O governo dos Estados Unidos anunciou a inclusão do Clã do Golfo, organização criminosa sediada na Colômbia, na lista de organizações terroristas estrangeiras, apenas um dia após o presidente Donald Trump declarar o fentanil uma “arma de destruição em massa”. As medidas reforçam uma abordagem militarizada no combate ao narcotráfico e ampliam tensões diplomáticas na América Latina, diante do temor de intervenções armadas sob o argumento do enfrentamento ao chamado “narcoterrorismo”.
Em comunicado assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, o Departamento de Estado descreve o Clã do Golfo como uma “violenta e poderosa organização criminosa, com milhares de membros”, cuja principal fonte de financiamento é o tráfico internacional de cocaína. Segundo o governo americano, o grupo teria sido responsável por ataques contra agentes públicos, forças de segurança, militares e civis na Colômbia, enquadrados pela Casa Branca como atos terroristas.
A organização surgiu no início dos anos 2000 e é considerada uma das maiores estruturas do narcotráfico colombiano, com ramificações no Caribe e rotas consolidadas de exportação de drogas para os Estados Unidos. Com a nova classificação, seus ativos ficam sujeitos a congelamento internacional, e qualquer apoio financeiro ou logístico passa a ser criminalizado sob a legislação antiterrorismo americana.
Ampliação da lista e sinalizações de Washington
Desde o início de 2025, os EUA vêm ampliando significativamente a lista de grupos criminosos classificados como terroristas, incluindo organizações no México, Venezuela, Haiti, Colômbia e até em território americano. O discurso oficial indica que novas inclusões estão em avaliação, consolidando uma estratégia que equipara cartéis de drogas a ameaças terroristas globais.
“O governo dos Estados Unidos continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e deter campanhas de violência e terror cometidas por cartéis internacionais e organizações criminosas transnacionais”, afirmou o Departamento de Estado, ao destacar o objetivo de cortar fluxos financeiros e recursos dessas estruturas.
Reações regionais e temor de violações de soberania
A política adotada por Washington gerou reações imediatas na América Latina. Governos da região, com destaque para o México, alertaram que a designação pode servir de base jurídica e política para ações militares unilaterais em seus territórios.
Em fevereiro, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que o combate ao narcotráfico não pode ser utilizado como pretexto para violar a soberania nacional. Segundo ela, a cooperação internacional deve ocorrer por meio de coordenação institucional, e não por intervenções armadas externas.
Desde agosto, os EUA mantêm a maior presença militar na América Latina em décadas, com cerca de 15 mil soldados, aeronaves de combate e o porta-aviões USS Gerald Ford, oficialmente mobilizados para combater o narcotráfico no Caribe e áreas estratégicas da região.
Operações militares e controvérsias no Caribe
Nos últimos meses, 25 embarcações acusadas de ligação com o narcotráfico foram bombardeadas por forças americanas, resultando em 95 mortes, segundo dados oficiais. O ataque mais recente ocorreu na segunda-feira, quando três barcos foram atingidos na costa do Pacífico, com oito mortes confirmadas.
Até o momento, o governo dos EUA não apresentou provas públicas de que as embarcações estavam efetivamente associadas ao tráfico de drogas. A situação se agravou após a imprensa americana revelar uma suposta ordem do secretário de Defesa, Pete Hegseth, para “não deixar sobreviventes” durante os ataques.
Em audiência no Congresso, Hegseth recusou-se a divulgar vídeos de uma operação realizada em 2 de setembro, na qual uma embarcação foi bombardeada duas vezes, mesmo após a identificação de sobreviventes no mar. Parlamentares democratas e parte dos republicanos afirmam que a ação pode ter violado regras de engajamento militar e normas do direito internacional, acusações negadas pelo Pentágono.
Defesa política da ofensiva militar
Apesar das críticas, a cúpula do governo Trump mantém apoio irrestrito às operações. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, afirmou que o uso das Forças Armadas é necessário diante do impacto das drogas sintéticas na sociedade americana.
Segundo Johnson, nos últimos quatro anos, os Estados Unidos perderam mais vidas por overdose e causas relacionadas às drogas do que em conflitos como a Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietnã, Afeganistão e Iraque, somados. Para o Congresso alinhado à Casa Branca, a ofensiva é vista como legítima defesa nacional.
Pressão sobre a Venezuela e escalada regional
A Venezuela também entrou no radar da estratégia americana. O governo dos EUA acusa o presidente Nicolás Maduro de liderar o chamado Cartel de los Soles, incluído na lista de organizações terroristas, embora especialistas apontem que não se trata de uma estrutura criminosa formalmente estabelecida.
Washington intensificou voos de reconhecimento próximos à costa venezuelana, realizou manobras militares em Trinidad e Tobago e autorizou operações sigilosas de inteligência em solo venezuelano. Trump chegou a sugerir publicamente a possibilidade de operações terrestres “em breve”, o que levou Caracas a reforçar sua defesa militar e a retórica antiamericana.
“Guerra às drogas 2.0” e o fentanil como arma estratégica
A nova fase da política antidrogas dos EUA recupera conceitos historicamente associados a intervenções militares. Na segunda-feira, Trump declarou o fentanil uma “arma de destruição em massa”, equiparando a droga a armamentos nucleares, químicos e biológicos.
O fentanil é apontado como responsável por 48 mil mortes por overdose em 2024 e 76 mil em 2023, configurando uma das mais graves crises de saúde pública do país. Durante a campanha presidencial, o combate à droga foi um dos eixos centrais do discurso de Trump.
De volta à Casa Branca, o presidente incluiu cartéis na lista de terroristas e impôs tarifas comerciais à China, principal origem dos insumos químicos usados na produção do fentanil, ao México, principal rota de entrada da droga, e ao Canadá, apesar de o país responder por menos de 1% das apreensões.
Alertas históricos e críticas ao uso do conceito
Especialistas e governos regionais alertam para os riscos do uso político do conceito de “arma de destruição em massa”. No passado, alegações semelhantes justificaram a invasão do Iraque em 2003, baseada em armamentos que nunca foram encontrados, e a pressão internacional sobre a Líbia, cujo regime foi derrubado anos depois apesar de ter abandonado seus programas militares.
Ao comentar a decisão americana, Claudia Sheinbaum voltou a enfatizar que soberania e territorialidade não estão em negociação, defendendo cooperação internacional sem qualquer tipo de intervenção militar.
Militarização, soberania e riscos institucionais
A classificação de cartéis como organizações terroristas e a equiparação do fentanil a uma arma de destruição em massa indicam uma mudança estrutural na política externa e de segurança dos Estados Unidos, marcada por forte militarização e retórica de guerra. Embora o impacto social da crise das drogas seja inegável, a estratégia adotada amplia zonas cinzentas no direito internacional.
Os episódios no Caribe, a ausência de provas públicas contra alvos bombardeados e as denúncias sobre regras de engajamento reforçam questionamentos sobre legalidade, proporcionalidade e transparência das operações. O risco de normalização de ações unilaterais é um dos principais pontos de tensão com governos latino-americanos.
Do ponto de vista regional, a política americana reacende memórias de intervenções passadas e fragiliza canais diplomáticos tradicionais, ao mesmo tempo em que pode fortalecer discursos nacionalistas e antiamericanos. O combate ao narcotráfico, ao ser enquadrado como guerra antiterrorista, passa a ter implicações que extrapolam a segurança pública e alcançam o equilíbrio institucional e a estabilidade geopolítica no continente.








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