Há momentos na história intelectual em que uma obra deixa de ser apenas um livro e se converte em um diagnóstico estrutural da condição humana em determinada fase da civilização. Public Opinion, de Walter Lippmann, publicado em 1922, é um desses raros momentos. Lido apressadamente, pode parecer um tratado sobre jornalismo, propaganda ou psicologia social. Lido com a devida gravidade, revela-se algo muito mais inquietante: uma anatomia dos limites cognitivos da democracia moderna. The Good Society, escrito quinze anos depois, sob o peso da crise do liberalismo e da ascensão dos totalitarismos, fecha o arco e transforma aquele diagnóstico psicológico inicial em uma teoria civilizacional. Juntos, os dois livros formam uma das mais profundas reflexões já escritas sobre o governo de sociedades complexas por seres humanos finitos, emocionais, distraídos e estruturalmente dependentes de mediações simbólicas.
Lippmann parte de uma constatação simples e devastadora: o mundo moderno é grande demais, rápido demais e complexo demais para ser conhecido diretamente pelo cidadão comum. O indivíduo não reage à realidade, mas a representações da realidade. Vive, como ele diz, não no mundo exterior, mas em um pseudoambiente construído por fragmentos de informação, imagens mentais, estereótipos culturais, narrativas midiáticas e emoções coletivas. As célebres pictures in our heads não são desvios ocasionais da razão, mas o próprio modo normal pelo qual os seres humanos lidam com o mundo. A opinião pública, portanto, não é a soma de julgamentos racionais sobre fatos objetivos, mas o resultado instável de percepções mediadas, simplificadas e frequentemente distorcidas.
Essa intuição, que antecede em décadas a psicologia cognitiva contemporânea, foi posteriormente confirmada empiricamente por Daniel Kahneman. Quando Kahneman descreve heurísticas, vieses, ilusões de validade e a predominância do Sistema 1 sobre o Sistema 2, ele fornece o aparato científico para aquilo que Lippmann havia percebido filosoficamente. O ser humano não foi moldado para processar complexidade política abstrata. Decide por atalhos, emoções, analogias pobres e narrativas simplificadoras. Em larga escala, isso não é uma falha corrigível pela educação cívica tradicional. É uma condição estrutural.
A democracia liberal clássica, entretanto, foi construída sobre a ficção oposta. Supôs um cidadão capaz de conhecer os fatos relevantes, ponderar argumentos e formar uma vontade política racional. Lippmann não acusa esse ideal de ingenuidade moral, mas de erro epistemológico. O problema não é que o cidadão seja mau ou preguiçoso. O problema é que ele está situado em um mundo que não pode ver, compreender ou acompanhar. A política moderna trata de sistemas financeiros globais, cadeias produtivas transnacionais, tecnologias opacas, conflitos geopolíticos distantes e riscos probabilísticos. O eleitor, como Lippmann observa com ironia contida, chega sempre “no meio do terceiro ato e sai antes do final”.
É nesse ponto que se abre a grande bifurcação do pensamento político do século XX. Uma resposta possível é a que será posteriormente desenvolvida por Joseph Schumpeter. Se o povo não pode governar, então a democracia deve ser redefinida como um método competitivo de seleção de elites. O papel do público não é deliberar, mas legitimar. Outra resposta, mais normativa, é a de John Rawls. Diante da impossibilidade de confiar nas preferências reais, Rawls desloca o fundamento da legitimidade para princípios escolhidos sob condições hipotéticas de ignorância, criando a noção de razão pública como um ideal regulativo, não empírico. Em ambos os casos, Lippmann está presente como pressuposto silencioso.
Habermas tenta resistir mais frontalmente. Sua teoria da ação comunicativa e da esfera pública deliberativa é, em grande medida, uma tentativa de salvar a democracia do diagnóstico lippmanniano. Onde Lippmann vê fragmentação cognitiva, Habermas aposta na força racionalizante do discurso sob condições ideais. O problema, em 2026, é que essas condições ideais se afastaram dramaticamente da realidade. A esfera pública digital não ampliou a deliberação racional. Ela a fragmentou, acelerou e emocionalizou. As plataformas digitais não são ágoras iluministas. São mercados de atenção.
Aqui, Lippmann se encontra com Pierre Bourdieu. Quando Bourdieu afirma que a opinião pública não existe, ele ecoa diretamente o argumento de que as pessoas respondem a perguntas que não formularam, com categorias que não dominam, em linguagens que não controlam. As pesquisas de opinião, os plebiscitos morais instantâneos e a política guiada por trending topics são formas contemporâneas de cristalização do pseudoambiente. Não expressam a vontade popular. Produzem uma ilusão de vontade.
Noam Chomsky, por sua vez, dialoga explicitamente com Lippmann ao retomar a expressão “fabricação do consentimento”. Mas onde Lippmann via um problema estrutural da democracia de massas, Chomsky vê uma estratégia consciente de dominação das elites econômicas. Ambos estão certos, em níveis distintos. A opinião pública é estruturalmente moldável. Essa moldabilidade pode ser explorada politicamente. A divergência entre eles não é sobre o fenômeno, mas sobre o juízo moral e o destino institucional da mediação.
O que Lippmann talvez não tenha podido antecipar plenamente é a mutação tecnológica do pseudoambiente no século XXI. Shoshana Zuboff descreve esse salto qualitativo com precisão ao falar do capitalismo de vigilância. Não se trata mais apenas de influenciar opiniões, mas de modular comportamentos. O pseudoambiente deixa de ser um espelho distorcido do mundo e passa a ser um sistema ativo de indução. Algoritmos não apenas informam. Eles priorizam, ocultam, amplificam e silenciam. A autonomia cognitiva, já limitada, torna-se um recurso explorável economicamente.
Byung-Chul Han descreve o efeito subjetivo desse processo. A saturação informacional não produz esclarecimento, mas exaustão. A transparência total dissolve a verdade. A aceleração permanente destrói a atenção, condição mínima para qualquer juízo público responsável. O cidadão hiperconectado é, paradoxalmente, menos capaz de formar opinião consistente do que o leitor lento do jornal impresso do início do século XX. Lippmann falava de estereótipos. Hoje falamos de bolhas, câmaras de eco e cascatas informacionais. O mecanismo é o mesmo. A escala é inédita.
Cass Sunstein tenta oferecer uma resposta liberal pragmática a esse cenário. Reconhece os limites cognitivos descritos por Lippmann e Kahneman, mas aposta em intervenções suaves, arquitetura da escolha e regulação da esfera digital. É uma tentativa honesta de governar a irracionalidade sem recorrer ao autoritarismo. O risco, que Lippmann já intuía, é escorregar para um paternalismo tecnocrático que substitui o erro do público pela onipotência do especialista.
E aqui entramos no segundo grande movimento de Lippmann, desenvolvido em The Good Society. Diante da fragilidade da opinião pública, a tentação natural das sociedades modernas é transferir poder para planejadores, líderes fortes, partidos únicos ou sistemas técnicos supostamente racionais. Fascismo, comunismo e planejamento central são, para Lippmann, respostas erradas a um problema real. O erro não está em reconhecer os limites do público, mas em acreditar que esses limites podem ser superados pela concentração de poder e conhecimento. Não podem. O planejador também é humano. Também opera com pseudoambientes. Apenas com mais poder.
A boa sociedade, para Lippmann, não é aquela em que alguém sabe tudo e decide tudo. É aquela em que ninguém pode decidir demais. Trata-se de uma defesa renovada do liberalismo como sistema institucional de contenção da ignorância humana. Mercados regulados, Estado de Direito, separação de poderes, regras gerais e impessoais não são instrumentos de eficiência perfeita. São mecanismos de humildade política. Reconhecem que o conhecimento é disperso, falível e irredutivelmente incompleto.
Em 2026, esse ponto é crucial. Vivemos simultaneamente a crise da democracia plebiscitária e a ascensão da governança algorítmica. De um lado, líderes populistas reivindicam falar em nome de uma opinião pública volátil, emocionalmente inflamada e informacionalmente deformada. De outro, tecnocratas e engenheiros prometem governar melhor substituindo deliberação política por modelos, dados e inteligência artificial. Ambos partilham o mesmo erro fundamental: acreditam que o problema da democracia é técnico, não humano.
Fareed Zakaria descreve esse momento como a era das democracias iliberais. Ivan Krastev observa que o colapso da confiança precede o colapso das instituições. Peter Zeihan aponta para o retorno de decisões estratégicas tomadas por elites em contextos de compressão temporal extrema. Em todos esses diagnósticos, Lippmann está presente como sombra tutelar. A pergunta não é se a opinião pública é falha. Ela sempre foi. A pergunta é como construir instituições que sobrevivam apesar disso.
A importância do tema hoje é, portanto, existencial. Não se trata de salvar a democracia idealizada do século XIX. Trata-se de evitar que sociedades complexas, frustradas com sua própria incapacidade de compreender o mundo, entreguem-se novamente a soluções autoritárias, sejam elas carismáticas ou algorítmicas. Lippmann não oferece consolo. Oferece lucidez. E lucidez, em tempos de ruído permanente, é talvez a forma mais rara de coragem intelectual.
No fundo, a lição que atravessa seus dois livros é trágica no sentido clássico. O homem deseja governar o mundo, mas mal compreende a cena em que atua. Confunde sombras com substância, ruído com verdade, vontade com conhecimento. A política moderna é o palco dessa tragédia. A democracia só sobrevive se aceitar essa condição e se organizar não para produzir certezas, mas para limitar danos, conter excessos e preservar a liberdade em meio à ignorância inevitável.
Lippmann escreveu para um mundo à beira do abismo. Nós lemos Lippmann dentro dele. Talvez por isso ele soe hoje menos como um teórico e mais como um oráculo sóbrio. Não promete salvação. Apenas nos lembra, com a elegância austera dos grandes pensadores, que toda civilização começa a ruir quando passa a confundir opinião com verdade e poder com sabedoria.
*Zilan Costa e Silva, advogado e professor.











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