Capitalismo Superindustrial: Fernando Haddad analisa disputa global, ascensão chinesa e nova fragmentação das classes sociais

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, apresentou, em 7 de fevereiro de 2026, o livro “Capitalismo superindustrial – Caminhos diversos, destino comum”, obra em que revisita debates do marxismo, reinterpreta a experiência soviética e analisa a atual fase do capitalismo global. No texto de apresentação, o autor sustenta que o sistema capitalista se mundializou por caminhos históricos distintos, discute a ascensão da China como desafio à hegemonia norte-americana e propõe o conceito de capitalismo superindustrial, marcado pela mercantilização do conhecimento e pela fragmentação das classes sociais tradicionais.

Fernando Haddad apresenta no livro-tese uma reflexão de longo alcance sobre as transformações do sistema econômico mundial, combinando estudos acadêmicos desenvolvidos desde as décadas de 1980 e 1990 com análises atualizadas à luz das mudanças recentes da economia global. A obra busca explicar o surgimento do que o autor denomina capitalismo superindustrial, um estágio marcado pela centralidade da tecnologia, pela incorporação do conhecimento como principal fator produtivo e pela intensificação da competição internacional, fenômenos que, segundo ele, ampliam desigualdades e redesenham as relações de poder entre países e classes sociais.

Ao revisitar a economia política do século XX, Haddad analisa a experiência do sistema soviético, o papel da industrialização tardia nas periferias do capitalismo e os processos históricos de acumulação de capital. O autor examina como diferentes trajetórias nacionais — especialmente no caso da ascensão da China como potência global — contribuem para a formação de um sistema econômico integrado, no qual as cadeias produtivas e o fluxo de conhecimento passam a determinar a dinâmica da produção e do emprego. Nesse cenário, a ciência e a inovação tecnológica deixam de ser apenas instrumentos de progresso e se tornam elementos estruturais da própria lógica de acumulação.

A obra também se debruça sobre a recomposição das classes sociais em um contexto em que o conhecimento, a tecnologia e a informação assumem papel central na produção de riqueza. Haddad discute se essa nova configuração econômica gera novas classes ou redefine as existentes, destacando os paradoxos, riscos e oportunidades do capitalismo contemporâneo. O livro propõe, assim, uma interpretação histórica e estrutural do sistema global, defendendo a ideia de que, apesar das diferenças de percurso entre os países, as sociedades convergem para um destino comum moldado pelas forças do capitalismo superindustrial.

A estrutura do livro-tese

O livro “Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum” organiza-se em cinco grandes partes temáticas, cada uma dedicada a um momento histórico ou a um eixo teórico da formação do capitalismo contemporâneo. A divisão não tem caráter meramente didático. Trata-se de um percurso intelectual coerente, que parte das origens da acumulação nas periferias, atravessa os debates sobre o socialismo soviético e desemboca no conceito central de capitalismo superindustrial.

Parte I — Acumulação primitiva de capital na periferia do capitalismo

A primeira parte reúne o material mais recente e original do autor, concentrado na análise dos processos de acumulação primitiva em países periféricos. O foco recai sobre as transformações realizadas por sociedades atrasadas ou semidespóticas que permitiram a formação de economias capitalistas autônomas. O objetivo é explicar por que determinadas experiências de modernização foram bem-sucedidas — como nos casos de China e Rússia — enquanto outras permaneceram presas à dependência estrutural.

Parte II — O marxismo oriental

Nesta seção, o autor examina as transformações do pensamento marxista no contexto soviético e asiático. Analisa a formação do chamado marxismo soviético e suas primeiras dissidências, sobretudo o trotskismo. A discussão busca compreender como a teoria marxista foi reinterpretada em sociedades que não seguiram o padrão histórico europeu, revelando tensões entre teoria, prática revolucionária e construção estatal.

Parte III — A dissidência ocidental

A terceira parte aborda correntes teóricas que romperam com o trotskismo e passaram a interpretar o sistema soviético como um novo modo de produção, distinto tanto do capitalismo clássico quanto do socialismo idealizado. Surgem conceitos como capitalismo de Estado, coletivismo burocrático e sociedade gerencial, empregados para explicar a natureza das formações soviéticas. O objetivo é reavaliar a experiência soviética fora das categorias tradicionais.

Parte IV — O desenvolvimento histórico não linear

Nesta etapa, o autor aprofunda o debate teórico sobre o caráter do sistema soviético e de outras formações sociais não ocidentais. Em vez de considerá-las simples sucessoras do capitalismo, explora a hipótese de que derivariam de um modo asiático de produção, com trajetória histórica distinta do feudalismo europeu. A parte discute conceitos fundamentais como modo de produção e classes sociais, preparando o terreno para a interpretação do capitalismo contemporâneo.

Parte V — Capitalismo superindustrial

A parte final apresenta o conceito central da obra: o capitalismo superindustrial, caracterizado pela incorporação do conhecimento como fator decisivo de produção. O autor analisa como a mercantilização do saber e da tecnologia reorganiza a economia e fragmenta as classes sociais, criando novas categorias como cognitariado, proletariado e precariado. A seção procura interpretar o estágio atual do capitalismo global e suas implicações políticas e sociais, em diálogo com teorias recentes como o capitalismo cognitivo e o chamado tecnofeudalismo.

No conjunto, as cinco partes formam um arco histórico e teórico contínuo. A narrativa parte das origens da acumulação, atravessa as experiências socialistas e os debates marxistas do século XX, e desemboca numa interpretação do capitalismo contemporâneo como um sistema estruturado pela indústria do conhecimento. Trata-se de uma tentativa de compreender o presente à luz do passado — método clássico e indispensável, pois sistemas econômicos, como civilizações, carregam sempre a memória de suas próprias origens.

A leitura desse percurso revela uma tese ambiciosa: o capitalismo não segue uma linha reta, mas um caminho irregular, feito de rupturas, adaptações e hibridizações históricas. Nesse labirinto de trajetórias, o conhecimento surge não apenas como ferramenta produtiva, mas como o novo campo de disputa pelo poder econômico e político — uma espécie de “terra” abstrata do século XXI, onde se travam as batalhas decisivas do sistema.

Compreenda, a seguir, os principais aspectos da obra.

Capitalismo como processo mundial e desigual

Haddad retoma uma passagem clássica de Karl Marx, segundo a qual a história do capitalismo, mesmo quando observada em um país específico, diz respeito a toda a humanidade. A partir dessa premissa, o autor sustenta que o capitalismo se tornou um fenômeno global, mas por trajetórias nacionais distintas.

Segundo o ministro, o termo “mundialização” descreve melhor esse processo do que a expressão “globalização”, pois preserva as particularidades históricas de cada país. A modernização econômica teria seguido caminhos singulares, embora integrados a uma mesma lógica de expansão do sistema capitalista.

Nesse contexto, Haddad afirma que a transformação mais relevante do capitalismo contemporâneo foi a generalização da força de trabalho como mercadoria em escala global, fenômeno que se consolidou ao longo do século XX e se intensificou nas últimas décadas.

O sistema soviético e a transição para o capitalismo

O autor dedica parte relevante da análise à experiência soviética, que, segundo ele, costuma ser interpretada de forma ideológica tanto por críticos liberais quanto por setores da esquerda.

Haddad argumenta que o período histórico deve ser avaliado pelos resultados concretos, e não apenas pelos ideais que o motivaram. Sob essa ótica, sustenta que o sistema soviético contribuiu para criar as condições materiais que permitiram a países como Rússia e China estabelecerem bases para um capitalismo autônomo.

A queda da União Soviética e o fim do bloco socialista, lembra o autor, foram interpretados por parte do pensamento liberal como o “fim da história”, conceito associado ao cientista político Francis Fukuyama. Esse momento coincidiu com a expansão da globalização neoliberal e do chamado Consenso de Washington.

Haddad observa, contudo, que a vitória do capitalismo em escala mundial não significou necessariamente a vitória dos Estados Unidos ou da Europa. O sistema, segundo ele, preserva a lógica de concorrência entre Estados, o que explica a ascensão de novos polos de poder.

Disputas hegemônicas ao longo da história

O livro situa a atual disputa global dentro de um processo histórico mais amplo. Haddad recorda que diferentes países ocuparam a posição hegemônica ao longo dos últimos cinco séculos:

  • Espanha e Holanda, nos primórdios do capitalismo
  • Inglaterra, durante a consolidação industrial
  • Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial

Segundo o autor, a hegemonia norte-americana já foi desafiada anteriormente pelo poderio militar soviético e pelo avanço econômico japonês, sem sucesso. O cenário atual, no entanto, seria distinto.

Haddad aponta a China como o principal desafio contemporâneo, por reunir escala populacional, capacidade militar e base tecnológica suficientes para disputar a liderança global estabelecida desde 1945.

O conceito de capitalismo superindustrial

No centro da obra está a formulação do conceito de capitalismo superindustrial, definido por três características principais:

  • A indústria como padrão dominante de reprodução material e social
  • A mercantilização do conhecimento como novo fator central de produção
  • A fragmentação das classes sociais tradicionais

Segundo Haddad, a transformação tecnológica e a incorporação do conhecimento ao processo produtivo alteraram profundamente a estrutura de classes. O autor identifica a divisão das classes não proprietárias em três grupos:

  • Cognitariado: trabalhadores do conhecimento
  • Proletariado: trabalhadores industriais tradicionais
  • Precariado: trabalhadores em situação de instabilidade e informalidade

Essa fragmentação, afirma, não foi prevista pelas teorias clássicas e impõe novos desafios ao campo político, que precisaria formular programas emancipatórios baseados em imaginação política, e não apenas em determinismos econômicos.

Revisões teóricas do marxismo e do desenvolvimento histórico

A obra reúne estudos acadêmicos produzidos por Haddad entre o final dos anos 1980 e a década de 1990, revisando diferentes correntes do pensamento marxista.

Entre os temas abordados estão:

  • O marxismo soviético e suas dissidências
  • A hipótese do capitalismo de Estado ou coletivismo burocrático
  • A ideia de um modo asiático de produção
  • Debates contemporâneos sobre capitalismo cognitivo e tecnofeudalismo

Segundo o autor, a centralidade do conhecimento como fator de produção emerge dessas discussões e abre caminho para a formulação do conceito de capitalismo superindustrial.

Perspectivas para a disputa global contemporânea

Ao final do texto, Haddad afirma que a análise do sistema soviético e dos processos de acumulação primitiva em países periféricos ajuda a compreender os atuais competidores na disputa pela hegemonia global.

Para ele, o desafio contemporâneo é entender como as novas configurações do capitalismo, baseadas no conhecimento e na tecnologia, estão reorganizando as relações sociais e políticas.

O autor sustenta que a luta por emancipação continua presente no mundo atual, mas exige novas formas de organização e pensamento político.

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