A Dinamarca afirmou que está disposta a manter diálogo político e militar com aliados da Otan e com os Estados Unidos sobre a segurança do Ártico e da Groenlândia, desde que não haja qualquer questionamento à soberania territorial do Reino. A posição foi reiterada pela primeira-ministra Mette Frederiksen, nesta quinta-feira (22/01/2026), em meio à intensificação das pressões diplomáticas e estratégicas exercidas por Washington e pela Aliança Atlântica na região.
Frederiksen declarou que segurança, investimentos e cooperação econômica podem ser negociados, mas destacou que a integridade territorial da Dinamarca e da Groenlândia não está em discussão. A afirmação ocorre após semanas de declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendendo maior controle americano sobre a ilha, considerada estratégica para a defesa e para a competição geopolítica no Ártico.
O debate ganhou novo fôlego durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, onde Trump adotou um tom mais moderado, sinalizando disposição para um acordo com a Otan sobre a Groenlândia e descartando, publicamente, o uso da força para assumir o controle do território autônomo dinamarquês.
Otan e Estados Unidos avançam em plano de reforço no Ártico
Na quinta-feira (22/01/2026), o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que um acordo-quadro com os Estados Unidos está em elaboração e prevê o aumento da presença militar da Aliança no Ártico. Segundo Rutte, os detalhes operacionais ainda serão definidos por comandantes militares, mas há expectativa de que todos os aliados contribuam para o esforço.
De acordo com o secretário-geral, o plano poderá estar operacional até 2026 ou no início de 2026, refletindo a prioridade crescente dada à região diante da atuação da Rússia e da China no extremo norte. O reforço não implicaria, oficialmente, mudanças de soberania, mas amplia a presença militar em uma área sensível para a política externa europeia.
Fontes diplomáticas indicam que Estados Unidos e Dinamarca também devem renegociar o acordo de defesa de 1951 sobre a Groenlândia. A instalação de bases sob soberania americana não teria sido discutida formalmente, embora o fortalecimento da infraestrutura de segurança esteja previsto, com participação de países europeus da Otan.
Copenhague reafirma soberania e define “linha vermelha”
O governo dinamarquês reforçou publicamente sua posição após declarações de Rutte. O ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, afirmou que o secretário-geral da Otan não pode negociar em nome da Dinamarca ou da Groenlândia, embora tenha elogiado sua atuação em favor da coesão da Aliança.
Poulsen destacou que existe uma linha vermelha clara: a Dinamarca não aceitará qualquer cessão de soberania sobre partes do Reino. A posição foi reiterada após contatos diretos entre Frederiksen e Rutte, nos quais a primeira-ministra deixou claro que não abrirá mão do controle territorial da Groenlândia.
Apesar disso, propostas alternativas circulam nos bastidores. Reportagens da imprensa europeia indicam que foi discutida a possibilidade de transferência da soberania da base de Pituffik aos Estados Unidos, nos moldes das bases britânicas no Chipre. O acordo atual concede amplos poderes operacionais aos EUA, mas não transfere soberania, ponto central da controvérsia.
Repercussão europeia e risco de escalada econômica
A mudança de tom de Trump em Davos, incluindo a suspensão temporária de ameaças tarifárias contra oito países europeus, foi recebida com cautela por governos e pela imprensa do continente. Analistas avaliam que o recuo parcial resultou de pressão coordenada das capitais europeias.
Mesmo assim, líderes da União Europeia mantiveram uma reunião extraordinária em Bruxelas, destinada a formular uma resposta unificada às ameaças anteriores. A possibilidade de retaliação econômica, incluindo tarifas sobre produtos americanos e restrições a investimentos, permanece sobre a mesa.
O tema é tratado como estratégico, pois envolve não apenas a Groenlândia, mas o equilíbrio da relação transatlântica, considerada central para a segurança europeia desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Trump fala em “ameaça iminente” e reforça discurso estratégico
Durante seu discurso em Davos, Trump voltou a afirmar que a Groenlândia enfrenta uma “ameaça iminente”, atribuída às ambições da China e da Rússia no Ártico. Segundo ele, a Dinamarca não teria capacidade militar suficiente para defender a ilha sozinha, argumento usado para justificar a necessidade de maior envolvimento americano.
O presidente declarou respeitar dinamarqueses e groenlandeses, mas defendeu que cada aliado da Otan deve ser capaz de proteger seu território, sugerindo que apenas os Estados Unidos teriam meios para garantir a segurança plena da Groenlândia.
As declarações reforçaram a percepção, entre líderes europeus, de que o tema ultrapassou o campo retórico e se tornou um desafio direto à ordem política e de segurança vigente.
Groenlândia adota medidas de preparação civil
Em meio à escalada diplomática, o governo da Groenlândia divulgou, na quarta-feira (21/01/2026), uma brochura de orientação à população para situações de crise. O documento recomenda autossuficiência por cinco dias, incluindo estocagem de alimentos, água, rádio a pilha e equipamentos de caça e pesca.
Autoridades locais afirmaram que a iniciativa não responde diretamente às declarações de Trump, mas reflete um contexto internacional mais instável. A Groenlândia tem cerca de 57 mil habitantes, em sua maioria inuítes, para quem a caça e a pesca são práticas tradicionais de subsistência.
Pesquisas recentes indicam que 85% da população rejeitam a anexação aos Estados Unidos, enquanto uma minoria apoia a proposta, reforçando a legitimidade da posição do governo local.
Crise da Groenlândia expõe maior tensão entre EUA e Europa em décadas
A disputa em torno da Groenlândia é considerada por analistas como a maior crise entre Estados Unidos e Europa em décadas, ao envolver ameaças territoriais, pressão militar e risco de guerra comercial. Governos europeus passaram a reagir de forma mais assertiva, classificando o episódio como um teste existencial para a Otan.
Países europeus enviaram contingentes militares simbólicos à Groenlândia, enquanto discutem exercícios conjuntos e reforço gradual ao longo de 2026. Paralelamente, a União Europeia avalia instrumentos de defesa comercial, incluindo tarifas e restrições a investimentos, caso as pressões americanas sejam retomadas.
O episódio ocorre em um contexto de crescimento econômico limitado na Europa, aumento da concorrência chinesa e tensões com a Rússia, ampliando o impacto estratégico da crise.
*Com informações da RFI e Sputnik News.











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