Filme brasileiro sobre bebê sequestrada na ditadura estreia em festival na França e resgata memória histórica

O filme brasileiro “Ela foi ali guardar o coração na geladeira” teve estreia mundial na segunda-feira (23/03/2026) durante o festival Cinélatino, realizado em Toulouse, no sudoeste da França. A produção, dirigida por Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, aborda a história de uma mulher sequestrada ainda bebê durante a ditadura militar brasileira.

O longa integra a competição oficial de ficção do evento e apresenta uma narrativa construída a partir de “cartas-vídeo”, nas quais a protagonista relata sua trajetória marcada pela perda de identidade.

A obra é inspirada em relatos reais de crianças brasileiras sequestradas durante o regime, cujos casos passaram a ser discutidos mais recentemente.

Narrativa aborda identidade e impactos da ditadura

A história acompanha a personagem Veronica, filha de uma presa política morta durante o regime militar, que foi entregue ainda bebê a uma família ligada à ditadura no Uruguai.

Por meio de relatos enviados à sobrinha, a personagem reconstrói sua trajetória e questiona a própria identidade, descrevendo sua vida como uma construção baseada em informações ocultadas.

A abordagem utiliza elementos ficcionais com base em acontecimentos reais, trazendo à tona episódios pouco difundidos sobre o período.

Produção destaca ausência de responsabilização histórica

Os diretores apontam que a motivação do filme inclui a discussão sobre a memória da ditadura militar no Brasil e a falta de responsabilização por crimes ocorridos no período.

Segundo a produção, casos de sequestro de crianças foram historicamente associados a outros países da América do Sul, mas investigações recentes indicam ocorrências também no Brasil.

A ausência de processos judiciais amplos sobre esses episódios é destacada como um fator que contribuiu para a baixa visibilidade do tema.

Linguagem audiovisual combina ficção e aspecto documental

O longa utiliza o formato de cartas em vídeo como recurso narrativo, aproximando a ficção de uma estética documental.

Essa escolha permite a apresentação de relatos pessoais e a construção de uma narrativa baseada em memória, identidade e reconstrução histórica.

A proposta busca conectar o público a experiências individuais relacionadas a eventos coletivos do período.

Debate sobre memória e novas gerações

Os realizadores destacam a importância de discutir o tema com o público jovem, ampliando o acesso a informações sobre o período da ditadura militar.

A produção também aborda a circulação de conteúdos sobre o tema em ambientes digitais e o impacto dessas narrativas na percepção histórica.

O filme dialoga com outras produções recentes do cinema brasileiro que tratam do mesmo período, ampliando o debate sobre memória e registro histórico.

*Com informações da RFI.


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