OCDE reduz ajuda internacional em 23,1% enquanto países do Sul Global buscam alternativas

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) registrou, em 2025, uma redução de 23,1% nos recursos destinados ao Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), responsável por financiar programas de ajuda humanitária e iniciativas relacionadas à vacinação, infraestrutura, proteção de refugiados e adaptação climática. O volume caiu de US$ 215,1 bilhões para US$ 174,3 bilhões.

A maior parte da retração foi concentrada entre os principais países doadores da organização. Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Japão responderam por mais de 95% da redução, enquanto os Estados Unidos diminuíram individualmente quase 60% de sua contribuição para o comitê.

O movimento ocorre em um contexto de mudança na distribuição do poder econômico internacional, com o crescimento de países emergentes e a ampliação da atuação de instituições e agrupamentos do Sul Global. Especialistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que a redução da assistência também pode estimular países em desenvolvimento a buscar fontes alternativas de financiamento.

OCDE reúne 38 países e mantém influência econômica internacional

Criada em 1961, com sede em Paris, a OCDE surgiu durante a Guerra Fria como um fórum destinado à cooperação econômica, ao desenvolvimento social e à formulação de políticas públicas. Ao longo das décadas, a organização passou a exercer influência sobre políticas econômicas e regulatórias de seus integrantes e ficou associada, por críticos, à defesa de políticas de orientação neoliberal.

Atualmente, a entidade reúne 38 países, entre eles Colômbia, México e Chile. Entre os grandes países emergentes, Brasil, China, Índia e Rússia não integram a organização. O Brasil chegou a acelerar o processo de adesão durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas a iniciativa foi posteriormente paralisada pela administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A entrada na OCDE envolve a adequação de legislações e políticas nacionais a um conjunto de requisitos. Segundo o texto analisado, o processo pode envolver até 268 normas, incluindo regras relacionadas a investimentos estrangeiros e à atuação de empresas internacionais.

Comitê de Assistência concentra parte da cooperação internacional

O Comitê de Assistência ao Desenvolvimento é uma das estruturas da OCDE voltadas à cooperação internacional. Seus recursos são direcionados a programas que incluem ajuda humanitária, vacinação, infraestrutura, proteção de refugiados e adaptação às mudanças climáticas.

A redução registrada em 2025 foi a maior desde a criação do comitê, de acordo com os dados apresentados no levantamento. Na África Subsaariana, uma das regiões beneficiadas pela assistência, a queda chegou a 26,3% no período.

Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Gustavo Pessoa, a redução dos recursos está relacionada a uma transformação mais ampla da economia mundial. Segundo ele, há uma transferência gradual de influência econômica do Ocidente para países do Oriente, com reflexos sobre as organizações multilaterais.

Especialista aponta condicionantes na ajuda aos países

Pessoa também questiona a forma como a assistência internacional foi historicamente utilizada por Estados Unidos e países europeus. Na avaliação apresentada pelo economista, parte dos recursos destinados a países em desenvolvimento esteve vinculada a condições políticas, econômicas, culturais ou relacionadas à contratação de fornecedores.

Segundo o especialista, pelo menos metade das doações teria historicamente algum tipo de exigência sobre a utilização dos recursos ou sobre a origem dos produtos e serviços adquiridos. Para ele, esse mecanismo poderia limitar a autonomia econômica dos países beneficiários e favorecer empresas dos próprios países doadores.

O economista também chama atenção para modalidades de financiamento realizadas por meio de empréstimos com juros subsidiados. Na avaliação apresentada, a acumulação dessas dívidas pode dificultar a criação de capacidade produtiva própria e manter determinados países dependentes de recursos externos.

Dependência financeira é relacionada à migração

Na análise de Pessoa, a dificuldade de criar empregos e ampliar o desenvolvimento econômico em países beneficiários de assistência internacional contribuiu, em determinadas regiões, para problemas sociais que também se refletem nos fluxos migratórios.

O professor relaciona esse cenário especialmente a países africanos que enfrentam dificuldades para desenvolver estruturas produtivas capazes de gerar emprego e renda. A avaliação, contudo, integra a interpretação do especialista sobre as relações entre assistência internacional, desenvolvimento e migração.

A redução da ajuda da OCDE ocorre paralelamente à ampliação da presença de China, Rússia, Índia e outros países emergentes em regiões historicamente dependentes dos recursos provenientes dos países ocidentais.

China e BRICS aparecem como alternativas de financiamento

Com a retração dos recursos administrados pelo sistema tradicional de cooperação internacional, o professor da FGV avalia que existe espaço para o fortalecimento de novos mecanismos de financiamento, especialmente aqueles associados à China e ao BRICS.

A China já ampliou sua participação em projetos de infraestrutura em diferentes países africanos e, segundo Pessoa, também vem aumentando gradualmente sua presença econômica na América Latina. O movimento representa uma alternativa aos modelos tradicionais de financiamento vinculados aos países integrantes da OCDE.

O especialista também considera que a própria OCDE procura ampliar sua base de influência. Argentina, Indonésia e Tailândia estão em processo de adesão, aproximando economias emergentes da estrutura da organização.

OCDE busca ampliar interlocução com países emergentes

Na avaliação de Pessoa, a aproximação com novos integrantes ocorre em um momento em que a OCDE enfrenta uma transformação no cenário econômico internacional. O crescimento de blocos e instituições alternativas amplia a competição por influência política e econômica.

Entre esses agrupamentos está o BRICS, que reúne uma parcela significativa da população mundial e possui mercados consumidores relevantes. Embora os países integrantes ainda apresentem, em conjunto, renda inferior à dos membros da OCDE, o grupo possui capacidade de consumo e demanda por bens, serviços e tecnologia.

A expansão dessas relações pode alterar a dinâmica da cooperação internacional. Países que tradicionalmente dependiam de recursos provenientes das economias desenvolvidas passam a contar com outras possibilidades de investimento, crédito e financiamento de infraestrutura.

Sul Global busca reduzir dependência dos países desenvolvidos

O professor de relações internacionais do IBMEC Brasília Ricardo Caichiolo avalia que a redução dos repasses ocorre simultaneamente a um movimento do Sul Global para diminuir sua dependência dos países desenvolvidos.

Segundo o especialista, a concentração de recursos em decisões orçamentárias e políticas tomadas por governos como os dos Estados Unidos, França e Reino Unido cria vulnerabilidades para países dependentes da assistência externa. Nesse cenário, governos podem buscar alternativas por meio de investimentos internos, estímulo à produção local e novos parceiros internacionais.

Caichiolo também observa que a retração dos grandes doadores não significa o desaparecimento da influência da OCDE. Para ele, a organização continua relevante por reunir países que historicamente participaram da definição dos principais parâmetros econômicos internacionais.

Mudança no sistema internacional não elimina influência da OCDE

A redução dos recursos destinados ao Comitê de Assistência ao Desenvolvimento representa uma mudança relevante na estrutura da cooperação internacional, mas os dados não indicam, isoladamente, o fim da influência da OCDE.

A organização continua participando da formulação de políticas econômicas, padrões regulatórios e análises sobre desenvolvimento, além de manter entre seus integrantes algumas das principais economias desenvolvidas do mundo.

Ao mesmo tempo, a retração da ajuda internacional e o crescimento de alternativas de financiamento indicam uma reconfiguração das relações entre países desenvolvidos e emergentes. A ampliação da presença chinesa, o fortalecimento do BRICS e a busca por maior autonomia econômica no Sul Global fazem parte desse processo.

Redução da ajuda expõe transformação do multilateralismo

Os dados de 2025 mostram que os recursos destinados ao Comitê de Assistência ao Desenvolvimento caíram 23,1%, de US$ 215,1 bilhões para US$ 174,3 bilhões. A maior parcela da redução veio dos cinco principais doadores, com os Estados Unidos respondendo individualmente por quase 60% de sua própria contribuição.

Para os especialistas citados, o cenário combina redução da capacidade de financiamento dos países tradicionalmente doadores e busca de maior autonomia por parte do Sul Global. A mudança abre espaço para novos atores, especialmente a China e estruturas como o BRICS.

A OCDE, entretanto, permanece como uma instituição de influência nas discussões econômicas internacionais. O cenário descrito pelos especialistas aponta menos para o desaparecimento da organização e mais para uma disputa crescente por influência, financiamento e definição das regras do sistema econômico global.

*Com informações da Sputnik News.


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