O Papa Leão XIV reafirmou em 16 de agosto de 2026 a defesa da solução de dois Estados para Israel e Palestina, posição mantida pela Santa Sé ao longo de décadas. Durante o Angelus em Castel Gandolfo, o pontífice pediu à comunidade internacional que avance na implementação da proposta, vinculando o modelo à busca por uma paz considerada justa e duradoura pelo Vaticano.
A manifestação ocorreu em meio à continuidade do conflito no Oriente Médio e à deterioração da situação desde 7 de outubro de 2023. Para a diplomacia da Santa Sé, a defesa de dois Estados permanece como referência institucional para atender às aspirações nacionais de israelenses e palestinos.
A formulação remonta ao plano de partilha da Palestina aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1947, que previa a criação de dois Estados e um regime internacional para Jerusalém. A posição da Santa Sé evoluiu ao longo das décadas, mas manteve como elementos centrais a proteção dos lugares santos, os direitos dos palestinos e a segurança de Israel.
Posição diplomática foi consolidada ao longo de décadas
As primeiras manifestações do Vaticano sobre a questão palestina e os lugares santos ocorreram no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Pio XII defendeu em 1948 e 1949 medidas para garantir a segurança da população e uma situação jurídica adequada para Jerusalém, em meio às consequências da guerra e à disputa sobre a cidade.
Paulo VI ampliou o enfoque diplomático ao tratar explicitamente dos direitos do povo palestino. Durante seu pontificado, a questão deixou de ser abordada apenas sob a perspectiva da proteção religiosa e humanitária dos lugares santos e passou a incluir de maneira mais direta a dimensão política do conflito.
A posição ganhou formulação mais próxima do atual conceito de dois Estados durante o pontificado de João Paulo II. Em 1984, na encíclica Redemptionis anno, o papa defendeu simultaneamente a segurança de Israel e o direito dos palestinos a uma pátria. A Santa Sé posteriormente estabeleceu relações diplomáticas com Israel, em 1993, e com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1994.
João Paulo II e Bento XVI reforçaram a proposta
João Paulo II retomou a questão durante sua peregrinação à Terra Santa, em 2000. Naquele período, o Vaticano reafirmou que o fim do conflito dependeria de garantias estáveis para os direitos das populações envolvidas e do respeito ao direito internacional e às resoluções pertinentes das Nações Unidas.
Em maio de 2009, durante sua viagem ao Oriente Médio, Bento XVI também defendeu a criação de um Estado palestino soberano e independente ao lado de Israel, dentro de fronteiras reconhecidas internacionalmente. O pontífice apresentou a solução de dois Estados como um caminho para atender às aspirações de israelenses e palestinos.
A Santa Sé também apoiou, em 2012, a admissão da Palestina como Estado observador não membro da Organização das Nações Unidas. Em 2015, durante o pontificado de Francisco, o Vaticano assinou um Acordo Abrangente com o Estado da Palestina, formalizando o reconhecimento e reiterando o apoio à coexistência entre os dois Estados.
Papa Francisco ampliou a atuação diplomática
Papa Francisco manteve a defesa da solução de dois Estados e combinou manifestações diplomáticas com iniciativas de diálogo entre lideranças israelenses e palestinas. Em 2014, durante a oração pela paz realizada nos Jardins do Vaticano, participaram o então presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas.
Na ocasião, Francisco defendeu que Israel e Palestina tivessem o direito de existir e viver em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Em 2024, ao recordar o décimo aniversário do encontro, o pontífice voltou a pedir que os dois Estados pudessem coexistir.
A Santa Sé continuou sustentando a mesma orientação durante os anos seguintes. Em 2023, diante da nova escalada do conflito, o representante permanente do Vaticano nas Nações Unidas, arcebispo Gabriele Caccia, reiterou no Conselho de Segurança que a solução de dois Estados era o caminho defendido pelo Vaticano para uma paz duradoura.
Leão XIV retoma a posição no contexto da guerra
Já no pontificado de Leão XIV, a solução de dois Estados voltou a ser apresentada como uma perspectiva institucional para o conflito. Em declaração durante uma viagem apostólica à Turquia e ao Líbano, o papa afirmou que a Santa Sé apoiava publicamente a proposta havia anos e reconheceu que ela não era aceita pelo governo israelense naquele momento.
Em 9 de janeiro de 2026, durante encontro com o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, Leão XIV voltou a defender o modelo como referência para atender às aspirações legítimas dos dois povos. A declaração inseriu a questão no contexto mais amplo da diplomacia internacional do Vaticano.
No Angelus de 16 de agosto de 2026, em Castel Gandolfo, o pontífice pediu novamente à comunidade internacional que trabalhasse para fazer avançar a solução de dois Estados. O apelo ocorreu após manifestações sobre a violência contra palestinos na Cisjordânia.
Santa Sé reconhece Israel e Palestina e mantém defesa da negociação
A política diplomática do Vaticano passou por etapas distintas desde 1947, mas consolidou dois elementos: o reconhecimento do direito de Israel à existência e à segurança e a defesa do direito dos palestinos a um Estado soberano e independente.
A Santa Sé estabeleceu relações com Israel em 1993 e com a representação palestina em 1994. Posteriormente, reconheceu formalmente o Estado da Palestina por meio do acordo firmado em 2015, que entrou em vigor em janeiro de 2016.
A questão de Jerusalém permanece vinculada à posição do Vaticano. A Santa Sé defende um status que preserve o caráter religioso e cultural da cidade e garanta os direitos das comunidades cristã, judaica e muçulmana. Em documentos diplomáticos, o Vaticano relaciona esse entendimento à necessidade de uma solução negociada entre israelenses e palestinos.
Impasse permanece apesar da continuidade da posição do Vaticano
A reafirmação de Leão XIV demonstra a continuidade da linha diplomática adotada pela Santa Sé desde o século XX. Pio XII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV defenderam, em diferentes contextos e formulações, mecanismos destinados a garantir direitos dos palestinos, segurança para Israel e uma solução política para o conflito.
O Vaticano reconhece que a implementação da solução enfrenta obstáculos políticos e territoriais. Em 2025, o arcebispo Paul Richard Gallagher afirmou que a situação na Cisjordânia colocava em questão a possibilidade de concretização do modelo de dois Estados, mas reiterou que a Santa Sé continuava defendendo essa alternativa.
Com o novo apelo de Leão XIV em 16/08/2026, a Santa Sé mantém a solução de dois Estados como eixo de sua posição diplomática para o conflito. O pedido coloca novamente a responsabilidade da implementação sobre a comunidade internacional e as partes envolvidas, enquanto permanecem os conflitos territoriais, a violência e as divergências sobre o futuro político de Israel e Palestina.








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