Relatório da ONU aponta avanço de drogas sintéticas no Afeganistão e alerta para custos elevados, riscos à saúde e falhas no tratamento

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) divulgou, no domingo (01/02/2026), o terceiro volume do Inquérito Nacional sobre o Uso de Drogas no Afeganistão, apontando que o consumo ainda é dominado por substâncias tradicionais, como cannabis e ópio, mas registra aumento no uso de drogas sintéticas e no consumo indevido de medicamentos farmacêuticos. O levantamento foi financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

O estudo apresenta dados atualizados sobre padrões de consumo, impactos econômicos, riscos sanitários e capacidade de atendimento, sendo a primeira medição nacional desde 2015. Segundo o relatório, a transição gradual para substâncias sintéticas ocorre paralelamente a fatores como pobreza, desemprego e dificuldades de acesso a serviços de saúde.

As conclusões também indicam lacunas na rede de tratamento, desigualdades de gênero no acesso a cuidados e custos elevados das drogas em relação à renda média dos usuários.

Padrões de consumo e crescimento das substâncias sintéticas

De acordo com o levantamento, 46% dos homens entrevistados identificaram a cannabis como a droga mais comum em suas comunidades, seguida pelo ópio (19%). O relatório também registra o uso do chamado “Tablet K” (11%) e da metanfetamina (7%), substâncias associadas ao avanço das drogas sintéticas.

A Unodc observa que o aumento dessas substâncias representa mudança no perfil do mercado local, tradicionalmente baseado no cultivo e consumo de opiáceos.

O documento destaca que o monitoramento nacional atualizado é essencial para orientar políticas públicas de prevenção e assistência.

Impacto econômico e fatores associados ao uso

O relatório indica que o custo das drogas compromete significativamente a renda familiar. Em alguns casos, um dia de consumo de metanfetamina pode equivaler a 138% do rendimento diário de um trabalhador ocasional ou 67% do salário de um trabalhador qualificado.

Os entrevistados associaram o consumo contínuo a pobreza, desemprego, dificuldades financeiras, dor física, problemas de saúde, sofrimento psicológico e dependência química.

Segundo a Unodc, essas condições reforçam a necessidade de políticas integradas que combinem saúde, assistência social e geração de renda.

Riscos à saúde e práticas de alto risco

Dados anteriores do Inquérito sobre Uso de Drogas de Alto Risco indicam exposição a doenças transmissíveis. Cerca de 8% dos entrevistados relataram uso de drogas injetáveis em algum momento da vida.

Entre esses, mais de 75% afirmaram ter compartilhado seringas, enquanto aproximadamente metade relatou acesso irregular a equipamentos esterilizados, evidenciando limitações na cobertura de redução de danos.

O estudo também aponta desigualdade de gênero no acesso a tratamento, com 29% das mulheres relatando atendimento, contra 53% dos homens.

Estrutura de tratamento e limitações de cobertura

O primeiro volume da série, dedicado ao mapeamento das unidades de tratamento, identificou falhas na distribuição geográfica, acessibilidade e capacidade técnica dos serviços.

Quase dois terços das instalações atendem exclusivamente homens, enquanto 17,1% são voltadas apenas para mulheres. Em 32 províncias analisadas, pouco mais de um terço dispõe de atendimento feminino.

O relatório também menciona escassez de profissionais de saúde qualificados e infraestrutura insuficiente para responder à demanda.

Recomendações e posicionamento das Nações Unidas

Representantes do Unodc, do Pnud e da Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (Unama) defenderam respostas integradas, combinando tratamento voluntário, redução de danos, cuidados primários, saúde mental, proteção social e apoio ao emprego.

O documento recomenda expansão dos serviços para homens e mulheres, formação de profissionais, definição de padrões mínimos de atendimento e integração das políticas de drogas aos sistemas de saúde pública.

As Nações Unidas ressaltam que as medidas devem ser baseadas em direitos humanos, prevenção e redução do estigma, com intervenções adaptadas às realidades provinciais.


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