Eleição presidencial em Portugal leva socialista e ultradireitista ao segundo turno e confirma cenário político polarizado

Quase seis milhões de eleitores participaram do primeiro turno das eleições presidenciais em Portugal, realizado no domingo (18/01/2026), para escolher o sucessor do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que deixará o cargo em 09 de março de 2026. Como nenhum candidato atingiu 50% dos votos válidos, o pleito terá segundo turno, marcado para 8 de fevereiro de 2026.

Os mais votados foram o socialista António José Seguro, com 31,1% dos votos, e o ultradireitista André Ventura, líder do partido Chega, que obteve 23,5%. O resultado confirma um cenário de polarização política, com a disputa final entre campos ideológicos opostos.

O comparecimento às urnas foi considerado elevado para padrões recentes, com taxa de abstenção de 47%, a mais baixa registrada em eleições presidenciais nos últimos 15 anos, segundo dados oficiais.

Resultado do primeiro turno e posicionamento dos candidatos

Após a apuração, António José Seguro declarou que sua candidatura busca unificar o país, afirmando que não pretende governar “uma parte dos portugueses contra a outra”. O candidato socialista convocou eleitores de diferentes correntes progressistas para o segundo turno, defendendo uma agenda de contenção do extremismo político.

André Ventura, que lidera o Chega, afirmou que a soma dos votos obtidos por candidatos de direita no primeiro turno indicaria maioria eleitoral desse campo político. O ultradireitista defendeu a aglutinação das forças conservadoras para impedir a eleição de um presidente socialista ao Palácio de Belém, sede da Presidência da República.

A disputa do segundo turno é considerada atípica em Portugal, onde historicamente as eleições presidenciais costumam ser decididas ainda na primeira rodada.

Especialista aponta transformação estrutural do sistema político

Para o pesquisador Luca Manucci, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, especialista em populismo e extrema direita, os resultados confirmam uma transformação estrutural do sistema político português, caracterizada por maior fragmentação e polarização eleitoral.

Segundo ele, o simples fato de haver segundo turno já indica uma mudança relevante no padrão político do país. Manucci avalia que a esquerda radical perdeu capacidade de estruturar o debate público, abrindo espaço para a consolidação da extrema direita.

O pesquisador compara o cenário português ao modelo observado em eleições presidenciais da França, onde candidatos da extrema direita frequentemente chegam ao segundo turno, mas são derrotados por uma convergência de forças moderadas, fenômeno conhecido como “cordão sanitário”.

Ascensão do Chega e trajetória de André Ventura

André Ventura, de 42 anos, é formado em Direito, atuou como professor universitário e comentarista esportivo antes de ingressar de forma mais ampla na política. Ex-militante do Partido Social Democrata (PSD), foi eleito vereador em 2017, mas deixou a legenda para fundar o Chega.

Criado em 2019, o partido de extrema direita passou, em poucos anos, de força emergente a terceira maior bancada parlamentar, tornando-se, entre 2024 e 2025, a segunda maior força da Assembleia da República, com 60 deputados.

O discurso do Chega tem como eixo central a crítica à imigração, o questionamento das elites políticas e a rejeição a políticas de integração social, temas que passaram a ocupar espaço central no debate público português.

Imigração no centro da campanha e impacto sobre brasileiros

O avanço da extrema direita coincidiu com mudanças recentes na política migratória portuguesa, incluindo alterações nas leis de imigração e nacionalidade, o que gerou insegurança jurídica entre residentes estrangeiros. A questão ganhou destaque durante a campanha presidencial.

A cientista política Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil em Lisboa, avalia que Portugal vive uma mudança de paradigma, com endurecimento das regras, restrições ao reagrupamento familiar e maior controle sobre vistos e autorizações de residência.

Segundo ela, embora regras sempre tenham existido, o que se alterou foi a narrativa pública, que passou a tratar migrantes como potenciais ameaças, afetando diretamente a maior comunidade estrangeira do país, formada por mais de 400 mil brasileiros.

Nacionalidade, instituições e participação política

O debate também envolve mudanças na lei da nacionalidade, algumas das quais foram parcialmente barradas pelo Tribunal Constitucional. Para especialistas, há uma tendência de tratar a nacionalidade como mérito individual, e não como resultado de laços sociais, integração e pertencimento.

Alterações institucionais, como a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a criação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), também impactaram o atendimento administrativo, com relatos de atrasos e dificuldades na regularização documental.

Apesar de representarem cerca de 5% da população portuguesa, brasileiros naturalizados seguem com participação política limitada, reflexo de insegurança jurídica, dificuldades cotidianas e sentimento de exclusão do debate público.

Segundo turno e expectativas eleitorais

O segundo turno, marcado para (08/02/2026), ocorrerá em um contexto de disputa direta entre social-democracia e extrema direita, algo incomum na história recente portuguesa. A eleição será a primeira com forte participação de uma geração que não viveu a Revolução de 25 de Abril de 1974.

Cidadãos portugueses residentes no exterior, incluindo brasileiros com nacionalidade portuguesa, estão aptos a votar. O resultado deve definir não apenas o próximo presidente, mas também o rumo do sistema político português diante das transformações em curso.

*Com informações da RFI.


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