Um acontecimento irrompe. Um colapso financeiro. Uma decisão judicial. Uma pandemia. Um vídeo. Antes mesmo que seus contornos estejam estabilizados, o real já está saturado de interpretações. Especialistas disputam significados, redes sociais amplificam narrativas, instituições procuram enquadrar o evento em categorias reconhecíveis. O fato não aparece nu; surge envolto em linguagem. Não há instante originário em que o real se ofereça como pura presença não mediada. Aquilo que chamamos de realidade manifesta-se apenas na espessura de estruturas interpretativas que a tornam inteligível. O fenômeno não é patologia contemporânea; é a condição estrutural da experiência humana. O equívoco moderno foi imaginar que essa mediação pudesse ser suspensa, que a consciência pudesse alcançar o mundo como ele é, sem história, sem linguagem, sem tradição. A hermenêutica filosófica nasce da recusa radical dessa ilusão.
O ponto de inflexão não é metodológico, mas ontológico. Com Martin Heidegger, a interpretação deixa de ser procedimento aplicado a objetos e torna-se constituição do próprio existir. O ser humano não é sujeito diante de coisas; é ser-no-mundo. Essa expressão não descreve localização espacial, mas estrutura ontológica: estar-no-mundo significa já compreender o mundo. A compreensão não é ato secundário que sobrevém à percepção; é a condição que a torna possível. Não há percepção bruta. O martelo não é inicialmente objeto físico que depois recebe função; ele é experimentado como algo-para-martelar. A significatividade precede a tematização. A experiência do real é sempre já experiência de um mundo articulado.
Essa estrutura implica uma consequência decisiva: não existe acesso não interpretativo ao real. Não porque o real seja construção subjetiva, mas porque o modo humano de acesso ao real é sempre mediado por estruturas prévias de sentido. A ontologia hermenêutica não dissolve o ser em discurso; ela mostra que o ser só se dá ao humano na forma de mundo compreendido. O real não é produto da linguagem, mas só é habitável linguisticamente. O mundo humano é mundo articulado.
A historicidade dessa articulação é explicitada por Hans-Georg Gadamer, que eleva a compreensão à categoria de acontecimento histórico. A consciência não paira acima da tradição; pertence a ela. Aquilo que denominamos preconceito, pré-compreensão, não é desvio acidental, mas condição estrutural. Não há interpretação a partir do zero. Toda compreensão parte de horizontes herdados. A experiência do real é sempre fusão entre o horizonte do intérprete e o horizonte daquilo que se apresenta. O sentido não é extraído; emerge.
Mas essa emergência não é arbitrária. A tradição não aprisiona; orienta. O encontro com o real pode transformar o horizonte. A experiência autêntica é aquela que rompe expectativas sedimentadas e reconfigura perspectivas. A verdade, nesse contexto, não é adequação estática entre representação e objeto; é evento que ocorre quando o horizonte se alarga. A hermenêutica, assim compreendida, não relativiza o real; radicaliza sua profundidade.
O problema contemporâneo não consiste na descoberta dessa estrutura, mas na intensificação de suas implicações. A modernidade tardia introduziu um fator que altera a escala da experiência: a mediação tecnológica massiva. O horizonte de compreensão já não é moldado apenas por tradição histórica difusa, mas por sistemas organizados de produção simbólica. É aqui que a intuição de Walter Lippmann se torna estruturalmente relevante. Lippmann observou que a opinião pública reage a imagens construídas, “pictures in our heads”, e não ao mundo em sua complexidade. Essa mediação não é superficial; é constitutiva. O real público é sempre já filtrado.
A hermenêutica ontológica encontra, assim, sua dimensão política. Se o horizonte de compreensão é condição de possibilidade da experiência do real, então a configuração desse horizonte é campo de poder. A formação da realidade pública depende da organização da visibilidade. Aquilo que aparece como evidente, urgente, indiscutível resulta de enquadramentos que selecionam e hierarquizam elementos. A experiência do real torna-se fenômeno estratégico.
A radicalidade dessa condição manifesta-se quando consideramos a fragmentação contemporânea dos horizontes. A promessa iluminista de uma esfera pública racional pressupunha algum grau de compartilhamento interpretativo. Contudo, a arquitetura digital segmenta experiências, produz bolhas hermenêuticas, reforça convicções preexistentes. A fusão de horizontes, condição da compreensão ampliada, cede espaço à solidificação de perspectivas autossuficientes. O resultado não é pluralismo dialógico, mas coexistência de mundos paralelos.
Essa fragmentação exige que retomemos a distinção entre historicidade e historicismo. A crítica de Karl Popper ao determinismo histórico permanece pertinente. A historicidade da compreensão não implica que todas as narrativas sejam igualmente legítimas. A hermenêutica madura reconhece limites. O real resiste. A experiência pode desmentir expectativas. A linguagem não é soberana sobre o ser; é meio de seu desvelamento parcial.
Ao mesmo tempo, a análise de Thomas S. Kuhn acerca dos paradigmas científicos revela a profundidade dessa mediação. Mudanças paradigmáticas não alteram a estrutura ontológica do mundo, mas transformam o que se torna visível e significativo. O mundo experimentado pelos cientistas após uma revolução teórica não é o mesmo mundo experienciado antes. Não porque a matéria tenha mudado, mas porque as categorias de inteligibilidade foram reconfiguradas. A experiência do real é, portanto, historicamente reconfigurável.
Se trasladarmos essa dinâmica para o campo político, percebemos que crises institucionais frequentemente não são apenas conflitos de interesse, mas conflitos de mundo. A divergência não se limita a opiniões; atinge a estrutura de percepção do real. O debate público torna-se disputa por definição da própria realidade. A hermenêutica revela que essa disputa não é patologia contingente; é expressão da condição interpretativa humana. Contudo, quando essa condição é instrumentalizada por sistemas de manipulação simbólica, a própria possibilidade de verdade compartilhada é ameaçada.
A questão central não é se a realidade é construída, mas como o sentido do real é constituído e sob quais condições pode ser criticamente revisado. A hermenêutica não autoriza o niilismo. Ao contrário, fundamenta uma concepção mais exigente de verdade. Verdade não é ausência de mediação; é mediação que se reconhece como tal e permanece aberta ao diálogo. A objetividade não consiste em escapar da historicidade, mas em submetê-la à confrontação intersubjetiva.
A experiência do real, nessa perspectiva, é inseparável da responsabilidade interpretativa. Não se trata de afirmar que cada sujeito cria sua própria realidade, mas de reconhecer que cada sujeito participa da configuração do mundo compartilhado. A linguagem, longe de ser mero veículo, é o espaço onde o mundo comum se forma. Quando esse espaço se deteriora, a realidade pública fragmenta-se.
A densidade ontológica da hermenêutica permite compreender que o problema contemporâneo não é meramente informacional, mas estrutural. A crise da verdade não decorre apenas de excesso de dados, mas da erosão das condições de fusão de horizontes. Se a compreensão exige abertura à alteridade, a radicalização identitária bloqueia essa abertura. A experiência do real torna-se confirmação de preconceitos, não transformação deles.
Ainda assim, a hermenêutica mantém uma aposta fundamental: o real não é indiferente às interpretações. A experiência pode corrigir. O diálogo pode reconfigurar horizontes. A verdade pode emergir como evento de desvelamento. A condição hermenêutica não é condenação ao relativismo, mas reconhecimento da finitude humana. Somos seres históricos, linguísticos, situados. Não possuímos o real; habitamo-lo interpretativamente.
A conclusão que se impõe é rigorosa: o real existe independentemente de nossas descrições, mas só se torna experiência humana enquanto articulado em sentido. A experiência do real não é construção ontológica do ser, mas constituição histórica de sua inteligibilidade. Entre o dogmatismo que supõe acesso imediato e o relativismo que dissolve o real em discurso, a hermenêutica afirma uma via mais exigente: a do pertencimento crítico.
O fenômeno inicial, o evento viral, não é trivial. Ele é sintoma de uma condição que sempre existiu, agora amplificada. A experiência do real é sempre experiência compreendida. A tarefa de nosso tempo não é abolir a interpretação, mas aprofundar sua consciência. Porque apenas onde há reconhecimento da mediação pode haver responsabilidade. E apenas onde há responsabilidade pode haver mundo comum.
O real não se oferece como dado transparente. Ele se desvela na tensão entre tradição e novidade, entre linguagem e mundo, entre pertencimento e crítica. A hermenêutica, em sua maturidade, não reduz o mundo ao discurso, mas impede que o discurso se imagine soberano. O real permanece, resistente e inesgotável, convocando-nos incessantemente a compreender melhor.
*Zilan Costa e Silva, advogado e professor.








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