A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou nesta terça-feira (17/03/2026) que o deslocamento de mais de 36 mil palestinos na Cisjordânia em um ano, aliado à expansão acelerada de assentamentos israelenses, pode indicar uma política coordenada de transferência populacional nos territórios ocupados. O cenário levanta preocupações sobre possível “limpeza étnica”, segundo relatório oficial.
O documento, elaborado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), cobre o período entre novembro de 2024 e outubro de 2025 e classifica o deslocamento como “expulsão em massa de magnitude sem precedentes” na região.
Segundo o relatório, os deslocamentos na Cisjordânia ocorrem paralelamente ao deslocamento em massa na Faixa de Gaza, reforçando a avaliação de que pode haver uma estratégia mais ampla envolvendo os territórios palestinos ocupados.
Expansão de assentamentos e mudanças territoriais
O ACNUDH registra que, no período analisado, houve a aprovação ou avanço de 36.973 unidades habitacionais em Jerusalém Oriental ocupada e outras 27.200 unidades no restante da Cisjordânia.
Atualmente, mais de 500 mil israelenses vivem na Cisjordânia, além de Jerusalém Oriental, em meio a cerca de três milhões de palestinos. A ONU considera esses assentamentos ilegais com base no direito internacional.
A expansão ocorre em um contexto de tensão crescente desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza e ampliou os impactos nos territórios ocupados.
Aumento da violência e impactos sobre civis
O relatório aponta 1.732 incidentes de violência cometidos por colonos, com vítimas ou danos materiais, no período mais recente analisado. O número representa aumento em relação aos 1.400 casos registrados anteriormente.
De acordo com o ACNUDH, a violência ocorre de forma coordenada e com baixa responsabilização, afetando diretamente comunidades palestinas e contribuindo para deslocamentos forçados.
O documento também destaca que práticas como expulsões, demolições de casas e confisco de terras têm impacto direto na permanência da população palestina em determinadas áreas.
Implicações legais e apelos internacionais
A ONU afirma que a transferência forçada de população em territórios ocupados pode configurar crime de guerra e, em determinadas circunstâncias, crime contra a humanidade.
O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu que Israel interrompa imediatamente a expansão dos assentamentos, retire colonos e permita o retorno dos palestinos deslocados.
O apelo inclui ainda a suspensão de práticas como demolições, expulsões e apropriação de terras, consideradas elementos centrais para a continuidade do deslocamento populacional.
Comunidades vulneráveis e risco de novos deslocamentos
O relatório destaca que comunidades beduínas, especialmente ao nordeste de Jerusalém Oriental, enfrentam risco elevado de deslocamento devido à expansão de projetos de colonização.
Essas populações vivem em áreas estratégicas para o crescimento territorial dos assentamentos, o que aumenta a pressão por remoção e dificulta a permanência no local.
Diante da continuidade das políticas apontadas no relatório e da escalada da violência, a ONU alerta para a possibilidade de novos deslocamentos em larga escala, com impactos humanitários e legais.
*Com informações da RFI.








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