Após um crescimento recorde do comércio global em 2025, estimado em cerca de 7% e com volume superior a US$ 35 trilhões, a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) projeta um cenário mais complexo para 2026. A avaliação consta na Atualização do Comércio Global, que identifica 10 tendências principais com potencial para redefinir os fluxos comerciais, as regras internacionais e o grau de integração entre economias.
Segundo a Unctad, o novo ambiente combina riscos estruturais e oportunidades, com impactos mais relevantes para países em desenvolvimento, que enfrentam maior exposição a choques externos, pressões regulatórias e instabilidade geopolítica.
O relatório projeta que o crescimento da economia mundial deverá permanecer moderado, em torno de 2,6% em 2026, refletindo a desaceleração em economias avançadas e a perda de dinamismo do comércio de bens.
As economias em desenvolvimento, excluindo a China, devem crescer 4,2%, enquanto as economias mais desenvolvidas apresentam desempenho inferior, com Estados Unidos projetados em 1,5%, China em 4,6% e Europa com estímulos fiscais limitados.
Pressão sobre economias em desenvolvimento e maior exposição a choques
A Unctad destaca que a desaceleração do crescimento global amplia a pressão sobre países em desenvolvimento, especialmente aqueles com elevada dependência de exportações e menor diversificação produtiva. A redução da demanda externa limita o crescimento e aumenta a vulnerabilidade a choques econômicos.
Outro fator relevante é a queda dos preços de minerais essenciais para a transição energética, que recuaram de forma significativa em relação aos picos observados entre 2021 e 2022. Embora essa retração reduza custos industriais, também contribui para a desaceleração de investimentos em países exportadores.
Segundo a agência, essa combinação de fatores tende a intensificar riscos financeiros, comerciais e geopolíticos em economias mais expostas.
Reforma das regras do comércio atinge momento decisivo
A reforma do sistema multilateral de comércio é apontada como uma das tendências centrais para 2026. A 14ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que ocorre em Yaoundé, nos Camarões, entre 26 e 29 de março, acontece em um contexto de aumento de tarifas unilaterais e tensões geopolíticas persistentes.
Para os países em desenvolvimento, o relatório aponta como prioridades a restauração do sistema de resolução de litígios, a preservação do espaço para políticas públicas nacionais e o avanço das negociações em temas como agricultura, pescas, comércio digital e facilitação do investimento.
A Unctad avalia que a ausência de avanços nessas áreas pode aprofundar a fragmentação do comércio global.
Tarifas elevadas ampliam incertezas no comércio internacional
O uso de tarifas como instrumento estratégico e protecionista deve continuar em 2026. O aumento registrado em 2025, especialmente na indústria transformadora, elevou custos de produção, afetou decisões de investimento e ampliou a incerteza nos mercados.
De acordo com o relatório, os impactos são mais significativos em economias pequenas e menos diversificadas, que possuem menor capacidade de adaptação a choques tarifários e restrições comerciais.
A tendência contribui para a redução da previsibilidade e para o enfraquecimento do ambiente de negócios internacional.
Cadeias globais de valor passam por reconfiguração geopolítica
As cadeias globais de valor continuam a se reconfigurar, com empresas priorizando a gestão de riscos geopolíticos e logísticos, em detrimento de decisões baseadas exclusivamente em custos.
A diversificação de fornecedores, a relocalização da produção e o maior controlo das cadeias de abastecimento estão a criar novos polos comerciais, ainda que com potencial redução da eficiência global.
Segundo a Unctad, esse movimento altera padrões históricos de integração econômica e redefine fluxos de investimento.
Serviços impulsionam o comércio e ampliam divisões digitais
Os serviços consolidam-se como motor do comércio internacional, representando 27% do comércio mundial e registando crescimento de cerca de 9% em 2025, superando o desempenho do comércio de bens.
Os serviços digitalmente prestáveis já correspondem a mais de metade das exportações globais de serviços, mas o relatório alerta para a persistência da divisão digital entre economias desenvolvidas e países menos desenvolvidos.
A limitação de infraestrutura e capacitação tecnológica segue como obstáculo à participação mais ampla desses países.
Comércio Sul–Sul ganha relevância no crescimento global
O comércio entre países em desenvolvimento tornou-se um dos principais motores do crescimento comercial global. Atualmente, 57% das exportações dessas economias destinam-se a outros mercados do Sul.
O avanço é impulsionado sobretudo pelas cadeias regionais asiáticas e pelo aumento das trocas intra-regionais em África, fortalecendo a integração econômica regional.
Segundo a Unctad, essa tendência reduz a dependência de mercados tradicionais, mas não elimina vulnerabilidades estruturais.
Questões ambientais influenciam políticas comerciais
As prioridades ambientais seguem a moldar o comércio global, com compromissos climáticos mais ambiciosos e a expansão de mercados ligados a tecnologias limpas.
Instrumentos como mecanismos de ajuste de carbono e políticas industriais verdes passam a influenciar a competitividade internacional e o acesso aos mercados, com efeitos diferenciados entre países.
A Unctad destaca a necessidade de apoio técnico para evitar impactos desproporcionais sobre economias em desenvolvimento.
Volatilidade nos mercados de minerais críticos persiste
Os minerais essenciais para a transição energética enfrentam um cenário de volatilidade. A queda de preços reduziu custos no curto prazo, mas também desacelerou investimentos em exploração e produção.
Ao mesmo tempo, restrições à exportação e riscos geopolíticos mantêm preocupações quanto à segurança do abastecimento, elemento considerado estratégico para cadeias industriais globais.
O relatório alerta para a necessidade de cooperação internacional nesse setor.
Comércio agrícola mantém papel central na segurança alimentar
O comércio agrícola permanece fundamental para a segurança alimentar, sobretudo em países em desenvolvimento dependentes de importações para atender necessidades básicas.
Conflitos armados, eventos climáticos extremos e preços elevados de fertilizantes continuam a tornar os mercados agrícolas vulneráveis a choques.
A Unctad defende políticas coordenadas para reduzir riscos e garantir estabilidade no fornecimento de alimentos.
Regulações comerciais tornam-se mais restritivas
Desde 2020, milhares de medidas comerciais discriminatórias foram introduzidas, com destaque para regulamentos técnicos e normas sanitárias, que afetam parcela significativa do comércio mundial.
Para 2026, a expectativa é de expansão das medidas não tarifárias, com impactos desiguais entre países, dependendo da capacidade de adaptação regulatória.
A Unctad conclui que o comércio global deverá enfrentar maior fragmentação, mudanças estruturais e desafios regulatórios.
*Com informações da ONU News.











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