Antologia “Escritas Quilombolas” reúne 67 autores e registra a história e os saberes ancestrais de comunidades da Bahia

A antologia “Escritas Quilombolas: História, Cultura e Saberes Ancestrais”, que reúne textos de 67 autores ligados a comunidades quilombolas da Bahia e de outras regiões do Brasil, será lançada neste sábado (17/10/2026), no Território de Matinha, em Feira de Santana. Organizada pelas lideranças comunitárias Ednalva Santos da Silva e Rita de Lima Ferreira Pedreira, a publicação reúne relatos, memórias, conhecimentos tradicionais e experiências relacionadas à identidade, à ancestralidade e às lutas do povo quilombola.

A obra tem como uma de suas referências a Comunidade Quilombola de Moita da Onça, situada no Território de Matinha, além de incorporar contribuições de integrantes de outras comunidades quilombolas de Feira de Santana e de diferentes localidades da Bahia e do país. A iniciativa busca registrar experiências individuais e coletivas e ampliar a presença dessas comunidades na produção literária brasileira.

O projeto reúne participantes de diferentes gerações, de crianças a pessoas idosas. Entre as contribuições está o relato oral de uma mulher de 103 anos que, por não ser alfabetizada, compartilhou suas experiências por meio da oralidade. A participação evidencia a importância da transmissão oral na preservação da memória e dos conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas.

Livro reúne memória, identidade e resistência quilombola

A antologia foi concebida para registrar histórias e saberes que integram a trajetória das comunidades quilombolas, valorizando seus próprios relatos sobre cultura, território e organização social. Ao reunir diferentes formas de expressão, a publicação articula experiências pessoais, memórias familiares e referências coletivas relacionadas à ancestralidade africana e afro-brasileira.

A proposta dialoga com a necessidade de ampliar o reconhecimento das narrativas produzidas pelas próprias comunidades, historicamente submetidas a processos de exclusão e apagamento cultural. Nesse contexto, os 67 autores assumem o papel de narradores de suas experiências e da história de seus territórios, apresentando perspectivas construídas a partir de suas vivências.

A iniciativa também procura aproximar gerações por meio da literatura, reunindo relatos de pessoas com diferentes idades e trajetórias. A inclusão de contribuições orais, como a da participante de 103 anos, amplia as possibilidades de registro da memória coletiva para além dos textos escritos convencionalmente.

Nego Bispo inspira a perspectiva da publicação

A obra tem como referência o pensamento do intelectual quilombola Nego Bispo, associado à defesa dos conhecimentos tradicionais e à valorização das formas de organização e pensamento dos povos quilombolas. Uma de suas máximas orienta a perspectiva da antologia: “Vamos falar de nós ganhando, porque para falar de nós perdendo, eles já falam”.

A frase sintetiza a proposta de colocar as comunidades quilombolas na posição de sujeitos de suas próprias narrativas, em vez de depender exclusivamente de interpretações externas sobre suas histórias. A publicação, assim, busca dar visibilidade a experiências, práticas culturais e conhecimentos construídos ao longo de gerações.

No prefácio, as autoras Hely dos Santos Pedreira e Railma Santos Souza destacam a pluralidade dos conhecimentos presentes nos textos e a relação das comunidades com a terra e os elementos da natureza. Essa perspectiva relaciona memória, identidade e território, dimensões que atravessam as experiências sociais e culturais retratadas na antologia.

Lideranças comunitárias e editora participam da realização do projeto

A organização da publicação está a cargo de Ednalva Santos da Silva e Rita de Lima Ferreira Pedreira, lideranças comunitárias que articulam a iniciativa de registro e divulgação das experiências quilombolas. O projeto conta com a parceria da Rubi Editorial, responsável pela colaboração editorial na materialização da obra.

A participação de autores de diferentes idades e comunidades confere à antologia um caráter coletivo. Os textos foram reunidos para preservar relatos, compartilhar conhecimentos e ampliar a circulação de narrativas vinculadas à história e à cultura quilombola.

Além de sua dimensão literária, a iniciativa é apresentada pelos organizadores como uma ação de fortalecimento dos vínculos comunitários. O conceito de “aquilombamento”, utilizado na apresentação do evento, remete à união, ao acolhimento e à articulação coletiva entre pessoas e comunidades que compartilham experiências, referências culturais e formas de resistência.

Lançamento terá caráter beneficente e arrecadação de alimentos

O lançamento foi planejado também como uma atividade de mobilização social. A organização convida os participantes a contribuir com 1 kg de alimento não perecível, doação destinada à iniciativa beneficente associada ao evento.

A proposta está relacionada ao princípio da solidariedade coletiva e ao conceito de “dororidade”, mencionado na apresentação da iniciativa. O termo é empregado em debates sobre experiências compartilhadas de dor, especialmente entre mulheres negras, e sobre a construção de vínculos de apoio e solidariedade.

A programação reúne, portanto, a apresentação da antologia e o incentivo à participação comunitária. O lançamento busca ampliar a circulação das histórias e dos conhecimentos registrados pelos autores, além de estimular o reconhecimento da contribuição das comunidades quilombolas para a memória, a cultura e a literatura brasileira.

Antologia amplia o registro da história quilombola em Feira de Santana

A publicação de “Escritas Quilombolas: História, Cultura e Saberes Ancestrais” insere-se em um movimento de documentação e valorização das narrativas produzidas por comunidades tradicionais. Ao reunir textos de 67 autores, a obra estabelece um espaço compartilhado para experiências relacionadas à ancestralidade, à vida comunitária e à preservação dos saberes.

A presença de participantes de diferentes gerações, incluindo uma idosa de 103 anos que contribuiu oralmente, demonstra a diversidade dos meios utilizados para registrar essas memórias. A iniciativa também aproxima a produção literária das práticas de transmissão de conhecimentos presentes nas comunidades quilombolas.

Com lançamento previsto para sábado (17/10/2026), no Território de Matinha, em Feira de Santana, a antologia reúne literatura, memória e mobilização social. O projeto tem como eixo central o protagonismo quilombola na preservação e na divulgação de suas próprias histórias, associando a publicação ao fortalecimento da identidade cultural e à solidariedade comunitária.


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