A artista visual Laura Lima, natural de Governador Valadares (MG), abriu sua maior exposição solo no Reino Unido, no Instituto de Arte Contemporânea (ICA), em Londres, reunindo obras inéditas produzidas ao longo de mais de três décadas de carreira. Intitulada The Drawing Drawing, a mostra permanece em cartaz até 29 de março de 2026 e apresenta instalações interativas, trabalhos vivos e projetos históricos pouco conhecidos do público brasileiro.
Com ocupação de dois andares do ICA, a exposição inclui obras comissionadas especialmente para o espaço e propõe uma reflexão sobre normas artísticas, expectativas do público, uso do espaço expositivo e percepção do tempo. A artista propõe experiências que deslocam o espectador da posição de observador para a de participante ativo dos trabalhos.
A mostra tem como eixo conceitual a ideia de movimento contínuo, elemento central da produção de Laura Lima. O próprio título pode ser traduzido como “Desenho em Desenho”, “Desenho sobre Desenho” ou “Desenho Desenhando”, reforçando a noção de processo em transformação permanente.
Instalações interativas e ressignificação do desenho clássico
Logo na entrada da exposição, o público se depara com uma instalação de modelo vivo, em que um modelo nu profissional ocupa uma plataforma circular de madeira em movimento. Ao redor, outras plataformas rotatórias permitem que visitantes se sentem, utilizem cavaletes e materiais de desenho e participem da obra de forma ativa.
A proposta desconstrói a prática tradicional do desenho acadêmico, ao eliminar a estabilidade tanto do modelo quanto de quem desenha. A experiência desloca a noção clássica de perspectiva e convida o público a refletir sobre foco, orientação e processo criativo em ambientes instáveis.
Os desenhos produzidos pelos visitantes podem ser levados para casa ou depositados em uma caixa expositiva, sendo posteriormente incorporados à mostra em um dos corredores centrais do instituto, ampliando o caráter coletivo da obra.
Diálogo com a história do ICA e circulação internacional das obras
Fundado em 1948, o Instituto de Arte Contemporânea de Londres é reconhecido por sua vocação para a arte experimental e já recebeu exposições de nomes como Francis Bacon, Pablo Picasso e Steve McQueen. A escolha de Laura Lima reforça o posicionamento institucional do ICA como espaço voltado à experimentação e à pesquisa artística.
Parte dos materiais expostos já integrou apresentações anteriores no Brasil, em Barcelona e em Nova York, enquanto outras obras foram adaptadas ou recriadas para o contexto londrino. Entre elas está um elemento do projeto Balé Literal, com um para-sol vermelho motorizado, operado por controle remoto e ativado por performers.
A exposição também resgata um projeto do início da carreira da artista, ainda pouco conhecido, que utiliza imagens congeladas em bandejas dentro de um freezer. À medida que o gelo derrete, as imagens se transformam diante do público, reafirmando a noção de impermanência e mutação da obra de arte.
Obras de longa duração e reflexão sobre tempo e ética
Outro destaque da mostra é uma instalação suspensa próxima a uma janela, composta por linhas de algodão cru e fragmentos de carvão, que se transformam lentamente com o passar das décadas. A obra tem previsão de conclusão apenas em 2084, reforçando o uso do tempo como matéria artística.
A proposta dialoga com a tradição do vernissage, conceito associado à finalização da obra pictórica, ao questionar quando uma obra pode, de fato, ser considerada concluída. O trabalho amplia o debate sobre conservação, ética institucional e responsabilidade diante de obras em transformação contínua.
Com esse conjunto, Laura Lima reafirma uma produção centrada em processos, ações e deslocamentos, em que o público é parte constitutiva da experiência artística.











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