Às vésperas de ser preso e crucificado, Jesus repartiu pão e vinho com seus discípulos durante a Santa Ceia. O pão partido simbolizava a solidariedade e a caridade, fundamentos da convivência humana. O vinho, por sua vez, representava suas mensagens e ensinamentos, dos quais todos deveriam se “embriagar” espiritualmente, celebrando a união da humanidade em torno de sua palavra:
“Este é o meu sangue. Tomai e bebei.”
Esse simbolismo reaparece de forma marcante no episódio das Bodas de Caná, quando, em meio à celebração, o vinho se esgota. Informado do ocorrido, Jesus não tinha a intenção de embriagar convivas que já haviam bebido abundantemente. Ainda assim, ordenou que se enchessem de água as talhas, convidando-os a provar do conteúdo transformado. O espanto foi geral, a ponto de um dos presentes comentar:
“Nunca vi servirem o melhor vinho ao final da festa.”
Para alguns, o episódio poderia ser explicado como um fenômeno psicológico coletivo. Contudo, o Divino Mestre, antes de qualquer feito extraordinário, dirigia-se ao Pai, como ocorrera na multiplicação dos pães e dos peixes, que alimentou milhares, na cura do cego de nascença, na ressurreição de Lázaro, na cura da filha de Jairo e em tantos outros sinais. Há quem recorde, inclusive, o episódio simbólico do artesão que lhe moldou os cravos da cruz e teve a visão restaurada — um lembrete da misericórdia que precede o sacrifício.
Historicamente, a cultura da vinha possuía grande relevância econômica na Antiguidade, especialmente nas vindimas, que sustentavam parte significativa da agricultura primitiva. Da Península Itálica à Ásia Menor — abrangendo regiões como a atual Jordânia, Líbano e Síria —, estendendo-se à Pérsia, na Mesopotâmia entre os rios Tigre e Eufrates, e alcançando o norte da África, com Líbia e Egito, o vinho integrava a vida social, religiosa e econômica dos povos antigos.
O contraste com o presente é inevitável. Vivemos hoje em uma sociedade industrial, consumista e altamente competitiva, marcada por níveis elevados de estresse — com centenas de causas já identificadas — que frequentemente deságuam em ansiedade e depressão, fatores associados ao aumento dos casos de suicídio. Em meio a esse cenário, uma taça moderada de vinho pode favorecer o relaxamento e o sono, sem jamais substituir hábitos saudáveis.
A ciência contemporânea aponta que o vinho tinto, produzido a partir de uvas de casca escura, contém resveratrol, substância associada à proteção cardiovascular. Também se menciona a presença de pectina, embora benefícios semelhantes possam ser obtidos por meio do simples consumo do suco de uva, sem os efeitos do álcool.
Estudos sobre as populações mais longevas do planeta reforçam outro aspecto essencial. Pesquisas realizadas em regiões como Okinawa, no Japão; Loma Linda, nos Estados Unidos; e Ikária, na Grécia, indicam que o trabalho físico regular, especialmente ligado ao cultivo da terra, contribui decisivamente para a saúde do coração e a longevidade. Mais do que o vinho em si, o equilíbrio entre corpo, mente e propósito de vida parece ser o verdadeiro segredo.
No fim, o vinho de Jesus não é apenas bebida. É metáfora, ensinamento e convite à comunhão. Representa a partilha, a transcendência e a responsabilidade humana diante do próximo — valores tão antigos quanto necessários em um mundo que insiste em esquecê-los.
Sobre o autor
Advogado, jornalista, escritor e professor, Joseval Carneiro (joseval@plenus.net) reúne sólida trajetória no serviço público e na vida intelectual baiana. Delegado de Polícia aposentado, com especialização nos Estados Unidos, exerceu funções de direção no Detran do Distrito Federal e no Conselho Estadual de Trânsito da Bahia. Integra a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e ocupa a vice-presidência da Academia de Cultura da Bahia, destacando-se por sua atuação jornalística, produção literária e dedicação às instituições culturais.
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