Brexit completa 10 anos em meio à crise política no Reino Unido, avanço de Farage e debate sobre retorno à União Europeia

O referendo que definiu a saída do Reino Unido da União Europeia completa dez anos nesta terça-feira (23/06/2026), em um momento marcado por nova crise política, mudanças no cenário partidário e crescimento do debate sobre uma possível reaproximação com o bloco europeu. A data coincide com a renúncia de mais um primeiro-ministro britânico, ampliando um período de instabilidade que já resultou na passagem de seis chefes de governo desde a votação de 2016.

A saída da União Europeia continua influenciando temas centrais da política britânica, incluindo imigração, comércio exterior, crescimento econômico e relações diplomáticas. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes indicam que parte significativa da população passou a reavaliar os efeitos do Brexit.

Após a vitória do Partido Trabalhista nas eleições de 2024, que marcou o retorno da legenda ao poder, o governo liderado por Keir Starmer enfrentou queda de popularidade. O cenário abriu espaço para discussões sobre uma renovação interna no partido, com o nome de Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, aparecendo entre os mais citados para assumir a liderança do governo.

Crescimento do Reform UK amplia disputa política

A ascensão do partido Reform UK, liderado por Nigel Farage, tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre os partidos tradicionais. Farage, uma das figuras mais associadas à campanha pela saída da União Europeia, mantém a imigração como tema central de sua atuação política.

O avanço da legenda tem provocado preocupação entre setores conservadores e liberais, especialmente diante do aumento da polarização sobre políticas migratórias. O debate continua fortemente ligado aos argumentos que impulsionaram a campanha do Brexit há uma década.

Enquanto isso, pesquisas apontam mudanças na percepção pública sobre a permanência fora da União Europeia. Levantamento da consultoria Ipsos indica que quase 60% dos britânicos apoiariam o retorno ao bloco europeu caso um novo referendo fosse realizado atualmente.

A insatisfação é ainda mais expressiva na Escócia. Dados divulgados pelo instituto YouGov apontam que cerca de 75% dos escoceses avaliam negativamente os resultados do Brexit.

Imigração continua no centro do debate nacional

A imigração foi um dos principais temas da campanha de 2016 e permanece no centro das discussões políticas do Reino Unido. Durante o período de livre circulação dentro da União Europeia, o número de cidadãos europeus residentes no país cresceu significativamente.

Após a implementação do Brexit, porém, os fluxos migratórios não diminuíram da forma esperada por parte dos eleitores. Universidades britânicas ampliaram o recrutamento de estudantes internacionais, enquanto o sistema público de saúde continuou dependente de trabalhadores estrangeiros.

Além disso, o governo britânico concedeu vistos humanitários a cidadãos da Ucrânia e de Hong Kong. Paralelamente, conflitos internacionais, crises econômicas e os impactos das mudanças climáticas impulsionaram novos fluxos migratórios em direção ao país.

A travessia irregular do Canal da Mancha por migrantes oriundos principalmente da África e da Ásia tornou-se um dos temas mais sensíveis da política britânica. Muitos chegam ao território inglês para solicitar asilo, ampliando o debate sobre controle de fronteiras e políticas humanitárias.

Impactos econômicos seguem em discussão

Os efeitos econômicos do Brexit continuam sendo objeto de análise por especialistas e autoridades britânicas. As previsões feitas antes da saída do bloco apontavam riscos elevados para a economia nacional, embora fatores posteriores também tenham influenciado o desempenho econômico do país.

Entre esses fatores estão a pandemia de Covid-19, os conflitos internacionais e as mudanças no comércio global. Apesar de o Reino Unido não ter entrado em uma recessão prolongada associada exclusivamente ao Brexit, indicadores apontam perda de dinamismo econômico.

Segundo dados do Banco da Inglaterra citados no debate público sobre o tema, a economia britânica ficou cerca de 6% menor do que poderia ter sido sem a saída da União Europeia, enquanto os investimentos registraram queda próxima de 18%.

A União Europeia permanece como o principal parceiro comercial do Reino Unido. Entretanto, a relação passou a operar sob novas condições, incluindo barreiras alfandegárias, exigências sanitárias e maior volume de regulamentações.

Embora Londres tenha firmado acordos de livre comércio com países como Índia, Austrália e Nova Zelândia, os resultados não compensaram integralmente a redução da integração econômica com os mercados europeus.

Trabalhistas enfrentam desgaste após retorno ao poder

Durante os anos posteriores ao Brexit, o Partido Trabalhista adotou postura cautelosa em relação ao tema. A estratégia buscava evitar conflitos com parte do eleitorado que apoiou a saída da União Europeia, especialmente em regiões industriais do país.

Com o crescimento do Reform UK, o governo de Keir Starmer passou a endurecer o discurso sobre imigração. Algumas declarações do premiê provocaram críticas de setores progressistas e contribuíram para o desgaste da sua base política.

Parte dos eleitores trabalhistas migrou para partidos como o Verde, enquanto outros passaram a apoiar o Reform UK. O movimento evidenciou a fragmentação do eleitorado britânico e ampliou os desafios para a manutenção da maioria parlamentar conquistada em 2024.

Nesse contexto, Andy Burnham surge como um dos nomes mais mencionados para liderar uma nova etapa do Partido Trabalhista. Embora tenha sido contrário ao Brexit, Burnham construiu sua trajetória política em uma região onde a maioria dos eleitores votou pela saída da União Europeia.

Reino Unido busca reaproximação com a Europa

Dez anos após o referendo, cresce entre autoridades e setores econômicos a discussão sobre mecanismos de aproximação entre Reino Unido e União Europeia.

Nos últimos meses, o governo britânico vinha negociando novos entendimentos com Bruxelas, incluindo acordos sanitários e programas de mobilidade voltados para estudantes e jovens trabalhadores.

Uma cúpula prevista para o dia 22 de julho tinha como objetivo avançar nessas negociações. Contudo, após a renúncia de Keir Starmer nesta terça-feira (23/06/2026), o encontro foi temporariamente adiado até a definição do novo primeiro-ministro.

A decisão demonstra que, mesmo após uma década, o Brexit continua exercendo influência direta sobre a política britânica, as relações internacionais do país e os debates sobre seu futuro econômico e institucional.

*Com informações da RFI.


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