Na terça-feira, 07/07/2026, projeções de médio prazo do Fundo Monetário Internacional — reunidas em levantamento publicado pela Euronews — indicaram que Malta, Kosovo, Ucrânia, Sérvia e Moldávia deverão crescer a um ritmo superior ao dobro da média prevista para a zona do euro entre 2027 e 2031, em um cenário marcado por baixo dinamismo europeu, dívida pública elevada, envelhecimento populacional, produtividade fraca, custos energéticos persistentes e incerteza geopolítica. A zona do euro deve avançar, em média, 1,2% ao ano no período, enquanto a União Europeia deve crescer 1,4%, desempenho inferior à expansão global projetada pelo FMI.
Europa enfrenta crescimento baixo, enquanto economias menores avançam
O quadro europeu é de desaceleração estrutural. Segundo o FMI, a economia global enfrenta novo teste desde o início da guerra no Oriente Médio, com impacto sobre preços de commodities, inflação, condições financeiras e confiança dos agentes econômicos. A instituição projeta crescimento mundial de 3,1% em 2026 e 3,2% em 2027, sob a hipótese de conflito limitado em duração e alcance.
Na Europa, o problema é mais profundo. O relatório regional do FMI para abril de 2026 apontou que a zona do euro deve crescer apenas 1,1% em 2026, sob riscos elevados, em razão de novo choque energético, menor investimento, consumo enfraquecido e incerteza geopolítica. O Fundo defendeu políticas voltadas à estabilidade financeira, controle inflacionário, apoio fiscal temporário e reformas capazes de reduzir vulnerabilidades energéticas e ampliar a produtividade.
Nesse ambiente, economias menores e periféricas aparecem com desempenho relativo mais forte. A diferença, porém, não decorre de um milagre europeu generalizado, mas de fatores específicos: reconstrução de guerra, integração à União Europeia, investimentos públicos, diásporas economicamente ativas, turismo, serviços digitais e eventos internacionais. O crescimento projetado é relevante, mas expõe fragilidades institucionais e produtivas que podem limitar os ganhos de longo prazo.
Malta lidera projeções, mas modelo baseado em mão de obra chega ao limite
Malta aparece como a economia europeia de melhor desempenho projetado pelo FMI no médio prazo, com crescimento próximo de 4% ao ano entre 2027 e 2031, segundo a Euronews. A ilha consolidou, na última década, uma trajetória de expansão baseada em turismo, jogos online, serviços profissionais e financeiros, além de forte entrada de trabalhadores estrangeiros.
O próprio FMI, contudo, aponta que o modelo maltês passa por uma fase de maturação. Em consulta concluída em 04/02/2026, a instituição informou que Malta cresceu quase 7% ao ano na última década, mas advertiu que a expansão apoiada em imigração e mão de obra intensiva pressiona infraestrutura, serviços públicos e capacidade urbana.
A próxima etapa dependerá menos do aumento da força de trabalho e mais de ganhos de produtividade. O desafio central é transformar crescimento quantitativo em crescimento qualitativo, com investimento em infraestrutura, educação, inovação, gestão urbana e finanças públicas sustentáveis. Malta segue como caso de sucesso europeu, mas seu próprio desempenho revela o limite de uma estratégia baseada apenas na expansão do emprego.
Kosovo mantém dinamismo, mas depende de consumo, remessas e importações
O Kosovo deve convergir para crescimento próximo de 4% no médio prazo, apoiado por consumo das famílias, investimento público, população ativa jovem e remessas enviadas por sua diáspora, especialmente instalada em países como Alemanha e Suíça. Esse fluxo de recursos sustenta parte relevante da demanda doméstica e do investimento privado.
A avaliação do FMI sobre o Kosovo, publicada em 01/04/2026, registra desaceleração do crescimento para 3,6% em 2025, após 4,6% em 2024, e projeta convergência para potencial próximo de 4% no médio prazo, desde que haja normalização política e avanço das reformas. O Fundo também destacou que a implementação tempestiva do Plano de Crescimento da União Europeia pode impulsionar emprego e atividade econômica.
A fragilidade está na composição desse crescimento. O avanço é sustentado por demanda interna e importações, enquanto a base exportadora ainda não se apresenta suficientemente competitiva. O Kosovo cresce mais que a zona do euro, mas sua dependência de remessas, consumo e bens importados amplia riscos externos e torna decisivas as reformas para produtividade, competitividade e integração regional.
Ucrânia depende da reconstrução e de cenário menos adverso na guerra
A Ucrânia aparece entre as economias com maior crescimento projetado, com média anual de cerca de 3,8% entre 2027 e 2031 e pico em torno de 4,2% em 2028, segundo o levantamento da Euronews baseado no FMI. Essa projeção, porém, está diretamente vinculada a um cenário de reconstrução, redução da intensidade da guerra e retomada de investimento fixo.
O Banco Mundial, em avaliação divulgada em 23/02/2026, estimou que as necessidades de recuperação e reconstrução da Ucrânia somam quase US$ 588 bilhões ao longo de dez anos, montante equivalente a cerca de três vezes o PIB nominal estimado do país em 2025. Os setores de transporte, energia, habitação, comércio, indústria e agricultura aparecem entre os mais afetados.
O FMI também aprovou, em 26/02/2026, um novo acordo de US$ 8,1 bilhões no âmbito do Extended Fund Facility, parte de um pacote internacional de apoio de US$ 136,5 bilhões. Em junho de 2026, a instituição alertou que o crescimento do PIB ucraniano deve desacelerar para 1,0% a 1,6% em 2026, devido aos efeitos da guerra com a Rússia e aos reflexos da guerra no Oriente Médio. A Ucrânia, portanto, só se confirma como motor de crescimento europeu se reconstrução, financiamento externo, estabilidade macroeconômica e reformas institucionais avançarem simultaneamente.
Sérvia aposta em investimento público e na Expo 2027
A Sérvia deve crescer em média 3,52% ao ano entre 2027 e 2031, com desempenho mais forte no fim do período, segundo a Euronews. O fator imediato mais relevante é a Expo 2027 Belgrado, prevista para ocorrer entre 15/05/2027 e 15/08/2027, com tema voltado a esporte, música e convivência internacional.
O Bureau International des Expositions informa que a Expo 2027 deverá receber mais de 4 milhões de visitantes, reunir mais de 130 países participantes e ocupar uma área de 25 hectares. O complexo integrará uma transformação urbana mais ampla em Belgrado, com infraestrutura de transporte, equipamentos esportivos, áreas de exposição e serviços turísticos.
Em 06/05/2026, o FMI informou que a Sérvia deverá crescer cerca de 2,75% em 2026 e 4% em 2027, impulsionada por gastos associados à Expo, novas capacidades exportadoras na indústria, recuperação agrícola e investimentos em infraestrutura e energia. O Fundo, entretanto, alertou para inflação temporariamente mais alta, necessidade de cautela monetária e exigência de análise transparente de custo-benefício em projetos públicos.
Moldávia combina integração europeia, reformas e risco político
A Moldávia deve crescer em média 3,5% ao ano entre 2027 e 2031, conforme o levantamento da Euronews. O desempenho projetado reflete recuperação após choques severos: guerra na fronteira com a Ucrânia, crise energética, seca e baixa expansão econômica em 2024.
A integração europeia é o eixo central dessa trajetória. A Moldávia recebeu status de candidata à União Europeia em junho de 2022, abriu negociações formais de adesão em junho de 2024 e, em 15/06/2026, iniciou negociações sobre o bloco temático de fundamentos, que abrange Estado de Direito, direitos fundamentais, funcionamento das instituições democráticas, reforma da administração pública e economia de mercado.
A Comissão Europeia prevê até € 1,9 bilhão para o Plano de Crescimento da Moldávia entre 2025 e 2027, condicionado ao cumprimento de reformas. Em 17/03/2026, Bruxelas anunciou pagamento regular de € 189 milhões após avaliar o cumprimento de 24 indicadores de reforma, incluindo digitalização do governo, segurança energética, transparência orçamentária, recuperação de ativos, combate a fraudes e fortalecimento judicial.
A atualização econômica, porém, impõe cautela. Em fevereiro de 2026, o FMI projetava crescimento de 2,7% em 2025 e 2,3% em 2026, apoiado por boa colheita, demanda doméstica e financiamento europeu. Em maio, diante de novo choque energético associado à guerra no Oriente Médio e ao conflito na Ucrânia, a previsão para 2026 caiu para 1,5%, com inflação média estimada em 8,1%.
O cenário político também exige acompanhamento. Em 03/07/2026, o primeiro-ministro moldavo Alexandru Munteanu renunciou, provocando a saída do governo, embora tenha permanecido interinamente até a nomeação de sucessor. A presidente Maia Sandu afirmou que o caminho de reformas e adesão à União Europeia permanece inalterado, enquanto a UE reiterou apoio ao país.
Crescimento mais forte não elimina fragilidades estruturais
As cinco economias projetadas para crescer mais que o dobro da zona do euro compartilham uma característica: todas partem de bases menores, com amplo espaço para convergência, recuperação ou expansão setorial. Isso ajuda a explicar por que percentuais mais elevados não significam, necessariamente, maior peso econômico absoluto em comparação com Alemanha, França, Itália ou Espanha.
Também há diferenças profundas entre os casos. Malta é uma economia de serviços madura que busca produtividade; Kosovo depende de remessas e consumo; Ucrânia depende da reconstrução e da duração da guerra; Sérvia aposta em infraestrutura, indústria e Expo 2027; Moldávia vincula seu crescimento à integração europeia e às reformas institucionais.
O ponto relevante é que o crescimento europeu se desloca parcialmente para periferias econômicas, regiões em reconstrução e países em processo de integração institucional. Esse movimento revela tanto oportunidades quanto riscos: a Europa precisa de novos polos de dinamismo, mas não poderá sustentá-los sem produtividade, segurança energética, estabilidade política, governança pública e integração econômica efetiva.








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