As missionárias francesas Madeleine Hausser, conhecida como Mada, e Béatrice Kruch, chamada de Bia, atuam no sudoeste do Tocantins há décadas e defendem a luta pela terra como um compromisso religioso. As duas vivem no assentamento Lagoa da Onça, no município de Formoso do Araguaia, e vinculam sua atuação pastoral à defesa de direitos humanos, da reforma agrária e da população camponesa.
Com trajetória marcada pela atuação junto a comunidades rurais, Mada e Bia afirmam que a defesa do acesso à terra está diretamente relacionada à fé cristã, sobretudo a partir dos princípios da Teologia da Libertação, corrente que orientou sua chegada ao Brasil.
O trabalho das missionárias ocorre em uma região impactada pela expansão do agronegócio, intensificada nos últimos anos com projetos agrícolas de grande escala e mudanças no uso da terra.
Chegada ao Brasil durante a ditadura e opção pelos pobres
Mada e Bia desembarcaram no Brasil em 1967, ainda jovens, em pleno período da ditadura civil-militar (1964–1985). Vindas da França, chegaram como missionárias professoras, com o objetivo de atuar na evangelização a partir de uma perspectiva social.
A opção pastoral das religiosas foi orientada pela Teologia da Libertação, que propõe a centralidade dos pobres na prática cristã e a atuação direta contra situações de injustiça social.
Desde o início da trajetória no país, as missionárias priorizaram o trabalho de base, com atuação em comunidades populares e rurais, acompanhando conflitos fundiários e desigualdades estruturais.
Atuação nas Comunidades Eclesiais de Base e na Comissão Pastoral da Terra
No Brasil, a atuação das missionárias se inseriu no contexto das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que tiveram papel relevante na organização comunitária e na formação política de leigos em diferentes regiões do país.
A Teologia da Libertação também influenciou a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975, entidade vinculada à Igreja Católica que acompanha conflitos no campo e defende trabalhadores rurais. Anos após a chegada ao Brasil, Mada e Bia passaram a atuar diretamente na CPT.
Por meio desse trabalho, as religiosas acompanharam processos de regularização fundiária, denúncias de violência no campo e apoio a famílias assentadas.
Vivência no Tocantins e impactos do avanço do agronegócio
Após passarem por diferentes estados brasileiros, as missionárias se estabeleceram no sudoeste do Tocantins, região marcada por transformações no campo, especialmente com a expansão de grandes propriedades rurais.
O território passou a receber investimentos ligados ao agronegócio, com destaque para projetos de arroz irrigado e, posteriormente, para a consolidação do Matopiba, criado em 2015, que engloba áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Nesse contexto, Mada e Bia passaram a viver em um assentamento rural, reforçando a opção por compartilhar o cotidiano das famílias camponesas e acompanhar de perto os conflitos relacionados à terra.
Fé, direitos humanos e permanência no campo
Para as missionárias, a atuação religiosa não se limita à prática litúrgica. A defesa do direito à terra, segundo elas, integra o compromisso cristão com a dignidade humana e com a justiça social.
Mesmo com idade avançada, as duas mantêm participação ativa em encontros comunitários, articulações pastorais e ações voltadas à defesa dos direitos humanos no campo.
A trajetória das missionárias reflete uma visão de fé associada à transformação social e à permanência das populações rurais em seus territórios.











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