A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) afirmou que a inteligência artificial (IA) não pode nem deve substituir os professores nos sistemas educativos. Segundo a agência, a forma como a tecnologia é adotada terá impacto direto na qualidade da educação e no bem-estar das futuras gerações.
A Unesco destaca que a discussão global sobre IA na educação precisa ir além da adoção tecnológica e considerar aspectos pedagógicos, éticos, sociais e culturais. Para a organização, a educação deve continuar sendo tratada como bem público, com centralidade no desenvolvimento humano e na interação social.
De acordo com a agência, o avanço da IA exige políticas públicas claras, alinhadas à proteção de direitos, à valorização do trabalho docente e à redução de desigualdades educacionais, especialmente em países em desenvolvimento.
Mitos sobre a inteligência artificial na educação
A chefe da seção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação da Unesco, Shafika Isaacs, afirmou que um dos principais mitos é a ideia de que a IA pode substituir professores. Segundo ela, embora a tecnologia possa auxiliar na gestão de dados e em tarefas administrativas, não é capaz de promover o desenvolvimento humano integral.
Para Isaacs, a educação é uma experiência social, humana e cultural, que depende da mediação pedagógica, do vínculo entre educadores e estudantes e do contexto local. A Unesco reforça a necessidade de investir na formação e valorização docente, destacando a projeção de 44 milhões de novos professores necessários até 2030.
Outro mito recorrente identificado pela agência é o da personalização total do ensino por meio de algoritmos. A Unesco alerta que a aprendizagem não deve ser reduzida a trajetórias automatizadas, mas sim estimular interação social, pensamento crítico, criatividade e valores éticos.
Qualidade da aprendizagem e limites da automação
A Unesco também chama atenção para o chamado mito da velocidade, que associa qualidade educacional à rapidez na obtenção de respostas corretas. Segundo a organização, aprender exige tempo, esforço e reflexão, e a eficiência tecnológica não pode se sobrepor à profundidade do processo educativo.
A agência defende que métricas automatizadas e testes padronizados não devem ser os únicos critérios para avaliar a aprendizagem. O foco, segundo a Unesco, deve estar na formação integral do estudante, considerando competências cognitivas, sociais e emocionais.
Nesse contexto, a IA pode ser utilizada de forma complementar, desde que integrada a projetos pedagógicos consistentes, com supervisão humana e objetivos educacionais bem definidos.
Potenciais benefícios do uso ético da IA
Apesar dos riscos, a Unesco reconhece que a inteligência artificial pode trazer benefícios relevantes quando utilizada de maneira ética e responsável. A tecnologia pode funcionar como ferramenta de apoio ao pensamento crítico, incentivando a análise, a reflexão e a resolução de problemas.
Essa abordagem está presente no Quadro de Competências em IA para Estudantes, desenvolvido pela Unesco, que propõe o uso consciente da tecnologia como suporte ao aprendizado, e não como substituto do esforço cognitivo.
A agência também aponta o potencial da IA para promover inclusão linguística e cognitiva, apoiando línguas indígenas, comunidades marginalizadas e estudantes neurodivergentes, além de possibilitar sistemas de alerta precoce para identificar alunos em risco de evasão escolar.
Riscos associados ao uso inadequado da tecnologia
A Unesco identifica três riscos principais no uso inadequado da IA na educação. O primeiro é a externalização do pensamento, quando estudantes passam a depender da tecnologia para evitar o esforço intelectual, comprometendo o desenvolvimento do pensamento crítico.
Outro risco envolve o enviesamento algorítmico e a perda de soberania dos dados, especialmente quando sistemas de IA são controlados por plataformas externas, sem adaptação cultural ou controle local. A agência alerta para problemas de privacidade, segurança da informação e direitos das crianças.
O terceiro risco destacado é a erosão do papel social da escola, caso a aprendizagem se torne excessivamente individualizada e os professores sejam reduzidos à função de gestores de dados. Para a Unesco, é fundamental preservar a escola como espaço de justiça social, convivência e conexão humana.
Governança da IA e desafios futuros
A Unesco avalia que o debate global sobre inteligência artificial está evoluindo de uma discussão sobre o uso da tecnologia para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para uma reflexão mais ampla sobre como governar a IA de forma responsável.
Segundo a agência, o risco de aprofundamento das desigualdades tecnológicas exige uma resposta coletiva, baseada na solidariedade internacional, na cooperação entre países e na construção de marcos regulatórios centrados em direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
Como agência das Nações Unidas, a Unesco atua como plataforma global de referência normativa, promovendo diretrizes que orientam os países na adoção ética da inteligência artificial nos sistemas educativos.
*Com informações da ONU News.











Deixe um comentário