A seca extrema que atinge o Brasil tem causado impactos significativos nos principais rios da América Latina, afetando rotas de navegação essenciais para o comércio agrícola na região. O Rio Paraguai, utilizado como via de escoamento de grãos, registrou uma baixa histórica na cidade de Assunção, capital do Paraguai, com os níveis de água caindo drasticamente devido à falta de chuvas no Brasil. A profundidade do rio caiu para menos de 0,82 metro negativo, quebrando o recorde anterior estabelecido em 2021, segundo dados da Diretoria Nacional de Meteorologia e Hidrologia. A previsão é de que o nível continue a cair, uma vez que não há expectativa de chuva para as próximas semanas.
Outro rio crucial para a economia da região, o Paraná, localizado na Argentina, também se aproxima do nível mais baixo registrado neste ano, afetando diretamente o centro exportador de grãos de Rosário. Os rios Paraguai e Paraná, que nascem no Brasil, atravessam diversos países até desaguarem no Oceano Atlântico, nas proximidades de Buenos Aires, constituindo uma rota vital para o transporte de soja, milho e outros produtos agrícolas.
A Câmara Paraguaia de Esmagamento de Sementes Oleaginosas e Grãos (Cappro) afirmou que a navegação no trecho norte da hidrovia do Paraguai foi praticamente interrompida devido à queda acentuada dos níveis de água. Essa situação impacta o comércio de grãos, embora, segundo a Cappro, o efeito tenha sido moderado por não coincidir com o pico da temporada de exportações. A entidade informou ainda que os navios estão sendo obrigados a operar com volumes de carga abaixo da média, o que tem gerado atrasos nas operações e prolongado o tempo de viagem.
O sistema hidroviário Paraguai-Paraná, com mais de 3.400 quilômetros de extensão, é de grande importância econômica para a região, atravessando Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O Paraguai, terceiro maior exportador de soja do mundo, depende das hidrovias para o transporte de 80% de sua produção de grãos, enquanto a Argentina utiliza o Rio Paraná para escoar a maior parte de sua soja processada, exportada a partir do porto de Rosário.
No Brasil, a situação é igualmente crítica. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) divulgou que a principal bacia hidrográfica do Pantanal, uma das maiores áreas úmidas do mundo, enfrenta a maior seca já registrada. Diversos pontos do Rio Paraguai atingiram níveis negativos históricos em 2024. Dos 21 pontos de medição ao longo dos 2.695 quilômetros do rio, que se estende por 1.693 quilômetros dentro do território brasileiro, 18 estão abaixo do esperado, com três deles registrando patamares negativos.
A seca prolongada também afeta a vida de comunidades amazônicas, isolando algumas localidades e dificultando o transporte de soja e milho no Centro-Oeste brasileiro, especialmente no estado do Mato Grosso, o maior produtor de grãos do país. As expectativas de melhora nas condições hídricas são limitadas, mesmo com a aproximação da estação chuvosa. Segundo o vice-diretor da Diretoria de Meteorologia e Hidrologia do Paraguai, Jorge Sánchez, as chuvas previstas para outubro e novembro podem não ser suficientes para elevar significativamente o nível dos rios.
O fenômeno climático La Niña, que normalmente provoca seca no Paraguai e na Argentina e chuvas no norte do Brasil, teve seu início retardado este ano, com seus efeitos mais fortes sendo esperados somente entre outubro e novembro. Entretanto, as mudanças climáticas globais têm causado grande variabilidade nas condições meteorológicas, tornando as previsões ainda mais incertas.
A seca no Pantanal brasileiro já é considerada a pior em décadas, com níveis extremamente baixos do Rio Paraguai, que atravessa o Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, afetando ecossistemas vitais como o cerrado, o Pantanal e o chaco. Dados meteorológicos indicam que, mesmo com a chegada das chuvas, o volume não será suficiente para reverter os danos já causados.
*Com informações da DW.











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