Estudantes fazem 4º ato de protestos na França por melhorias no ensino e criticam atuação policial

Estudantes do ensino médio e universitários voltaram às ruas da França nesta quinta-feira (08/10/2026) para o quarto ato nacional de protestos por melhorias nas condições de ensino. O movimento, iniciado em 21 de setembro na região de Créteil, nos arredores de Paris, reúne organizações estudantis, sindicatos, partidos de esquerda, professores, pais e aposentados. A mobilização também é marcada por confrontos e questionamentos sobre a atuação das forças de segurança.

Segundo o Ministério da Educação, 375 estabelecimentos de ensino estavam parcial ou totalmente fechados na manhã desta quinta-feira. O órgão informou que 94% das escolas permaneciam abertas e que houve redução de 30% no número de estabelecimentos afetados em relação ao mesmo horário de quarta-feira (07/10).

Entre as principais reivindicações dos estudantes estão a redução da superlotação das salas de aula, o enfrentamento da sobrecarga horária, a ampliação do número de professores e mudanças no Parcoursup, plataforma utilizada no acesso ao ensino superior francês. O sistema também é criticado pela complexidade do processo de orientação e seleção.

Protestos incluem críticas ao Parcoursup e à infraestrutura escolar

Os estudantes defendem a reformulação ou até a extinção do Parcoursup, sistema de acesso ao ensino superior. Segundo o relato apresentado na mobilização, a complexidade do processo levou empresas privadas a oferecer serviços de orientação para famílias, com profissionais especializados. Os serviços mencionados podem alcançar € 1.000, equivalentes a aproximadamente R$ 5.600.

As organizações estudantis também reivindicam investimentos na infraestrutura educacional. Entre as propostas apresentadas está um plano de € 10 bilhões, cerca de R$ 56 bilhões, destinado à renovação de escolas e ao aumento do número de professores.

Os manifestantes ainda questionam uma proposta orçamentária que, segundo as organizações estudantis, prevê a retirada de € 5 bilhões das coletividades territoriais. O tema passou a integrar as reivindicações apresentadas ao governo durante a mobilização nacional.

Governo promete medidas e defende negociação de longo prazo

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou na noite de quarta-feira (07/10) que as forças de segurança não receberam orientação para confrontar estudantes do ensino médio. O chefe de governo declarou compreender as preocupações dos jovens e anunciou que o Executivo pretende apresentar, até o fim de outubro, medidas por meio de emendas ao projeto de orçamento.

O governo também criou uma plataforma para receber reivindicações dos estudantes e anunciou horários específicos nas escolas, sem aulas, para que alunos e funcionários apresentem suas dificuldades. A principal entidade de diretores de escolas, porém, rejeitou a iniciativa enquanto não houver condições consideradas adequadas para a realização dos encontros.

A porta-voz do governo, Maud Bregeon, afirmou que as reivindicações não podem ser solucionadas imediatamente. Segundo ela, as mudanças demandam negociações e planejamento de longo prazo, além da tramitação do orçamento nacional.

Número de detenções chega a 6.629 desde início do movimento

Desde o início dos protestos, 6.629 pessoas foram detidas, segundo dados apresentados pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez. O balanço também registra 761 policiais e gendarmes feridos, além de 215 estudantes.

Nesta quinta-feira, grupos de estudantes bloquearam acessos a instituições de ensino em Paris. No 6º distrito, dezenas de manifestantes impediram a entrada no Instituto Católico de Paris. No 12º distrito, estudantes do liceu Hélène Boucher bloquearam a avenida Cours de Vincennes.

O ministro da Educação, Edouard Geffray, visitou um liceu em Reims para conversar com estudantes. Representantes estudantis, entretanto, cobraram do primeiro-ministro respostas concretas às reivindicações e defenderam a continuidade das mobilizações.

Violência policial amplia pressão sobre o governo

A atuação das forças de segurança tornou-se um dos principais pontos de tensão durante os protestos. O ministro do Interior anunciou a suspensão do uso de granadas de efeito sonoro depois que um manifestante de 15 anos sofreu uma grave lesão na mão durante um protesto em Lens, na segunda-feira. O episódio está sob investigação.

Segundo Laurent Nuñez, 18 investigações da corregedoria da polícia foram abertas desde o início do movimento. O caso envolvendo o adolescente provocou críticas de organizações estudantis e partidos de esquerda à política de segurança adotada durante as manifestações.

Outro episódio citado no debate ocorreu na região parisiense, onde um adolescente foi atingido no olho por um disparo de arma utilizada pelas forças de segurança e corre risco de perder a visão. A ocorrência ampliou as discussões sobre o emprego de dispositivos de controle de manifestações.

Partidos de esquerda e sindicatos apoiam mobilização

A deputada Clémence Guetté, do partido França Insubmissa, acusou o governo de tentar desviar a atenção das reivindicações. Olivier Faure, primeiro-secretário do Partido Socialista, também afirmou que o governo poderia estar apostando no desgaste da mobilização.

As organizações estudantis receberam, na quarta-feira (07/10), o apoio de diferentes sindicatos da área de educação, que convocaram uma jornada de greve e manifestações. A União Estudantil orientou a realização de bloqueios em escolas e universidades e de concentrações diante das prefeituras da região parisiense.

Na terça-feira (06/10), entre 266 mil e 450 mil pessoas participaram de manifestações em diferentes regiões da França, segundo as estimativas citadas no texto. Na ocasião, não foram registrados incidentes graves.

Governo suspende equipamento e enfrenta críticas sobre segurança

A suspensão das granadas de efeito sonoro ocorreu após o caso registrado em Lens e diante da pressão de entidades estudantis e partidos de esquerda. A medida passou a integrar o debate sobre a forma como a polícia atua durante bloqueios e manifestações realizadas por estudantes.

A imprensa francesa também passou a questionar a estratégia de segurança adotada pelo governo. Os debates incluem a atuação do ministro do Interior e a posição do ministro da Educação sobre o uso de determinados equipamentos policiais, incluindo lançadores de balas de borracha.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que as forças de segurança não receberam ordens para agir contra estudantes. O governo, ao mesmo tempo, sustenta que os policiais devem atuar de maneira proporcional e dentro das regras estabelecidas, enquanto organizações estudantis e setores da oposição cobram respostas às reivindicações educacionais e apuração das ocorrências durante os protestos.

Quarto ato mantém pressão sobre governo francês

O quarto ato da mobilização mantém a pressão sobre o governo francês em torno de infraestrutura escolar, contratação de professores, carga horária, Parcoursup, orçamento da educação e atuação policial. A continuidade dos protestos ocorre enquanto o Executivo prepara alterações relacionadas ao orçamento e busca estabelecer canais de diálogo com estudantes.

A mobilização também envolve diferentes segmentos da sociedade francesa, incluindo pais, professores, sindicatos, aposentados e partidos de esquerda, ampliando o alcance político das reivindicações originalmente apresentadas pelos estudantes.

Com o movimento ainda em andamento, o governo deverá conciliar a tramitação orçamentária com as demandas apresentadas pelas organizações estudantis e as discussões sobre segurança pública. O quarto ato realizado nesta quinta-feira (08/10/2026) representa mais uma etapa da mobilização iniciada em setembro e mantém a educação e a atuação policial no centro do debate político francês.

*Com informações da RFI.


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