A Operação Lívia, apresentada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) na terça-feira (04/08/2026), resultou na identificação de uma organização criminosa investigada por atrair crianças e adolescentes para comunidades virtuais, submetê-los à coerção psicológica e induzi-los à automutilação, à violência contra animais e ao suicídio. A ação foi conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, com apoio técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp/MJSP).
As investigações tiveram início após o suicídio de uma adolescente de 13 anos, identificado como Lívia, ocorrido em 22/07/2026 e transmitido ao vivo em um grupo da plataforma Discord. Segundo a polícia, antes da morte, a vítima teria sido coagida pelos integrantes do grupo a praticar atos de violência contra um animal e a cumprir desafios relacionados à automutilação.
A operação também identificou outra vítima em outro estado brasileiro. De acordo com os investigadores, a atuação policial permitiu impedir uma nova tentativa de suicídio que seria transmitida pela internet.
Operação cumpriu mandados em cinco estados e apreendeu suspeitos
Além de Mato Grosso do Sul, a Operação Lívia cumpriu oito mandados de busca e apreensão nos estados do Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, com apoio das polícias civis locais.
As autoridades informaram a apreensão de cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, além da prisão de um homem de 18 anos, apontados como participantes da organização investigada. Conforme a Polícia Civil, o principal suspeito de liderar o grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido no Rio de Janeiro.
Outro investigado é um estudante seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco. Todo o material recolhido durante a operação será submetido à perícia para identificar outros possíveis integrantes e esclarecer a estrutura de atuação da organização criminosa.
Investigação aponta uso de PIX e manipulação psicológica das vítimas
Segundo o delegado da Polícia Civil do Piauí e representante do Ciberlab, Alessandro Barreto, os investigados criaram uma chave PIX em nome da adolescente, sem conhecimento da família.
De acordo com o delegado, os integrantes do grupo enviavam recursos financeiros para que a vítima adquirisse objetos utilizados em práticas de automutilação, evidenciando o controle psicológico exercido sobre ela durante as interações nas plataformas digitais.
As autoridades afirmam que a análise dos equipamentos apreendidos poderá revelar novas vítimas e ampliar o alcance das investigações.
MJSP aponta possíveis violações do ECA Digital e cobra plataformas
Durante a apresentação da operação, o secretário Nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Fernandes, afirmou que existem indícios de descumprimento da legislação por parte das plataformas Discord e Telegram.
Segundo o secretário, a investigação aponta possíveis violações ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), ao Marco Civil da Internet, atualizado pelo Decreto nº 2.975/2026, e ao Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital (nº 12.976/2026).
Entre as irregularidades apontadas está a não interrupção da transmissão ao vivo, a não remoção imediata do conteúdo e a ausência de comunicação às autoridades competentes, conforme determina a legislação vigente. Também foram identificados indícios de falhas na verificação da idade dos usuários, exigida pelo ECA Digital.
Ministro reforça necessidade de supervisão familiar e prevenção
Durante entrevista coletiva em Brasília, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, destacou a importância da supervisão parental e da atuação preventiva diante dos riscos presentes em ambientes digitais.
O ministro orientou pais e responsáveis a acompanharem o uso da internet por crianças e adolescentes e a manterem atenção aos conteúdos acessados, especialmente em plataformas de comunicação instantânea e transmissões ao vivo.
O MJSP informou ainda que encaminhará à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) pedido de investigação sobre a atuação das plataformas citadas, para apurar eventual responsabilidade administrativa relacionada ao caso.








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