A Missão Independente Internacional de Apuração de Factos da ONU identificou “características de genocídio” em El Fasher, região de Darfur, no Sudão, após ataques das Forças de Apoio Rápido (RSF) no final de outubro de 2025. O relatório divulgado aponta que os atos incluíram assassinatos direcionados etnicamente, violência sexual generalizada, desaparecimentos forçados e privação de alimentos e assistência médica, afetando principalmente as comunidades Zaghawa e Fur.
O documento destaca que o conflito teve início em 15/04/2023, quando combates eclodiram entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as RSF, expandindo-se por vastas regiões do país e afetando civis com impactos de guerra urbana e colapso de serviços essenciais. Segundo a Missão, o cerco de 18 meses imposto a El Fasher contribuiu para agravar a situação, criando condições de vida calculadas para provocar destruição física parcial ou total dos grupos-alvo.
Segundo Mohamed Chande Othman, presidente da Missão, “a escala, a coordenação e o endosso público da operação pelas RSF demonstram que os crimes não foram excessos aleatórios, mas atos planejados com características de genocídio”.
A missão indicou que pelo menos três atos subjacentes de genocídio foram cometidos: assassinato de membros de grupo étnico protegido, causação de danos graves à integridade física e mental e imposição de condições de vida destinadas à destruição do grupo.
Evidências de genocídio e padrão de ataques
A investigação da ONU identificou padrões sistemáticos de ataques baseados em identidade étnica e política, incluindo violência contra mulheres e meninas das comunidades Zaghawa e Fur, enquanto mulheres árabes eram poupadas. Foram documentados assassinatos em massa, violência sexual, tortura, extorsão e desaparecimentos forçados, além de retórica pública das RSF que reforça a intenção de eliminação de grupos não árabes.
A Missão destacou que avisos e alertas internacionais desde meados de 2024 indicavam risco de atrocidades, mas nenhuma medida efetiva de proteção foi tomada antes da tomada de El Fasher. O relatório alerta que a ausência de prevenção e responsabilização efetivas aumenta o risco de novos atos genocidas, especialmente com a expansão do conflito para outras regiões, como o Cordofão.
Sobreviventes relataram ameaças explícitas das RSF, incluindo declarações como “Há algum Zaghawa entre vocês? Se encontrarmos, matamo-los a todos”, evidenciando a intenção genocida. A missão reforçou que tais padrões representam uma escalada na violência e exigem ação internacional imediata para proteção dos civis.
Necessidade de responsabilização internacional
A Missão de investigação, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em outubro de 2023, concluiu que todos os responsáveis em níveis de autoridade devem ser responsabilizados. O relatório será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em 26/02/2026 e solicita medidas para prevenção de novas atrocidades, proteção de civis e aplicação da justiça internacional.
As comunidades Zaghawa e Fur, historicamente alvo de discriminação em Darfur, enfrentam agora um risco elevado de novas violações, enquanto esforços humanitários buscam suprir necessidades básicas de alimentação, água e assistência médica para deslocados de El Fasher.
*Com informações da ONU News.








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