O avanço da inteligência artificial (IA) e seus impactos sobre o mercado de trabalho dominaram os debates da Conferência Internacional do Trabalho, promovida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Durante a abertura do encontro, o diretor-geral da entidade, Gilbert F. Houngbo, afirmou que o futuro do trabalho será definido não apenas pelos avanços tecnológicos, mas também pelas políticas públicas, pelas instituições e pelo diálogo social estabelecido entre governos, empregadores e trabalhadores.
A declaração foi feita com base no relatório “Um momento de escolha: aproveitar o potencial da inteligência artificial para o trabalho decente”, documento que apresenta diretrizes para que a adoção da IA ocorra de forma alinhada à proteção dos direitos trabalhistas e ao desenvolvimento econômico.
Segundo Houngbo, a revolução tecnológica em curso exige uma abordagem centrada nas pessoas, capaz de assegurar que os benefícios gerados pela automação e pela inteligência artificial sejam compartilhados de forma ampla pela sociedade.
OIT defende distribuição dos ganhos de produtividade da inteligência artificial
Durante o discurso de abertura, o diretor-geral da OIT destacou que os trabalhadores devem participar dos ganhos econômicos proporcionados pela adoção de novas tecnologias.
Para a entidade, o aumento da produtividade impulsionado pela inteligência artificial precisa resultar em melhores salários, fortalecimento da proteção trabalhista e ampliação da inclusão econômica.
“Esses ganhos precisam ser distribuídos de forma justa, por meio de melhores salários, proteção trabalhista mais robusta e um crescimento mais inclusivo”, afirmou Houngbo.
O dirigente também ressaltou que a negociação coletiva continuará desempenhando papel relevante na construção das relações de trabalho em um cenário cada vez mais digitalizado.
Governança da IA deve ter supervisão humana e transparência
Entre os principais pontos defendidos pela OIT está a criação de mecanismos de governança capazes de garantir o uso responsável da inteligência artificial.
Segundo Houngbo, a regulamentação das novas tecnologias deve estar fundamentada em critérios de transparência, responsabilização e supervisão humana, evitando que decisões automatizadas ocorram sem mecanismos adequados de controle.
O diretor-geral da organização alertou que as decisões tomadas pelos governos e pelas instituições nos próximos anos terão influência direta sobre os resultados sociais e econômicos produzidos pela inteligência artificial.
“As escolhas que fizermos hoje determinarão se a IA ampliará as oportunidades e a prosperidade compartilhada ou se aprofundará as desigualdades e a insegurança”, declarou.
A avaliação da OIT é de que a tecnologia pode contribuir para o desenvolvimento econômico, mas exige políticas públicas capazes de reduzir riscos e ampliar oportunidades.
Cenário econômico global amplia preocupações com emprego e renda
A discussão sobre inteligência artificial ocorre em um contexto de instabilidade econômica internacional. Durante a conferência, Houngbo destacou que a economia global enfrenta desafios que podem afetar diretamente trabalhadores e empresas.
Segundo ele, conflitos geopolíticos e oscilações econômicas aumentam as incertezas sobre a geração de empregos e a manutenção da renda em diferentes regiões do mundo.
“Nos reunimos em um momento de profunda incerteza. A economia global continua frágil e a crise no Oriente Médio emergiu como uma importante fonte de risco para trabalhadores, empresas e comunidades”, afirmou.
A OIT avalia que a combinação entre transformações tecnológicas e instabilidades econômicas torna ainda mais importante a construção de políticas voltadas à proteção do trabalho.
OIT projeta perda equivalente a 38 milhões de empregos até 2027
Dados apresentados pela organização indicam que um cenário prolongado de aumento dos preços do petróleo poderá gerar impactos significativos sobre o mercado global de trabalho.
As estimativas apontam que, ainda em 2026, a redução das horas trabalhadas poderá equivaler a 14 milhões de empregos em tempo integral em todo o mundo.
Caso esse cenário se mantenha, a projeção é de que a perda alcance o equivalente a 38 milhões de empregos em tempo integral até 2027.
Além disso, a OIT estima que as perdas acumuladas de renda do trabalho possam atingir US$ 3 trilhões até 2027, afetando especialmente os países dos Estados Árabes e produzindo reflexos em outras regiões, incluindo a Ásia e o Pacífico.
Economia de plataformas e igualdade de gênero estão entre os temas centrais
A Conferência Internacional do Trabalho também discute a criação de novas normas internacionais voltadas ao trabalho na economia de plataformas digitais.
O Comitê de Elaboração de Normas realiza a segunda rodada de debates sobre o tema, com o objetivo de estabelecer regras específicas para trabalhadores vinculados a aplicativos e plataformas digitais.
Caso sejam aprovadas, essas normas poderão se tornar as primeiras da OIT direcionadas especificamente aos impactos da digitalização sobre as relações de trabalho.
Outro eixo de discussão envolve a igualdade de gênero no mercado de trabalho, com análise das barreiras estruturais que ainda limitam a participação feminina em diversos setores da economia.
Conferência reúne representantes de 187 países
Além da inteligência artificial, da economia de plataformas e da igualdade de gênero, a conferência também debate temas relacionados ao fortalecimento do diálogo social e do tripartismo.
O objetivo é ampliar a cooperação entre governos, empregadores e trabalhadores para enfrentar desafios associados à transformação digital, ao aumento das desigualdades e às mudanças estruturais no mercado de trabalho.
A Conferência Internacional do Trabalho reúne representantes dos 187 Estados-membros da OIT e segue com atividades até quinta-feira (12/06/2026).
Os debates deverão subsidiar futuras decisões internacionais sobre regulação do trabalho, proteção social e adaptação das economias às transformações tecnológicas em curso.
*Com informações da ONU News.








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