Saques em bancos russos aumentam em meio a temor de confisco e custos da guerra na Ucrânia

A população russa retirou 286,4 bilhões de rublos, equivalentes a cerca de R$ 17,6 bilhões, dos bancos na primeira quinzena de agosto, segundo dados do Banco Central da Rússia citados pelo The Washington Post. O movimento ocorre em meio ao temor de parte dos correntistas de que o governo de Vladimir Putin possa adotar medidas para utilizar depósitos privados no financiamento da guerra contra a Ucrânia.

Em julho, os saques já haviam alcançado 643 bilhões de rublos. Desde o início de 2026, aproximadamente 2,4 trilhões de rublos, ou R$ 147,5 bilhões, foram convertidos de depósitos bancários em dinheiro em espécie, conforme os dados apresentados.

O movimento também atingiu grandes instituições financeiras russas. O Alfa-Bank, maior banco privado do país, registrou redução de 179,4 bilhões de rublos nos depósitos de clientes de varejo, equivalente a 5,6% do total. No Sovcombank, terceiro maior banco privado, a queda chegou a 81,7 bilhões de rublos, ou 8,1% dos depósitos.

Saques se aproximam de níveis registrados no início da invasão

Segundo Taras Skvortsov, executivo do Sberbank, maior banco estatal da Rússia, o volume de retiradas em 2026 poderá se aproximar do registrado no primeiro ano da invasão russa em larga escala da Ucrânia. Em 2022, os russos retiraram cerca de 2 trilhões de rublos dos bancos em meio a outra onda de preocupação com possíveis confiscos.

O aumento das retiradas ocorre enquanto a guerra iniciada em 24/02/2022 continua pressionando as contas públicas russas. Além das despesas militares, Moscou enfrenta efeitos decorrentes das sanções internacionais, da necessidade de financiar operações de defesa e da redução de determinadas receitas provenientes da atividade energética.

O governo russo anunciou medidas de aumento de impostos e avalia ajustes nas despesas públicas para ampliar os recursos destinados ao setor militar. Segundo o texto-base, os gastos federais com a guerra e outras despesas militares chegaram a aproximadamente 16 trilhões de rublos em 2025, o equivalente a 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Guerra aumenta pressão sobre orçamento russo

A dimensão dos gastos militares ocorre em paralelo à deterioração das contas públicas. Dados citados do Instituto Internacional de Estudos de Paz de Estocolmo indicam que o déficit orçamentário russo chegou a 2,6% do PIB ao final de 2025.

O governo também adotou uma política monetária restritiva para conter a inflação. A estratégia incluiu medidas destinadas a reduzir a pressão sobre os preços e controlar as condições de crédito, mas não eliminou os efeitos fiscais provocados pela continuidade do conflito.

O cenário financeiro é agravado pela necessidade de sustentar despesas militares em um período prolongado. A combinação entre gastos elevados, menor crescimento econômico, pressão sobre as receitas públicas e redução das reservas tornou a capacidade de financiamento da guerra uma questão central para a economia russa.

Reservas do fundo soberano diminuíram

Um estudo divulgado em junho apontou que a Rússia teria consumido grande parte de suas reservas financeiras desde o início da guerra. De acordo com a análise citada no texto, os ativos líquidos do fundo soberano russo caíram de 6,5% do PIB no início do conflito para 1,8% em abril.

Moritz Schularick, presidente do Instituto Kiel para a Economia Mundial (IfW), afirmou que a economia russa apresentou maior capacidade de resistência do que inicialmente estimada durante os primeiros anos da guerra, mas que a situação das reservas mudou.

A avaliação também aponta desaceleração do crescimento econômico e maior dependência da China. As receitas russas provenientes de petróleo e gás teriam recuado 45% no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Ataques de drones ampliam impacto econômico

A pressão sobre a economia russa também ocorre por meio da intensificação dos ataques ucranianos com drones e mísseis de longo alcance. Segundo dados da organização independente Acled citados no texto, as forças ucranianas realizaram três vezes mais ataques desse tipo em julho do que em janeiro.

Os alvos incluem instalações militares, estruturas relacionadas ao setor energético e centros de armazenamento. Entre os locais atingidos estão grandes depósitos da Wildberries, uma das principais empresas de comércio eletrônico da Rússia, provocando perdas financeiras relacionadas às mercadorias armazenadas.

A estratégia ucraniana busca atingir estruturas que contribuem para a economia russa e para o financiamento das operações militares. Ao mesmo tempo, a expansão dos ataques para áreas mais distantes da linha de frente aumenta a necessidade de Moscou reforçar seus sistemas de defesa aérea.

Rússia ameaça Reino Unido por apoio militar a Kiev

O cenário militar também provocou uma nova troca de acusações entre Moscou e Londres. A Rússia ameaçou o Reino Unido com “consequências” após relatos de que forças ucranianas teriam utilizado drones produzidos por empresas britânicas em ataques contra alvos em território russo.

A embaixada russa no Reino Unido afirmou que os relatos indicariam uma decisão deliberada de Londres de ampliar seu envolvimento no conflito. O governo russo também acusou o Reino Unido de utilizar terceiros para atingir interesses russos.

O governo britânico, por sua vez, reafirmou o apoio à Ucrânia. Segundo a declaração reproduzida no texto, o primeiro-ministro Andy Burnham afirmou que o Reino Unido continuará apoiando Kiev e fornecendo equipamentos para que o país se defenda da invasão russa.

Ucrânia amplia ataques de longo alcance

Os ataques ucranianos contra o território russo aumentaram ao longo de 2026, com emprego de drones de grande porte e mísseis de cruzeiro. A estratégia procura atingir instalações relacionadas à produção militar, infraestrutura energética e estruturas logísticas.

A Ucrânia, segundo a análise apresentada, ampliou sua capacidade de realizar ataques dentro do território russo, embora não disponha do mesmo conjunto de mísseis balísticos de alta velocidade empregado pelas forças russas.

A expansão das operações também aumenta a pressão sobre as defesas aéreas dos dois países. O resultado é uma intensificação dos esforços para proteger cidades, instalações militares, infraestrutura energética e outros alvos considerados estratégicos.

Países bálticos reforçam preparação diante da guerra

Os efeitos da guerra também ultrapassam as fronteiras dos países diretamente envolvidos. Estônia, Letônia e Lituânia, integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ampliaram investimentos em defesa e preparação da população diante da proximidade geográfica com a Rússia.

A Estônia prevê destinar 5,4% do PIB à defesa em 2026, enquanto a Letônia deve aplicar aproximadamente 4,7%. A Lituânia também ultrapassou a marca de 5% do PIB destinada à defesa, segundo os dados apresentados.

A preparação está relacionada à experiência histórica dos três países, que recuperaram a independência em 1991, após décadas de integração à União Soviética, e ingressaram na Otan em 2004. A invasão russa da Ucrânia reforçou preocupações relacionadas à segurança regional.

Preparação civil ganha espaço nos países bálticos

Na Lituânia, a preparação inclui a ampliação de abrigos e sistemas de alerta. O país possui 6.618 abrigos, com capacidade estimada para aproximadamente 1,6 milhão de pessoas, ou 58% da população. O governo também investe mais de 30 milhões de euros na modernização dessas estruturas.

O país prevê ainda a instalação de 275 novas sirenes e a integração de outras 600 a um sistema centralizado de alertas. As medidas fazem parte de uma política de preparação para diferentes cenários de emergência.

Na Letônia, a Defesa Nacional tornou-se disciplina obrigatória no ensino médio e profissionalizante desde 2024, enquanto o serviço militar obrigatório foi restabelecido. O país também utiliza um sistema de alertas direcionados aos celulares e orienta a população a manter condições de autonomia durante as primeiras 72 horas de uma eventual emergência.

Estônia mantém sistema nacional de alertas

A Estônia utiliza o sistema EE-ALARM, que combina sirenes, aplicativos, mensagens SMS e comunicados pelos canais da emissora pública. O país realiza testes nacionais do sistema três ou quatro vezes por ano.

Em junho de 2026, durante o exercício ILVES 2026, aproximadamente 130 órgãos públicos, empresas e organizações civis participaram de treinamentos relacionados a situações de crise. O exercício também envolveu 111 abrigos públicos.

A preparação civil, segundo especialistas citados no texto, não significa necessariamente que os governos bálticos considerem iminente uma guerra em seus territórios. A estratégia busca aumentar a capacidade de resposta da população e reduzir os efeitos de uma eventual crise.

Brasileiros relatam rotina normal nos países bálticos

Apesar da proximidade com a Rússia e da ampliação das medidas de segurança, brasileiros que vivem nos países bálticos relatam diferentes percepções sobre o risco. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, aproximadamente 1,2 mil brasileiros vivem atualmente na Estônia, Letônia e Lituânia.

A maior comunidade está na Estônia, com cerca de 900 brasileiros, seguida pela Letônia, com aproximadamente 200, e pela Lituânia, com 153. Os relatos indicam que a preparação para emergências integra a rotina dos países, mas não necessariamente modifica as atividades cotidianas.

Camila Conti, que vive na Estônia há cerca de dois anos, relatou participar da rotina local e acompanhar os treinamentos de emergência. Outros brasileiros entrevistados também afirmaram que a vida cotidiana permanece sem alterações significativas, embora reconheçam a existência de protocolos para situações de crise.

Preparação não significa expectativa de guerra imediata

O professor de relações internacionais Günther Richter Mros, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), avalia que a invasão da Ucrânia reforçou nos países bálticos uma percepção histórica de vulnerabilidade diante da Rússia.

Segundo a análise apresentada, a preparação militar e civil funciona também como mecanismo de dissuasão. Quanto maior a capacidade de resposta de uma sociedade, menor tende a ser a possibilidade de uma crise provocar desorganização imediata, segundo o especialista citado.

A presença de sirenes, abrigos, treinamentos e estoques de emergência, portanto, está relacionada à preparação institucional para diferentes cenários, e não constitui, por si só, indicação de que os governos da região esperem uma invasão iminente.

Guerra pressiona economia russa e modifica segurança europeia

O aumento dos saques bancários na Rússia ocorre dentro de um cenário mais amplo de pressão fiscal, redução das reservas, desaceleração econômica, queda das receitas de petróleo e gás e aumento das despesas militares.

Ao mesmo tempo, a intensificação dos ataques ucranianos com drones amplia os efeitos da guerra sobre o território russo e exige maior mobilização de recursos para defesa aérea e proteção de infraestrutura.

Fora da Rússia e da Ucrânia, os países bálticos ampliam investimentos militares e mecanismos de proteção civil, enquanto comunidades estrangeiras convivem com novos protocolos de segurança. O conjunto dos dados mostra que os efeitos do conflito ultrapassam as linhas de frente e alcançam as finanças públicas, o sistema bancário, a infraestrutura e as políticas de segurança de países vizinhos.


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