A França caminha para o isolamento político dentro da União Europeia ao manter posição contrária ao acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que será analisado pelos embaixadores dos países-membros na sexta-feira (09/01/2026), em Bruxelas. Enquanto o governo francês tenta responder à pressão interna do setor agrícola, uma parcela relevante do empresariado francês, especialmente o estabelecido no Brasil, avalia positivamente a iminente assinatura do tratado, após mais de duas décadas de negociações.
Negociado há cerca de 25 anos, o acordo voltou ao centro do debate político europeu com a decisão do presidente Emmanuel Macron de rejeitar o texto. A escolha, amplamente analisada pela imprensa francesa, levanta questionamentos sobre o custo político da posição francesa, uma vez que o bloco de países contrário ao acordo se desfez após a mudança de postura da Itália.
Sem o apoio italiano, a França deixou de reunir aliados suficientes para bloquear o tratado. Para impedir a aprovação, seria necessário o apoio de ao menos 13 dos 27 Estados-membros da União Europeia ou de países que representem 35% da população do bloco, um cenário considerado inviável no momento.
Empresários franceses no Brasil avaliam impacto econômico positivo
Segundo reportagem do jornal Les Echos, mais de mil empresas francesas instaladas no Brasil veem a provável assinatura do acordo como uma oportunidade estratégica, após anos de estagnação nas negociações. O tratado é considerado relevante por ampliar o acesso ao mercado brasileiro, apontado por representantes empresariais como um dos mais fechados do G20 em termos comerciais.
De acordo com Thierry Besse, presidente da Câmara de Comércio França-Brasil em São Paulo, a redução de barreiras comerciais teria impacto direto na competitividade das empresas europeias. Atualmente, tarifas alfandegárias brasileiras podem chegar a 35%, o que representa um obstáculo significativo para a atuação de companhias francesas no país.
A entrada em vigor do acordo colocaria as empresas europeias em posição mais favorável em relação a concorrentes dos Estados Unidos e da China, que não dispõem de tratados equivalentes com o Brasil. Para esse segmento do empresariado francês, o Mercosul é interpretado como oportunidade de crescimento e reposicionamento estratégico, e não como ameaça econômica.
Aprovação do acordo e próximos passos institucionais
Caso seja alcançada a maioria qualificada, correspondente a 55% dos Estados-membros que representem 65% da população da União Europeia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá viajar ao Paraguai na segunda-feira (12/01/2026) para a assinatura formal do acordo, conforme destacado pela imprensa francesa.
O avanço do processo reforça a percepção de que a França, ao manter posição isolada, corre o risco de perder influência nas decisões estratégicas do bloco, especialmente em um contexto de disputa econômica global com Estados Unidos e China.
Isolamento político da França na União Europeia
Para o jornal Le Figaro, a França se encontra politicamente isolada ao tentar bloquear o tratado após a mudança de posição da Itália. O diário aponta que, apesar de ter obtido concessões ao longo das negociações, Paris adotou uma postura considerada inflexível, sem conseguir justificar de forma clara sua decisão à opinião pública nem impor sua visão em Bruxelas.
O governo francês sustenta o discurso de autonomia estratégica europeia, mas se opõe a um acordo que a maioria de seus parceiros considera essencial para fortalecer a posição econômica da União Europeia frente às grandes potências globais. Internamente, setores industriais e comerciais que poderiam se beneficiar do tratado mantiveram postura discreta, diante da forte mobilização do setor agrícola.
Paradoxo entre política comercial e crise agrícola
Na avaliação do Les Echos, a decisão francesa de votar contra o acordo não resolve a crise agrícola interna, marcada por protestos, bloqueios de estradas e crescente tensão no campo. O jornal observa que o governo de Emmanuel Macron tentou inicialmente transferir a pressão dos agricultores para Bruxelas, mas acabou endurecendo sua posição no plano interno.
O tratado com o Mercosul passou a ser tratado como símbolo de ameaça, inclusive para setores que poderiam ser beneficiados economicamente. Segundo a análise, tanto a aprovação quanto a rejeição do acordo não enfrentam os problemas estruturais da agricultura francesa, como renda dos produtores, exigências ambientais, competitividade internacional e renovação geracional.
Para o diário econômico, o resultado é um impasse político e social, no qual o foco no Mercosul acaba encobrindo desafios mais profundos, sem respostas claras sobre como o governo francês pretende lidar com a crise agrícola e com sua posição dentro da União Europeia.
*Com informações da RFI.








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