A disputa pela Groenlândia, território autônomo da Dinamarca no Ártico, transformou-se na mais grave crise diplomática entre Estados Unidos e Europa em décadas, com impactos diretos sobre a Otan, o comércio internacional e a estabilidade geopolítica. Na quarta-feira (21/01/2026), declarações do presidente norte-americano Donald Trump, reações de líderes europeus e medidas econômicas ampliaram o confronto entre aliados históricos.
O governo dos Estados Unidos passou a tratar a ilha como ativo estratégico militar e econômico, enquanto Dinamarca, União Europeia e autoridades locais da Groenlândia rejeitam qualquer negociação sobre soberania. O impasse elevou o nível de tensão política e provocou respostas coordenadas do bloco europeu.
Além do campo diplomático, a crise avançou para as esferas militar e comercial, com envio simbólico de tropas europeias à região e ameaças de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos.
Escalada política e impacto na relação transatlântica
As declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de controle norte-americano da Groenlândia deixaram de ser tratadas como retórica isolada e passaram a integrar a agenda central das relações internacionais. O presidente norte-americano ampliou críticas públicas a líderes europeus e divulgou mensagens privadas envolvendo chefes de Estado e a liderança da Otan.
O episódio é avaliado por diplomatas como um teste direto à coesão da aliança militar, uma vez que Estados Unidos e países europeus integram o mesmo bloco de defesa coletiva. A crise também reforçou questionamentos sobre a previsibilidade da política externa norte-americana.
Autoridades europeias passaram a classificar o impasse como uma ameaça direta a território europeu, alterando o padrão histórico de respostas moderadas a Washington.
Reação da União Europeia e da Dinamarca
A União Europeia elevou o tom e declarou que não aceitará mudanças territoriais baseadas na força ou intimidação. O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que o bloco deve rejeitar a “lei do mais forte” e solicitou à Otan a realização de exercícios militares na Groenlândia.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avaliou o episódio como um sinal de mudança estrutural na ordem internacional, assegurando que o bloco responderá de forma coordenada.
A Dinamarca reafirmou que a Groenlândia não está à venda, enquanto o governo local passou a considerar cenários de segurança diante da possibilidade de uma incursão norte-americana, segundo autoridades da ilha.
Movimentação militar e simbolismo estratégico
Nos últimos dias, países europeus enviaram pequenos contingentes militares à Groenlândia. A medida foi classificada como simbólica, voltada à preparação de exercícios conjuntos e ao planejamento de reforços futuros.
Alemanha, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Dinamarca participaram da iniciativa, que busca sinalizar unidade política e compromisso com a defesa territorial.
Segundo líderes europeus, novas etapas de cooperação militar estão previstas ao longo de 2026, caso o impasse persista.
Frente econômica e ameaça de guerra comercial
No campo econômico, o governo dos Estados Unidos anunciou tarifas de 10% sobre produtos de países que enviaram tropas à Groenlândia, com ameaça de elevação para 25%. A medida ampliou o risco de guerra comercial transatlântica.
Em resposta, a União Europeia congelou um acordo tarifário negociado anteriormente e avalia a reativação de tarifas sobre cerca de € 93 bilhões em produtos norte-americanos.
Também está em análise o uso do Instrumento Anti-Coerção, mecanismo que permite limitar investimentos, contratos públicos e serviços financeiros de países que utilizem o comércio como ferramenta de pressão política.
Desgaste acumulado e futuro da aliança
A crise da Groenlândia ocorre em um contexto de desgaste prolongado nas relações entre Estados Unidos e Europa. Exigências por maiores gastos militares, mudanças unilaterais na política comercial e exclusão europeia de negociações internacionais ampliaram a desconfiança entre os aliados.
Embora a União Europeia discuta planos de fortalecimento da defesa própria, especialistas avaliam que a transição é lenta e ocorre em meio a desafios econômicos e à pressão geopolítica da Rússia e da China.
O impasse atual reforça dúvidas sobre o futuro da Otan e sobre a capacidade de preservação do modelo tradicional da relação transatlântica.
*Com informações da RFI e Sputnik News.











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