Mapeamento cultural de povos indígenas na Bahia avança com projetos do IPAC e SECULT

O mapeamento e o inventário cultural dos povos indígenas Guerém e Pataxó, na Bahia, integram a política estadual de salvaguarda de bens materiais e imateriais coordenada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac). As ações ocorrem por meio de dois projetos selecionados no edital Inventário de Conhecimento de Bens Culturais do Estado da Bahia, lançado em 2023 pela Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) com recursos da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura.

Os projetos buscam identificar, documentar e valorizar referências culturais de comunidades indígenas nos territórios tradicionais. Os inventários incluem celebrações religiosas, saberes ancestrais, formas de expressão, objetos e lugares de memória, estruturando um banco de dados para fins de pesquisa, mobilização social e formulação de políticas públicas.

Segundo Adriana Cerqueira, gerente de Patrimônio Imaterial do Ipac, o processo é construído de maneira participativa, com foco no protagonismo das comunidades envolvidas. Uma das exigências do edital é a produção de documentários sobre o processo de inventário e os resultados alcançados.

No caso do povo Guerém, na região do Baixo Sul, o projeto ocorre na Aldeia São Fidelis, em Valença. A comunidade participou de oficinas sobre o processo de construção do inventário e práticas audiovisuais. Equipamentos foram adquiridos e disponibilizados para o Coletivo Étnico Guerém, formado por jovens indígenas que atuarão na produção de vídeos e registros locais.

Estudiosos identificam o inventário como elemento essencial para o reconhecimento étnico do povo Guerém, cujo território sofreu pressões históricas da Coroa Portuguesa e do Estado brasileiro. Foram localizados documentos do período colonial que demonstram resistência à presença indígena devido ao interesse econômico na cana-de-açúcar e na extração de madeira. Francisco Cancela, coordenador do projeto e professor da Uneb, destacou que a retomada da identidade indígena teve impulso com a presença de jovens Guerém nas universidades nos últimos anos.

Mais de 30 bens culturais foram identificados pela comunidade Guerém, sendo 13 já catalogados, como a celebração “Ntack Tarú”, considerada a mais relevante. Esse ritual, realizado conforme o calendário lunar, articula espiritualidade, ancestralidade e pertencimento ao território. Inclui cantos e danças em torno de uma fogueira, pinturas corporais com urucum e jenipapo, e o uso de maracás. Conforme a fase da lua, o ritual pode ter significados distintos, como purificação ou cerimônia de nomeação indígena.

A Igreja de São Fidelis, construída no século XVII, foi identificada como bem cultural pela comunidade, apesar de sua origem cristã. Documentos históricos revelam pedidos de restauração feitos por indígenas no século XIX. A restauração recente do templo foi viabilizada com recursos de um documentário produzido pela própria comunidade.

No Extremo Sul e Costa do Descobrimento, o projeto de mapeamento do povo Pataxó já alcançou 35 das 48 aldeias nos municípios de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Prado. Oficinas intergeracionais foram realizadas, com destaque para o relato de Maria Coruja, liderança indígena de 86 anos, sobrevivente do incêndio da Aldeia Barra Velha, em 1951. O episódio, conhecido como Fogo 51, resultou na expulsão dos indígenas e no reconhecimento oficial da etnia apenas décadas depois.

Como parte do projeto, cantigas de roda tradicionais foram gravadas por 40 crianças, orientadas por anciãs. Mônica Bello, coordenadora do projeto, afirmou que a transmissão dos saberes para as novas gerações fortalece a continuidade da tradição indígena. O levantamento também registrou expressões como o samba pataxó, técnicas de pesca, esportes tradicionais, artesanato e o auwê (dança e canto cerimonial).

Além dos documentários, será publicado um livro com os resultados dos inventários. Cada projeto recebeu R$ 100 mil em financiamento público, com contrapartidas como atividades gratuitas em escolas públicas, universidades e espaços comunitários.


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