O Papa Francisco, que faleceu na segunda-feira (21/04/2025), aos 88 anos, é reconhecido por suas reformas financeiras no Vaticano, focadas na transparência e controle das finanças da Santa Sé. Durante seu pontificado, Francisco trabalhou para modernizar a gestão financeira e afastar o Vaticano de práticas obscuras, incluindo o sigilo bancário, que era uma característica do sistema financeiro da cidade-estado. Essas ações reformistas tiveram como objetivo principal garantir maior responsabilidade e fiscalização das finanças do Vaticano, embora tenham encontrado resistência interna dentro da Cúria romana.
Quando Francisco assumiu o papado em 2013, o Vaticano ainda operava sob uma estrutura de sigilo bancário e transações financeiras sem supervisão. Com o objetivo de melhorar a governança financeira, ele estabeleceu, em 2014, um novo organismo para supervisionar as atividades econômicas e administrativas do Vaticano: a Secretaria para a Economia. A criação dessa secretaria visava proporcionar maior controle sobre o uso dos recursos financeiros da Santa Sé e garantir maior transparência nas operações.
Além disso, o Papa Francisco tomou medidas decisivas para fechar contas suspeitas dentro do Vaticano. Em 2015, cerca de 5.000 contas associadas ao Instituto para Obras Religiosas (IOR), conhecido como o Banco do Vaticano, foram encerradas. Esse movimento fez parte de um esforço maior para reforçar o controle sobre as finanças e garantir a ética nas operações financeiras da cidade-estado.
Em um passo significativo, o sigilo bancário foi suspenso no Vaticano, permitindo uma maior transparência nas transações. No mesmo período, a Santa Sé adotou um Código de Contratos Públicos, algo que nunca havia sido feito anteriormente, estabelecendo um novo marco para as práticas de contratação pública e prestação de contas. Essas ações ajudaram a evitar que o Vaticano fosse considerado um paraíso fiscal, algo que havia sido uma preocupação crescente nas últimas décadas.
A reforma financeira também incluiu a criação do Conselho dos 15, composto por oito cardeais ou bispos e sete leigos especialistas no setor financeiro, que tinham a responsabilidade de auxiliar na supervisão das finanças do Vaticano. A participação de leigos especializados foi uma inovação importante, refletindo a preocupação do Papa Francisco em garantir uma abordagem mais profissional e técnica nas finanças do Vaticano.
Além das reformas estruturais, o Papa Francisco também nomeou um juiz antimáfia para o tribunal do Vaticano, uma ação que visava combater a corrupção e a criminalidade financeira dentro da instituição. Em 2021, um ex-presidente do Banco do Vaticano foi condenado por lavagem de dinheiro e peculato em relação a um investimento imobiliário em Londres. O projeto, que envolvia a compra de um edifício no bairro de Chelsea, resultou em um grande prejuízo para o Vaticano.
Entre 2013 e 2014, a Secretaria de Estado tomou emprestado mais de US$ 200 milhões de bancos como o Crédit Suisse para investir em fundos e propriedades. Parte desse valor foi utilizado para investir em um fundo de Luxemburgo, enquanto a outra parte foi destinada à compra de imóveis em Londres e investimentos em ações. No entanto, a aliança com o fundo foi encerrada, após uma série de operações financeiras imprudentes, que envolveram a compra de ativos de risco, como bancos em dificuldades financeiras.
O Vaticano também enfrentou escândalos envolvendo a gestão de recursos, incluindo o uso imprudente do Óbolo de São Pedro, uma coleta de doações destinada a obras de caridade. Além disso, em 2023, o cardeal Angelo Becciu foi condenado por desvio de fundos e abuso de poder, sendo sentenciado a cinco anos de prisão. Becciu foi acusado de usar dinheiro do Vaticano para obter um empréstimo imobiliário e enriquecimento pessoal, mas recorreu da decisão.
De acordo com o próprio Banco do Vaticano, entre 2010 e 2020, a cidade-estado perdeu entre € 800 milhões e € 1 bilhão devido a transações financeiras e imobiliárias de risco.
Papa Francisco deixa legado de defesa da diversidade e crítica a conflitos e abusos
Na segunda-feira (21/04/2025), o Vaticano anunciou a morte do Papa Francisco, aos 88 anos, após complicações de saúde, incluindo uma pneumonia bilateral. Francisco, eleito em 2013, foi o primeiro papa jesuíta e o primeiro pontífice do hemisfério sul. Seu papado foi marcado por uma série de reformas na Igreja Católica e por sua atuação em temas sociais, políticos e ambientais.
Desde seu início no pontificado, o Papa Francisco propôs um novo modelo para a Igreja, buscando aproximá-la das periferias sociais e existenciais. O pontífice argentino fez da defesa dos mais pobres e da promoção da diversidade seu principal discurso. Ele incentivou a Igreja a se abrir para uma maior aceitação dos diferentes grupos sociais, incluindo os imigrantes e as minorias. Sua posição em favor dos imigrantes foi evidenciada em suas viagens a locais de crise, como Lampedusa, na Itália, e Lesbos, na Grécia, onde visitou campos de refugiados.
Além disso, Francisco se comprometeu a promover a paz mundial e o diálogo inter-religioso. Um dos marcos de seu pontificado foi a assinatura, em 2019, do documento sobre “fraternidade humana para a paz mundial e a coexistência comum“, com o Grande Imã de Al Azhar, que visava a promoção da convivência pacífica entre diferentes religiões.
No campo das finanças e da administração da Igreja, o Papa Francisco implementou reformas significativas, como a criação da Secretaria para a Economia e a adoção de um Código de Contratos Públicos. Em sua gestão, o sigilo bancário foi abolido no Vaticano, e uma série de medidas foram adotadas para combater a corrupção e o desvio de recursos. Sua posição em relação aos abusos sexuais também foi uma das mais rigorosas, promovendo maior conscientização e abertura para ouvir as vítimas, embora as medidas efetivas ainda sejam questionadas por muitos.
Em relação ao papel das mulheres na Igreja, o Papa Francisco adotou uma postura ambígua. Embora tenha permitido uma maior participação feminina em algumas funções dentro da Igreja, manteve restrições quanto à ordenação de mulheres para o diaconato. No entanto, sua encíclica Laudato Si, de 2015, reforçou seu compromisso com a preservação ambiental, tratando das questões climáticas como uma emergência global.
Francisco também se destacou pela abordagem direta e simples, que o distanciava de um modelo de liderança tradicional. Seu estilo de vida austero e sua proximidade com o povo refletiam sua proposta de uma Igreja mais acessível e engajada com as questões sociais. Durante seu papado, ele visitou diversos países em guerra, como a República Democrática do Congo e o Iraque, além de territórios onde os cristãos são minoria, como Birmânia e Indonésia.
O legado de Francisco, no entanto, não foi isento de controvérsias. Suas reformas e a busca por uma Igreja mais inclusiva geraram resistências, especialmente entre os setores mais conservadores, que contestaram suas posições sobre temas como o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ao longo de seus 12 anos de pontificado, ele promoveu uma Igreja mais plural, mas as divisões internas se aprofundaram, especialmente após permitir a bênção de casais homossexuais.
Papa Francisco e sua relação com o futebol: paixão, legado e impacto no esporte
Durante seus 12 anos de pontificado, o Papa também anuncia escondeu sua paixão pelo futebol, o que se refletiu em diversas manifestações públicas e encontros com grandes nomes da modalidade. Para ele, o futebol era muito mais que um esporte; era uma plataforma para promover a paz, a educação e a solidariedade. Em razão dessa relação estreita, a Série A do Campeonato Italiano suspendeu sua rodada no dia do falecimento de Francisco, como homenagem ao pontífice.
Ao longo dos anos, o Papa recebeu grandes estrelas do futebol mundial no Vaticano, como Lionel Messi, Diego Maradona, Zlatan Ibrahimović e Gianluigi Buffon. Durante esses encontros, os atletas o presentearam com itens simbólicos, incluindo camisas e bolas, algumas das quais assinadas por ícones como Pelé em 2014. Além disso, Francisco manteve um vínculo pessoal com o San Lorenzo, clube argentino de sua cidade natal, Buenos Aires. Ele foi sócio do clube por toda a sua vida e rezou uma missa no centenário do time em 2008.
O futebol como elemento social e cultural foi uma constante no papado de Francisco. Seu envolvimento com o esporte transcendeu as fronteiras do Vaticano. Em diversas visitas internacionais, o Papa foi recebido com homenagens por torcedores de times locais, destacando a relação afetiva do pontífice com as comunidades. Em 2023, em Marselha, fãs do Olympique de Marselha estenderam uma bandeira com o rosto de Francisco no Estádio Vélodrome durante uma de suas missas.
Segundo Emmanuel Gobilliard, responsável pelo Vaticano para os Jogos Olímpicos de Paris 2024, a paixão do Papa pelo futebol se fundamentava na ideia de que o esporte coloca o coletivo em primeiro plano, semelhante ao propósito da religião. “Estamos a serviço de algo maior que nós, algo que nos transcende coletivamente e pessoalmente”, afirmou Gobilliard, citando a visão de Francisco sobre a prática esportiva.
Em 2014, Francisco organizou uma partida interreligiosa no Estádio Olímpico de Roma com o objetivo de promover a paz. Durante esse evento, ele declarou: “Muitos dizem que o futebol é o esporte mais bonito do mundo. Eu também penso isso”. Sua perspectiva sobre o esporte sempre foi acompanhada por uma mensagem clara sobre responsabilidade social. Em 2013, dirigindo-se às delegações da Itália e da Argentina, ele alertou sobre os desvios do futebol comercial, convocando os atletas a assumirem suas responsabilidades sociais.
A relação de Francisco com o futebol também esteve marcada por sua admiração por Pelé e suas críticas a Maradona. Em 2023, o Papa descreveu Pelé como “o maior gentleman”, destacando o caráter do ex-jogador brasileiro, com quem conversou pessoalmente durante um voo a Buenos Aires. Por outro lado, em relação a Maradona, Francisco reconheceu as habilidades do argentino em campo, mas afirmou que “como homem, ele fracassou”. Essa declaração se referia ao comportamento controverso do ex-jogador, que teve um relacionamento tumultuado com a mídia e com sua própria vida pessoal.
Messi, por sua vez, foi descrito por Francisco como “corretíssimo” e “um cavalheiro”, destacando o comportamento exemplar do argentino, que também foi recebido pelo pontífice no Vaticano.
Além de suas declarações públicas, a paixão de Francisco pelo futebol também foi retratada no cinema. No filme “Os Dois Papas”, lançado em 2019, o pontífice e o Papa Bento XVI assistem à final da Copa do Mundo de 2014, entre Alemanha e Argentina. Embora a cena seja fictícia, ela reflete a ligação entre os dois líderes religiosos e o esporte. No entanto, é importante notar que Francisco não assistia à televisão desde 1990, por uma escolha pessoal, e Bento XVI preferia a música e a literatura.
Em 2022, antes da final da Copa do Mundo entre França e Argentina, o Papa fez um apelo para que os jogadores vitoriosos celebrassem “com humildade”, refletindo mais uma vez seu desejo de que o futebol fosse um meio para a promoção de valores coletivos e de respeito.
*Com informações da RFI.











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