Incêndio em Crans-Montana deixa 40 mortos; Suíça decreta luto nacional e interroga donos de bar

A Suíça vive um dia de luto nacional nesta sexta-feira (09/01/2026) em homenagem às vítimas do incêndio ocorrido na estação de esqui de Crans-Montana, no cantão do Valais. A tragédia, registrada na noite de Ano-Novo, resultou na morte de 40 pessoas e deixou 116 feridos, a maioria adolescentes e jovens adultos, e é considerada um dos episódios mais graves do tipo no país nos últimos anos.

No mesmo dia das homenagens oficiais, os proprietários do bar Le Constellation, Jacques e Jessica Moretti, casal de nacionalidade francesa, prestam depoimento ao Ministério Público. O interrogatório ocorre às 8h no horário local, na cidade de Sion, capital cantonal, marcando a primeira oitiva formal do casal desde a abertura do inquérito, em 3 de janeiro de 2026.

Os investigadores apuram possíveis responsabilidades penais relacionadas a homicídio culposo, lesões corporais e incêndio por negligência. Jacques Moretti possui antecedentes criminais na França, tendo sido condenado em 2008 por um caso de proxenetismo. As autoridades avaliam se os proprietários tinham conhecimento prévio dos riscos envolvidos nas práticas adotadas no estabelecimento.

Investigação criminal e possíveis agravantes penais

Caso o Ministério Público conclua que houve consciência e aceitação do risco, o enquadramento jurídico poderá ser agravado para homicídio com dolo eventual, modalidade em que não há intenção direta de matar, mas o risco é assumido. A pena máxima prevista pode chegar a 20 anos de prisão, conforme a legislação suíça.

Apesar da gravidade do caso, não foi decretada prisão preventiva nem domiciliar contra o casal, decisão que gerou reação negativa entre familiares das vítimas. Em comunicado oficial, os proprietários afirmaram estar “colaborando totalmente” com as autoridades e declararam que “assumirão as consequências” dos desdobramentos judiciais.

Advogados que representam vítimas e familiares acompanham de perto a investigação. Sébastien Fanti, que defende quatro famílias de feridos, afirmou esperar avanços significativos após os depoimentos. Já Romain Jordan, representante de outros grupos, declarou que seus clientes se sentem aliviados por finalmente serem considerados formalmente no processo.

Questionamentos sobre medidas cautelares e preservação de provas

Jordan também destacou a necessidade de esclarecer a situação econômica dos investigados, apontando preocupação com a ausência de medidas restritivas, como buscas, apreensões ou bloqueios de bens. Segundo ele, nenhuma diligência desse tipo havia sido confirmada até o momento.

Outro ponto levantado pela defesa envolve a remoção de conteúdos digitais. De acordo com Jordan, nas primeiras horas após o incêndio, quando o bar ainda estava em chamas, as páginas do Le Constellation em redes sociais foram bloqueadas ou retiradas do ar, onde existiam imagens e vídeos da festa de Ano-Novo.

Para os representantes legais das vítimas, a ação pode indicar tentativa de minimizar responsabilidades. Ainda assim, Jordan ressaltou que o trabalho da imprensa permitiu a recuperação de diversos elementos digitais, considerados relevantes para o avanço do inquérito.

Uso de velas vulcão e falhas estruturais no estabelecimento

As investigações técnicas indicam que o incêndio começou após o uso de velas de faísca, conhecidas como velas vulcão, colocadas em garrafas de champanhe. As chamas teriam atingido painéis de espuma utilizados no revestimento acústico do teto do subsolo, material que contribuiu para a rápida propagação do fogo.

Imagens exibidas pela emissora pública RTS, em (05/01/2026), mostram que esse tipo de vela já havia sido utilizado anteriormente no local. Um vídeo gravado durante a festa de Ano-Novo de (2019) registra um funcionário alertando: “Cuidado com a espuma!”, o que, segundo advogados das vítimas, demonstra conhecimento prévio do risco.

A perícia também analisa a regularidade das obras realizadas no bar em 2015, os materiais empregados, as condições das saídas de emergência, os equipamentos de combate a incêndio e o cumprimento das normas de segurança, especialmente no que se refere ao uso de espumas inflamáveis.

Falhas de fiscalização e reconhecimento oficial do poder público

A situação gerou questionamentos sobre a atuação do poder público local. No dia 7 de janeiro, prefeitura de Crans-Montana reconheceu que o estabelecimento não passava por inspeções de segurança e incêndio desde 2019, informação que provocou indignação entre familiares, sobreviventes e autoridades estrangeiras.

O reconhecimento oficial ampliou o debate sobre responsabilidades institucionais, fiscalização preventiva e cumprimento de normas em locais de grande concentração de público, especialmente em eventos festivos.

Funerais mobilizam países europeus e ampliam pressão por respostas

Enquanto a investigação avança na Suíça, cerimônias fúnebres mobilizam outros países europeus. Na quarta-feira (07/01/2026), milhares de pessoas participaram dos funerais de quatro adolescentes italianos mortos no incêndio.

Em Milão, multidões se reuniram para homenagear Chiara Costanzo e Achille Barosi, ambos de 16 anos. Outras cerimônias ocorreram em Bolonha, Lugano e Roma, onde escolas realizaram minutos de silêncio.

Familiares criticaram a demora por respostas concretas, cobraram transparência das autoridades e reforçaram a necessidade de responsabilização rigorosa. Para muitos, o impacto da tragédia permanece como um choque coletivo de difícil assimilação.

*Com informações da RFI.


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