O Irã vive um momento de contestação ao regime de aiatolá Ali Khamenei, marcado por protestos generalizados e repressão intensa nas últimas semanas. Especialistas internacionais afirmam que, pela primeira vez desde a Revolução Iraniana de 1979, as condições para uma revolução bem-sucedida estão reunidas, incluindo crise econômica, mobilização social, apoio da elite, descrença no governo e ambiente internacional favorável, segundo entrevista de Jack A. Goldstone, da George Mason University, à revista Le Point, publicada no domingo (18/01/2026).
O contexto atual se distingue de eventos passados, como em 2009, 2018 e 2022, quando o regime conseguiu sufocar manifestações com foco em reivindicações sociais pontuais, sem ameaçar a permanência do governo islamita. A amplitude das atuais mobilizações e o direcionamento político das reivindicações indicam mudanças na dinâmica de contestação interna.
Outro fator observado pelas reportagens é a possível volta do exílio do príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do último xá deposto. Em manifestações recentes, há registro de retratos de Pahlavi e pedidos por seu retorno, reforçando o debate sobre alternativas ao regime vigente e a preferência por lideranças que priorizem interesses nacionais.
Apoio popular e pesquisas sobre Pahlavi
Segundo levantamento do Grupo de Análise e Medição das Atitudes no Irã, realizado na Holanda, Reza Pahlavi seria a personalidade política mais citada pelos iranianos, com 31% de intenção de voto em 2024. Além disso, 21% dos entrevistados defendem a volta da monarquia. A confiabilidade das pesquisas, no entanto, é limitada pelo contexto de proibição de sondagens políticas no país.
A presença de Pahlavi no debate político reflete tanto expectativa de mudança quanto polarização interna, com parte da população desejando alternativas ao regime e outra questionando o alinhamento do príncipe herdeiro a movimentos conservadores internacionais.
As manifestações indicam uma mobilização inédita, distinta de protestos anteriores, ao visar mudanças estruturais no governo, incluindo a saída de líderes religiosos do poder e a redefinição do sistema político iraniano.
Reza Pahlavi e conexões internacionais
O príncipe herdeiro mantém relações com grupos de extrema direita global, participando de eventos como a Conferência de Ação Política Conservadora, na qual já discursaram líderes como Nigel Farage, Javier Milei e Giorgia Meloni. Em 2023, Pahlavi se reuniu com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, reforçando sua presença internacional e rede de contatos políticos.
Nas redes sociais, Pahlavi também exalta figuras políticas como Donald Trump, o que gera questionamentos sobre sua orientação política e sua relação com a democracia. Essa atuação internacional é vista por especialistas como estratégica para consolidar apoio, mas suscita críticas internas.
A refugiada política iraniana Mahtab Ghorbani, residente na França, afirma que muitos jovens iranianos desconhecem a postura autoritária de Pahlavi, destacando que ele seria um oportunista político, em entrevista à Nouvel Obs. Essa avaliação reforça a complexidade do cenário político no Irã e a divisão de percepções sobre alternativas ao regime atual.
Perspectivas e desafios para o Irã
Especialistas apontam que, apesar das condições para mudança estarem presentes, a oposição ainda enfrenta dificuldades de organização, principalmente devido à repressão e à falta de articulação interna consistente. A viabilidade de uma transformação política dependerá da capacidade de manter mobilização popular, consolidar liderança e negociar contextos internacionais favoráveis.
A conjuntura atual evidencia tensão entre demandas internas e influência externa, com impactos diretos na estabilidade política e na projeção do Irã no cenário internacional. Observadores internacionais acompanham os próximos desdobramentos com atenção ao comportamento do regime e à reação dos movimentos sociais.
*Com informações da RFI.











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