legado de Mãe Stella e lideranças do candomblé na Bahia

O Memorial das Matriarcas Odé Kayodé foi inaugurado na quinta-feira (27/11/2025), no Pelourinho, em Salvador, na casa onde nasceu Mãe Stella de Oxóssi, líder do Ilê Axé Opô Afonjá. O espaço, que funcionará de terça a sábado, das 10h às 17h, integra o conjunto museal do Solar Ferrão e consolida-se como equipamento dedicado à preservação das memórias das matriarcas do candomblé, reforçando ações voltadas ao patrimônio cultural e às comunidades tradicionais.

A iniciativa é do Governo do Estado da Bahia, por meio da SecultBA, do IPAC e da Sepromi, estruturada sob princípios da museologia social e comunitária. O projeto busca fortalecer estratégias de preservação e difusão de saberes e rituais, com foco na participação direta das comunidades de terreiro. O lançamento contou com autoridades, lideranças religiosas e representantes do povo de santo.

O secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, ressaltou que a criação do memorial reforça a política estadual de valorização da cultura afro-brasileira e da memória das sacerdotisas do candomblé. A proposta se integra a um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento das tradições e da luta contra a intolerância religiosa.

Homenagem a Mãe Stella e fundamentos do Memorial Odé Kayodé

A primeira homenageada é Mãe Stella de Oxóssi, cujo centenário é celebrado em 2025. A curadoria é assinada por Mãe Ana de Xangô, yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, e pela Ebgome Deusimar. A narrativa expositiva destaca a trajetória religiosa e profissional de Mãe Stella, iniciada no candomblé aos 14 anos, sob orientação de Mãe Senhora.

O memorial apresenta fotografias, objetos simbólicos e uma linha do tempo que registra a vida de Maria Stella de Azevedo Santos. O espaço também enfatiza sua atuação como visitadora sanitária, carreira que exerceu por décadas paralelamente à liderança religiosa no terreiro. Mãe Stella faleceu em dezembro de 2018, aos 93 anos.

A concepção expográfica prevê atualizações permanentes, permitindo a inclusão de novas homenagens a outras matriarcas do candomblé. O diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos, destacou que o local funciona como ferramenta de valorização da ancestralidade e de respeito às tradições religiosas afro-brasileiras.

Estrutura expositiva e experiências oferecidas ao público

O Memorial reúne cinco espaços expositivos internos, incluindo um terminal de vídeo com entrevistas da ialorixá. Outro ambiente apresenta uma experiência imersiva com um xirê digital, criado pelo VJ Gabiru. Na área externa, um canteiro com folhas sagradas trazidas do Ilê Axé Opô Afonjá compõe o ambiente, acompanhado de um mural assinado por Nila Carneiro.

A programação educativa inclui oficinas, rodas de conversa e visitas guiadas. As atividades têm como propósito estimular a formação crítica e promover conhecimento histórico, especialmente entre jovens, reforçando a centralidade das lideranças femininas nas comunidades de terreiro.

A secretária de Promoção da Igualdade Racial, Ângela Guimarães, enfatizou que o memorial representa ação estratégica de enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa. A proposta reafirma o papel das sacerdotisas na construção de uma Bahia marcada pela herança africana e pelo protagonismo das comunidades tradicionais.

Requalificação do Solar Ferrão e integração ao complexo museal

O Memorial está integrado ao conjunto arquitetônico do Solar Ferrão, cuja reabertura está prevista para janeiro de 2026. As obras da quarta e última etapa de requalificação estão em fase final, com investimento superior a R$ 2,4 milhões dos governos estadual e federal.

A intervenção contempla melhorias estruturais, como requalificação elétrica e hidrossanitária, pintura interna e externa, acessibilidade, recuperação do telhado e reforço do sistema de segurança. A requalificação mantém características arquitetônicas originais do prédio, construído entre os séculos XVII e XVIII e tombado pelo IPHAN.

O edifício permanece como referência da arquitetura colonial de Salvador e seguirá abrigando atividades culturais após a reabertura, fortalecendo o conjunto museal disponível à população e aos visitantes.


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