CNI aponta déficit de aprendizagem e baixa formação em áreas STEM como entraves à qualificação profissional no Brasil

O Brasil ampliou o acesso à Educação Básica e ao Ensino Superior nas últimas décadas, mas a expansão da escolaridade não acompanhou a necessidade de formação de profissionais qualificados, segundo estudo elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI). O documento aponta baixos níveis de aprendizagem e limitações na formação em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) como fatores que afetam a produtividade e a capacidade de inovação.

Intitulado “Uma Revolução na Educação Brasileira: Propostas para uma agenda STEM integrada da base ao ensino superior”, o estudo defende uma abordagem integrada da educação, desde a formação básica até a qualificação profissional. A análise considera que o país enfrenta um cenário de “escolaridade sem aprendizagem suficiente”, com possíveis impactos sobre a preparação de trabalhadores para as transformações digital e verde.

O coordenador técnico do estudo, Rafael Grilli Felizardo, relaciona a formação profissional à capacidade de utilização das novas tecnologias pela indústria. Segundo ele, processos de automação, inteligência artificial e redução de emissões exigem trabalhadores capazes de operar, manter e aperfeiçoar os recursos tecnológicos adotados pelas empresas.

Aprendizagem na Educação Básica apresenta índices de insuficiência

O estudo utiliza resultados de avaliações internacionais para demonstrar as dificuldades de aprendizagem enfrentadas pelos estudantes brasileiros. No PIRLS 2021, que avalia a compreensão de leitura de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental, o Brasil ficou na 52ª posição entre 57 países ou regiões avaliados. Cerca de 38% das crianças brasileiras não atingiram o nível básico de leitura.

Na matemática, os dados do TIMSS 2023 mostram que 62% dos estudantes brasileiros do 8º ano ficaram abaixo do nível básico de proficiência, enquanto a média internacional foi de 19%. Apenas 1% dos estudantes brasileiros alcançou o nível máximo de desempenho considerado pela avaliação.

O déficit também aparece entre estudantes de 15 anos. Segundo o PISA 2022, 73% dos brasileiros avaliados ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática. Em leitura, 50% apresentaram desempenho insuficiente e, em ciências, o percentual chegou a 55%.

Formação em STEM permanece abaixo da demanda

O estudo da CNI e da MEI também identifica um déficit na formação de profissionais de áreas consideradas estratégicas para setores que utilizam tecnologias digitais e processos de inovação. Em 2023, apenas 15,6% dos diplomados brasileiros em cursos de bacharelado concluíram formações relacionadas às áreas STEM.

Esse percentual colocou o Brasil na 47ª posição entre 48 países com informações disponíveis no relatório Education at a Glance, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A formação de professores nas áreas de Biologia, Computação, Física, Matemática e Química também apresentou redução. O número de concluintes de licenciaturas nessas áreas caiu de 36 mil, em 2010, para 28 mil, em 2024, conforme os dados apresentados no estudo.

Participação feminina nas áreas tecnológicas permanece baixa

A pesquisa também analisa a participação das mulheres na formação superior em áreas de Engenharia, Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC).

Em 2024, as mulheres representaram 26% dos concluintes de Engenharia e 19% dos formandos em Computação e TIC. Na Engenharia, a participação feminina era de 32% em 2018, segundo os dados apresentados pela CNI.

Para a entidade, o aumento da formação em STEM tem dupla relação com a educação brasileira: atende à necessidade de profissionais qualificados em setores tecnológicos e também contribui para ampliar a capacidade de ensino de matemática, ciências e computação na Educação Básica.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que as mudanças tecnológicas alteraram a relação entre formação educacional e trajetória profissional. Segundo ele, a educação precisa acompanhar as diferentes etapas da vida profissional, diante das transformações ocorridas no mercado de trabalho.

CNI propõe agenda integrada para a educação

Como resposta aos problemas identificados, o estudo apresenta uma agenda que reúne medidas da Educação Básica ao Ensino Superior, com propostas relacionadas à melhoria da aprendizagem, formação docente, ampliação da Educação Profissional e Tecnológica e desenvolvimento de competências voltadas às transformações digital e verde.

A CNI propõe que recursos destinados à educação sejam articulados de acordo com os resultados esperados, evitando a atuação isolada de programas. A agenda apresentada está organizada em quatro frentes de atuação.

A primeira é o financiamento orientado a resultados, com articulação de recursos como Fundeb, Salário-Educação, Sistema S e Juros por Educação para ações voltadas à aprendizagem, permanência dos estudantes e expansão da Educação Profissional e Tecnológica.

Formação de professores está entre as prioridades

A segunda frente trata da valorização e formação docente. O estudo propõe o fortalecimento da formação inicial e continuada de professores, além da incorporação de competências digitais, metodologias baseadas em projetos, cultura maker e pensamento computacional.

A terceira frente prevê a expansão da Educação Profissional e Tecnológica, com maior articulação entre a formação técnica e o Ensino Médio. Para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), a proposta inclui formatos flexíveis, módulos de curta duração, reconhecimento de conhecimentos prévios e certificações intermediárias.

A quarta frente está relacionada às competências necessárias às transições digital e verde. A proposta inclui ampliar a formação em áreas associadas à digitalização e criar cursos e microcredenciais relacionados a eficiência energética, economia circular, bioeconomia e descarbonização.

Requalificação profissional entra na agenda proposta

O estudo também recomenda ampliar iniciativas de requalificação profissional (reskilling) e aperfeiçoamento de competências (upskilling), com o objetivo de preparar trabalhadores para mudanças tecnológicas e ambientais.

Na avaliação de Rafael Grilli Felizardo, a formação educacional precisa considerar o tempo necessário para que mudanças implementadas na infância produzam efeitos no mercado de trabalho. Ele defende que as políticas educacionais sejam planejadas para períodos de longo prazo.

A análise apresentada pela CNI e pela MEI relaciona, portanto, aprendizagem, formação docente, educação profissional, ensino superior e inovação tecnológica. O documento sustenta que a qualificação da força de trabalho depende de ações coordenadas ao longo de diferentes etapas da trajetória educacional.

Educação é apresentada como fator de produtividade e inovação

O estudo considera a educação uma infraestrutura estratégica para o desenvolvimento econômico e tecnológico. A argumentação parte da relação entre aprendizagem, qualificação profissional, produtividade e capacidade das empresas de incorporar novas tecnologias.

Os indicadores utilizados apontam dificuldades em competências básicas de leitura, matemática e ciências, além de uma participação limitada de estudantes e profissionais em áreas STEM. A formação de professores nessas disciplinas também aparece como um dos pontos de atenção identificados pela análise.

As propostas apresentadas pela CNI e pela MEI buscam aproximar a formação educacional das necessidades relacionadas à inovação, digitalização, sustentabilidade e produtividade, com medidas que abrangem desde a alfabetização e a formação básica até a qualificação e requalificação de trabalhadores ao longo da vida profissional.


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