Quem foi Miraldo Gomes: médico, escritor e deputado constituinte que marcou a história de Feira de Santana

Neste domingo, 06/09/2026, o jornalista e cientista social Carlos Augusto, editor Jornal Grande Bahia, apresenta uma reconstituição aprofundada da trajetória de João Miraldo dos Santos Gomes, médico nascido em Santo Estêvão e radicado desde a adolescência em Feira de Santana, onde se consolidou como uma das personalidades de destaque nas áreas da saúde, da política e da cultura. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, com pós-graduação em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade do Chile, Miraldo Gomes participou da fundação da Clínica Amor, atual Hospital São Mateus, criou em 1979 a Maternidade Stela Gomes, exerceu a Secretaria Municipal de Saúde, integrou a Academia Feirense de Letras e representou a Bahia na Câmara dos Deputados durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988.

A reportagem biográfica foi elaborada a partir de estudos biográficos revisados pelo professor doutor João Batista de Cerqueira e pelo médico Jorge Luiz dos Santos Gomes, de pesquisas do jornalista Zadir Marques Porto, de documentos da Câmara dos Deputados e de registros preservados em arquivos públicos, reunindo informações sobre a formação, a atuação parlamentar, a produção literária e o legado institucional deixado pelo médico, escritor e político na história de Feira de Santana.

Da infância em Santo Estêvão à formação médica

João Miraldo dos Santos Gomes nasceu em 11 de março de 1944, em Santo Estêvão, município localizado na região de Feira de Santana. Era filho de Antônio Pascácio Gomes e Stela dos Santos Gomes, cujo nome seria posteriormente adotado na maternidade criada pelo médico. Ainda adolescente, aos 13 anos, transferiu-se para Feira de Santana, cidade à qual permaneceria vinculado pelo restante da vida.

Em Feira, cursou o antigo ginásio e o científico no Colégio Estadual de Feira de Santana. Em 1965, ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, graduando-se em 1970. Posteriormente, realizou pós-graduação em Medicina na Universidade do Chile, em Santiago, concluída em 1975, conforme os registros biográficos mantidos pela Câmara dos Deputados.

Após a graduação, Miraldo Gomes começou a trabalhar em Santaluz, no território do sisal, onde exerceu a medicina antes de retornar definitivamente a Feira de Santana, em 1976. Especializou-se principalmente em Ginecologia, Obstetrícia e Ultrassonografia, consolidando-se como um dos profissionais mais conhecidos da área na cidade.

Participação no Hospital São Mateus e criação da Maternidade Stela Gomes

De volta a Feira de Santana, Miraldo Gomes participou da implantação da Clínica Amor, unidade posteriormente denominada Hospital São Mateus, situada na Avenida Getúlio Vargas. A iniciativa marcou sua entrada em projetos empresariais voltados à ampliação da rede privada de saúde do município.

O principal projeto profissional do médico, contudo, foi a criação de uma maternidade capaz de atender pacientes de Feira de Santana e de municípios da região. A unidade foi inaugurada em 1979, na Rua Juracy Magalhães, recebendo o nome de Maternidade Stela Gomes como homenagem à sua mãe. A Câmara dos Deputados registra que Miraldo exerceu a direção da instituição entre 1979 e 1986.

A maternidade ampliou a atuação de Miraldo Gomes para além do consultório, tornando-o médico, dirigente hospitalar e empresário do setor de saúde. A instituição permaneceu associada ao seu nome até sua morte e foi apontada por familiares, pacientes e autoridades locais como parte relevante de sua contribuição à assistência materno-infantil na região.

Eleição de 1986 e chegada à Assembleia Nacional Constituinte

A entrada de Miraldo Gomes na política ocorreu durante as eleições gerais de 1986, convocadas para a renovação do Congresso que também elaboraria a nova Constituição brasileira. Ele disputou uma cadeira de deputado federal pelo PMDB, partido que naquele momento reunia parte expressiva das forças responsáveis pela transição democrática.

Embora não tenha conquistado inicialmente uma das vagas de titular, obteve votação que lhe garantiu a suplência da bancada baiana. Portanto, diferentemente do que afirma o relato memorialístico original, Miraldo não foi eleito deputado federal em 1988. Ele concorreu em 1986 e chegou à Câmara posteriormente, como suplente convocado.

Os registros detalhados da Câmara informam que Miraldo Gomes assumiu o mandato em 27 de outubro de 1987, ocupando temporariamente a vaga de Luiz Humberto Prisco Viana, que se licenciou após ser nomeado ministro da Habitação, Urbanismo e Meio Ambiente do governo José Sarney. Prisco Viana comandou a pasta entre 23 de outubro de 1987 e 5 de setembro de 1988.

Miraldo Gomes na Constituição de 1988

Ao assumir a vaga, Miraldo Gomes passou a participar dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro daquele ano para elaborar a Constituição destinada a reorganizar as instituições brasileiras após o regime militar. A Câmara o classifica como deputado federal constituinte e membro suplente da Assembleia, condição decorrente de sua convocação após o início da legislatura.

Seu nome consta entre os integrantes da Constituinte e entre os parlamentares associados à promulgação da Constituição de 5 de outubro de 1988. O texto constitucional ampliou direitos civis, sociais e trabalhistas, fortaleceu as instituições democráticas e estabeleceu as bases do Sistema Único de Saúde.

Nos debates sobre o sistema de governo, Miraldo Gomes defendeu a manutenção do presidencialismo. Registros do Arquivo Histórico da Câmara reproduzem sua posição de que esse modelo deveria prevalecer, em contraposição às propostas parlamentaristas debatidas durante a Constituinte.

Fontes biográficas registram ainda que o parlamentar se posicionou a favor de maior proteção aos trabalhadores dispensados sem justa causa, apoiou a participação de capital estrangeiro na economia brasileira e defendeu medidas diplomáticas contra países que mantivessem regimes oficiais de discriminação racial.

Em fevereiro de 1988, na condição de médico e constituinte, pronunciou-se contra uma emenda relacionada à regulamentação do aborto. O discurso foi realizado no plenário da Assembleia durante debate conduzido pelo deputado José Genoíno.

A respeito da duração do mandato do então presidente José Sarney, registros biográficos atribuem a Miraldo Gomes posição contrária à proposta de cinco anos. Documentos contemporâneos indicam, porém, que sua posição evoluiu ao longo das discussões: em declaração publicada no início de 1988, afirmou ter chegado ao Congresso inicialmente disposto a apoiar os cinco anos, antes da votação definitiva.

Mudança para o PDC e efetivação no mandato

Miraldo Gomes deixou o PMDB em 1988 e filiou-se ao Partido Democrata Cristão, o PDC. Ainda naquele ano, disputou a Prefeitura de Feira de Santana pela nova legenda, terminando a eleição na terceira colocação, segundo registros da imprensa local.

Após a promulgação da Constituição, ele permaneceu na Câmara. Em 1º de janeiro de 1989, deixou a condição de suplente convocado e foi efetivado como deputado federal na vaga aberta pela renúncia de Fernando Gomes, também representante da Bahia.

A distinção entre convocação e efetivação é essencial para a compreensão de sua trajetória. Miraldo participou da fase final da Constituinte como suplente em exercício, mas passou a ocupar definitivamente uma cadeira da bancada baiana somente no início de 1989.

Atuação nas comissões e projetos apresentados

Em março de 1989, o PDC indicou Miraldo Gomes como titular da Comissão de Saúde, Previdência e Assistência Social e da Comissão de Defesa do Consumidor e do Meio Ambiente. Também foi designado suplente da Comissão de Finanças, posições relacionadas à sua formação médica e à atuação empresarial.

Os registros legislativos disponíveis mostram que ele apresentou projetos em diferentes áreas. Uma das propostas, o Projeto de Lei nº 1.421, de 1988, previa a utilização da imagem do poeta baiano Castro Alves em uma cédula de cem mil cruzados. A matéria acabou arquivada após mudanças no padrão monetário brasileiro.

Em 1989, apresentou proposta destinada a reservar parte dos recursos das loterias exploradas pela União para programas de prevenção e combate ao câncer. A medida refletia sua vinculação profissional à saúde e sua interlocução com hospitais e entidades assistenciais.

Já o Projeto de Lei nº 4.849, de 1990 propunha aposentadoria especial para contadores e técnicos em contabilidade. Miraldo também atuou como relator de proposições na Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, incluindo matéria sobre a identificação de corantes, conservantes e outros componentes nas embalagens de produtos.

A coluna de Zadir Marques Porto atribui ao parlamentar a apresentação de emendas e iniciativas destinadas ao Hospital Aristides Maltez, em Salvador, e a unidades de saúde de Feira de Santana e região.

Miraldo Gomes encerrou o mandato em janeiro de 1991 e não disputou a reeleição para a Câmara. Retornou à medicina e às atividades administrativas da maternidade que havia criado, preservando uma presença pública ligada principalmente à saúde de Feira de Santana.

Secretaria de Saúde e retorno à administração municipal

Em 1996, Miraldo apoiou a candidatura de José Falcão da Silva à Prefeitura de Feira de Santana. Após a vitória do político, foi nomeado secretário municipal de Saúde, função exercida em 1997.

José Falcão, que iniciara seu terceiro mandato como prefeito em janeiro daquele ano, enfrentou graves problemas de saúde e morreu em 6 de julho de 1997, sendo sucedido pelo vice-prefeito Claylton Costa Mascarenhas. Os registros consultados confirmam a passagem de Miraldo Gomes pela Secretaria de Saúde em 1997, mas não detalham com precisão a duração de sua permanência no cargo.

Sua atuação na gestão municipal representou uma extensão do trabalho iniciado na medicina privada. A experiência acumulada na assistência hospitalar, na direção da maternidade e na Comissão de Saúde da Câmara passou a ser aplicada, ainda que por período limitado, à administração do sistema municipal.

Escritor, poeta e membro da Academia Feirense de Letras

A trajetória de Miraldo Gomes não se restringiu à medicina e à política. Leitor, escritor e poeta, ingressou na Academia Feirense de Letras, onde ocupou a Cadeira nº 14 e participou das atividades culturais da instituição. A Câmara dos Deputados registra formalmente sua condição de membro efetivo da Academia.

Entre os trabalhos atribuídos ao médico está o livro “Abominável Execução de um Inocente”, obra também mencionada pela coluna Feira em História. Textos de sua autoria foram publicados em revistas da Academia, demonstrando uma produção voltada à reflexão humanística e literária.

Essa atuação cultural reforçou uma característica recorrente em sua biografia: a circulação entre diferentes campos da vida pública. Miraldo reuniu, em uma mesma trajetória, o exercício da medicina, a administração hospitalar, a política parlamentar, a gestão municipal e a produção literária.

Vida familiar, morte e homenagens

Miraldo Gomes era casado com a professora Diana Lúcia Nogueira Falcão Gomes, com quem teve quatro filhos. Permaneceu profissionalmente ativo em Feira de Santana até dezembro de 2013, quando a maternidade fundada por ele havia ampliado suas instalações.

No dia 21 de dezembro de 2013, sofreu um infarto do miocárdio. Chegou a ser socorrido e encaminhado ao Hospital Emec, mas não resistiu. Morreu aos 69 anos, tendo o corpo velado na Câmara Municipal de Feira de Santana antes do sepultamento no Cemitério da Piedade.

Em 2023, a Câmara Municipal aprovou a denominação de uma rua do bairro Campo do Gado Novo como Rua Doutor João Miraldo dos Santos Gomes. Seu nome também identifica o Complexo Viário Dr. Miraldo Gomes, importante estrutura de mobilidade situada na região da Cidade Nova.

Miraldo Gomes uniu medicina e atividade política

A trajetória de Miraldo Gomes está inserida em um período de expansão da medicina privada em Feira de Santana, de reorganização da política brasileira e de reconstrução democrática após duas décadas de regime militar. Sua presença na Assembleia Nacional Constituinte, embora decorrente da convocação de um suplente, deu a Feira de Santana representação direta em um dos processos institucionais mais importantes da história republicana brasileira.

Miraldo Gomes morreu aos 69 anos, depois de construir uma trajetória marcada pela criação da Maternidade Stela Gomes, pela participação na Constituinte de 1987-1988, pela atuação em comissões legislativas relacionadas à saúde e aos direitos do consumidor, pela passagem pela Secretaria Municipal de Saúde e pela produção literária.


Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Avatar de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

Valorize o jornalismo crítico, plural, rigoroso e comprometido com a verdade factual, a democracia, o Estado de Direito e o interesse público. Escolha o Jornal Grande Bahia (JGB) como fonte preferida no Google: clique aqui.

Sua confiança também fortalece nosso trabalho: avalie o JGB

Selecione o JGB e receba nossas notícias com mais destaque.


Deixe um comentário


Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.