A industrialização da construção civil pode se tornar um dos principais instrumentos para elevar a produtividade do setor, reduzir o tempo de execução de obras e ampliar a oferta de moradias no país. A avaliação consta no estudo “Construção no Brasil: Agenda para Modernização do Setor”, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que propõe medidas para acelerar a adoção de métodos construtivos industrializados e enfrentar desafios relacionados à habitação e à infraestrutura.
Segundo o levantamento, a ampliação da chamada construção off-site — modelo em que partes de edifícios e obras são produzidas em ambiente industrial e posteriormente montadas nos canteiros — pode gerar ganhos de eficiência semelhantes aos observados na indústria de transformação. A entidade avalia que a incorporação de processos industriais ao setor pode contribuir para a modernização das atividades construtivas.
O estudo também relaciona a baixa produtividade da construção civil aos desafios enfrentados pelo país para reduzir o déficit habitacional estimado em quase 6 milhões de unidades e ampliar investimentos em infraestrutura.
Construção industrializada é apontada como alternativa para aumentar eficiência
De acordo com a CNI, a construção industrializada permite transferir parte significativa da produção para ambientes controlados, onde componentes estruturais e módulos podem ser fabricados de forma padronizada antes de serem transportados para os locais das obras.
O modelo busca aplicar à construção civil técnicas já utilizadas na indústria de manufatura, incluindo automação, digitalização de processos e métodos de produção enxuta. A expectativa é que essas práticas contribuam para reduzir desperdícios, otimizar etapas produtivas e aumentar a previsibilidade dos projetos.
Para o especialista de Políticas e Indústria da CNI, Inacio Cozendey, a adoção desses sistemas pode representar uma mudança estrutural no desempenho do setor.
“Esse cenário ajuda a explicar o déficit habitacional de quase 6 milhões de unidades que o Brasil tem, e também uma infraestrutura carente de investimentos. A gente aponta que a construção industrializada, isso é, a construção em indústrias de partes de edifícios e de obras com ambientes controlados e repetição de processos, permitiria ganhos semelhantes aos da manufatura quando tratamos de produtividade”, afirmou.
Estudo sugere incentivos públicos para ampliar adoção da tecnologia
Entre as propostas apresentadas pela entidade está a utilização do poder de compra do Estado para estimular a adoção de sistemas construtivos industrializados. A CNI defende que políticas públicas possam criar condições para ampliar a demanda por esse tipo de solução.
Uma das medidas sugeridas prevê a criação de uma cota de unidades habitacionais produzidas por métodos industrializados dentro do programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo o estudo, a iniciativa poderia contribuir para reduzir o prazo de entrega dos empreendimentos habitacionais e ampliar a escala de utilização da tecnologia.
A entidade argumenta que a participação do setor público pode desempenhar papel relevante na consolidação de novos modelos produtivos, especialmente em projetos voltados à habitação popular e à infraestrutura.
Produtividade da construção civil caiu 20,4% entre 1995 e 2024
O diagnóstico elaborado pela CNI mostra que a produtividade da construção civil brasileira apresentou retração nas últimas décadas. Conforme os dados do estudo, a produtividade da população ocupada no setor registrou queda de 20,4% entre 1995 e 2024.
Em 2024, cada trabalhador da construção civil gerou, em média, R$ 41,3 mil por ano, resultado inferior aos mais de R$ 50 mil anuais observados em meados da década de 1990.
O levantamento aponta ainda que a produtividade atual da construção civil corresponde a aproximadamente metade da registrada na indústria de transformação, evidenciando diferenças relevantes entre os dois segmentos.
Comparação internacional evidencia desafios do setor
A análise também inclui uma comparação internacional sobre o desempenho da mão de obra da construção civil. Segundo a CNI, o trabalhador brasileiro produz atualmente o equivalente a apenas 7% da produtividade registrada nos Estados Unidos.
De acordo com o estudo, uma das principais razões para essa diferença é o predomínio do modelo tradicional de construção, caracterizado pela execução da maior parte das atividades diretamente nos canteiros e pela baixa integração com processos industriais.
Para Cozendey, a ampliação da construção industrializada pode alterar esse cenário ao transformar o papel dos canteiros de obras, que passariam a concentrar a montagem de componentes previamente produzidos em fábricas.
“Isso permite melhorias importantes trazidas por técnicas de manufatura enxuta e digitalização dos processos produtivos. Desse modo, o canteiro de obras funcionaria montando peças já construídas, mais ou menos que nem um lego, aumentando consideravelmente a produtividade”, explicou.
A avaliação da CNI é que a modernização dos métodos construtivos pode contribuir para aumentar a capacidade produtiva do setor, reduzir gargalos históricos e ampliar a velocidade de execução de projetos habitacionais e de infraestrutura em diferentes regiões do país.








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