O cinema brasileiro voltou a ganhar destaque internacional com o filme “O agente secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, premiado em Cannes e indicado para representar o Brasil no Oscar 2026. A conquista reforça o impacto do audiovisual nacional no cenário global, mas evidencia entraves estruturais, como financiamento instável, políticas públicas fragmentadas e altos custos de ingresso, que limitam a consolidação da indústria.
Reconhecimento internacional do cinema brasileiro
O filme “O agente secreto” recebeu o prêmio de Melhor Direção em Cannes, enquanto o ator Wagner Moura foi eleito Melhor Ator, consolidando o cinema brasileiro no mercado internacional. Essa produção foi exibida recentemente no Palácio da Alvorada, na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reforçando o simbolismo cultural das obras nacionais.
Anteriormente, “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles, conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama para Fernanda Torres, demonstrando o potencial do país em eventos cinematográficos globais.
Soft power e desafios estruturais
Especialistas destacam que, embora o cinema brasileiro funcione como soft power, promovendo a cultura e atraindo turismo, a falta de continuidade nas políticas públicas e financiamento restrito limita o crescimento do setor.
O cineasta João Amorim aponta que a dependência de editais e ausência de fluxo contínuo de produção dificulta o planejamento e afasta investidores. Segundo ele, países que tratam o audiovisual como política de Estado colhem impactos econômicos e diplomáticos significativos.
O professor Rafael dos Santos, da UERJ, reforça que interrupções históricas nas políticas públicas — da extinção da Embrafilme à gestão Bolsonaro — impedem a consolidação de estratégias permanentes e fundos contínuos, necessários para expandir a presença internacional do cinema brasileiro.
Financiamento e incentivos insuficientes
Atualmente, a produção nacional depende quase exclusivamente do Fundo Setorial do Audiovisual, sem aporte contínuo que assegure investimentos estáveis. A concentração de recursos nas grandes produtoras limita oportunidades para médias e novas empresas, segundo Amorim.
Além disso, o custo elevado do ingresso é um obstáculo ao acesso popular. Santos defende subsídios para filmes nacionais e programas de formação de público nas escolas, para estimular o consumo de obras nacionais e fortalecer a cultura audiovisual.
Potencial de streaming e legislação
Especialistas apontam que regulação de plataformas de streaming e a Lei do Audiovisual (Lei 8.685/93) podem gerar receitas constantes e direitos autorais protegidos, além de fomentar investimentos diretos e indiretos na produção nacional. A participação da sociedade civil na formulação de políticas públicas é vista como estratégia para assegurar continuidade e resistência a cortes futuros.
Cooperação internacional e BRICS
A atuação em acordos de coprodução com países do Sul Global, especialmente dentro do BRICS, pode ampliar a circulação do cinema brasileiro, reduzindo a competição desigual com produções norte-americanas. Amorim e Santos destacam China, Índia, Rússia e África do Sul como mercados estratégicos, reforçando a integração cultural e econômica e promovendo a visibilidade do audiovisual brasileiro.
Investimentos em universidades estrangeiras, centros culturais e embaixadas também são considerados fundamentais para consolidar a presença internacional, utilizando produções brasileiras como instrumento de diplomacia cultural e formação de opinião global.
*Com informações da RFI.








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