A Pastoral Afro-Brasileira (PAB) da Arquidiocese de Feira de Santana participou da 10ª Romaria Quilombola, realizada entre 5 e 7 de junho de 2026, em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. O encontro reuniu comunidades quilombolas de diferentes regiões do país em uma programação voltada à fé, memória histórica, formação, organização comunitária e defesa dos direitos dos povos quilombolas.
Com o tema “Seminário da Alforria: 30 anos da CONAQ, reafirmar a luta, celebrar as conquistas”, a programação incluiu celebrações religiosas, atividades formativas, debates, reflexões e manifestações culturais. O evento foi articulado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e pela Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CEAQ), em parceria com instituições ligadas às comunidades tradicionais.
A delegação da Arquidiocese de Feira de Santana foi composta por cerca de 100 participantes, representantes de 20 comunidades quilombolas, que viajaram ao santuário em três ônibus, acompanhados pelo padre Ibrahim Muinde, referencial da Pastoral Afro-Brasileira.
Romaria preserva memória histórica da população negra
A Romaria Quilombola tem origem em um episódio histórico ocorrido em 13 de junho de 1888, cerca de um mês após a promulgação da Lei Áurea. Na ocasião, negros recém-libertos realizaram uma peregrinação até o Santuário do Bom Jesus da Lapa em agradecimento pela conquista da liberdade.
Conhecida como Romaria dos Pretos ou Encontro da Alforria, a caminhada tornou-se um símbolo da resistência, da preservação da memória e da busca por dignidade da população negra.
De acordo com registros históricos, os peregrinos levaram ao santuário moedas economizadas ao longo dos anos para comprar suas cartas de alforria. Após conquistarem a liberdade, decidiram ofertar os recursos em agradecimento. O metal arrecadado foi utilizado na fundição dos sinos das torres da igreja, instalados com a participação dos próprios libertos.
Procissão mantém viva a memória da resistência
Um dos momentos centrais da Romaria Quilombola ocorre durante a procissão em direção ao santuário. Ao chegarem à esplanada, os sinos são tocados em memória da chegada dos negros e negras que participaram da histórica Romaria dos Pretos.
O gesto simboliza a preservação da memória dos ancestrais e reforça o reconhecimento da trajetória de resistência construída pelas comunidades quilombolas ao longo da história.
Segundo o padre Ibrahim Muinde, a participação da Igreja fortalece o compromisso pastoral com as comunidades quilombolas e contribui para ampliar o diálogo sobre direitos, inclusão e valorização da cultura afro-brasileira.
“A participação é uma caminhada que a Igreja vem se esforçando para fazer e acontece em um momento importante de atualização dos documentos da Pastoral Afro-Brasileira e do estudo sobre a relação da Igreja com as comunidades quilombolas. Isso reforça o compromisso da Igreja junto a essas comunidades e mostra que essa luta precisa continuar sendo celebrada.”, afirmou.
Igreja destaca aproximação com as comunidades quilombolas
O sacerdote também ressaltou o acolhimento oferecido pelo Santuário do Bom Jesus da Lapa e a importância de manter viva a memória da escravidão, da resistência e da contribuição histórica da população negra para a formação do país.
“Ir até o Bom Jesus é levar esse suor, essa caminhada, as lutas de cada território, os agradecimentos pelas vitórias e o reconhecimento do papel da Igreja nesse processo de abrir as portas para as comunidades quilombolas.”, destacou padre Ibrahim Muinde.
A integrante da coordenação da Pastoral Afro-Brasileira Arquidiocesana, Francisca das Virgens Fonseca, também ressaltou o significado da presença da Igreja durante a romaria.
“Esse é um momento em que fazemos memória, em que nos reunimos, com uma participação muito significativa. Para nós, das comunidades quilombolas, é muito importante sentir a presença da Igreja Católica neste momento de romaria.”, afirmou.
Ao chegar à 10ª edição, a Romaria Quilombola reafirma seu papel como espaço de espiritualidade, memória histórica, fortalecimento da identidade quilombola, preservação cultural e promoção do diálogo em torno da defesa dos territórios tradicionais e dos direitos das comunidades.








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