A intensificação dos bombardeios russos contra áreas civis e infraestruturas estratégicas da Ucrânia tem tornado mais arriscada a retirada de moradores de regiões próximas à linha de frente. Em Khotimlia, no leste do país, equipes de resgate enfrentam ataques de drones e mísseis durante missões de evacuação. Ao mesmo tempo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, busca ampliar o apoio internacional e defende, na Assembleia Geral da ONU, novas sanções contra Moscou e medidas para conter a ofensiva.
A RFI acompanhou uma operação do Centro de Coordenação dos Socorros de Kharkiv, que retirou civis de uma localidade situada a aproximadamente 25 quilômetros da fronteira russa e 20 quilômetros da linha de frente. A missão envolveu uma mulher idosa, sua filha e uma mãe com dois filhos pequenos.
Os deslocamentos ocorrem em meio à continuidade dos ataques russos contra cidades, ferrovias, instalações de abastecimento e estruturas de transporte. Na quarta-feira (23/09/2026), autoridades ucranianas relataram ao menos sete mortes em diferentes regiões, incluindo vítimas em Kiev, Odessa e Donetsk.
Evacuação em Khotimlia expõe riscos enfrentados por civis
Os dois veículos blindados utilizados pelo Centro de Coordenação dos Socorros de Kharkiv seguiram em direção a Khotimlia, vilarejo que foi ocupado por tropas russas nos primeiros dias da invasão, em fevereiro de 2022, e posteriormente retomado pelas forças ucranianas após uma contraofensiva.
Segundo Leonid Mazur, coordenador da equipe de resgate, a região voltou a sofrer ataques frequentes nos últimos meses. Projéteis de longo alcance e drones atingem a localidade de forma recorrente, dificultando a permanência dos moradores e aumentando a complexidade das operações de retirada.
A missão inicialmente previa a evacuação de uma mulher e de seus dois filhos, identificados como as últimas crianças que permaneciam no vilarejo. Antes disso, a equipe deveria buscar outra moradora, em uma operação planejada sob risco de novos ataques aéreos.
Sistemas de detecção de drones acompanham deslocamentos
Durante o trajeto, os socorristas utilizaram equipamentos capazes de detectar a aproximação de drones e indicar a direção de deslocamento dos aparelhos.
Yevhenii, integrante da equipe, explicou que os dispositivos funcionam como instrumentos de alerta durante as missões. Segundo ele, os operadores não dependem de um único equipamento, pois os grupos adversários alteram constantemente as frequências utilizadas pelos drones.
A tecnologia é empregada para ampliar o tempo de reação dos motoristas e socorristas, mas não elimina os riscos associados à circulação em áreas expostas a ataques aéreos.
Moradores deixam casas destruídas e enfrentam incerteza
No primeiro ponto de encontro, a equipe encontrou duas mulheres: uma idosa e sua filha, Olena. A família relatou que quatro mísseis haviam atingido recentemente o vilarejo, destruindo completamente a residência onde viviam.
“Não tenho mais para onde ir”, afirmou Olena, ao descrever as condições deixadas pelos ataques. Segundo seu relato, a casa perdeu praticamente toda a estrutura, restando apenas parte das paredes.
A situação levou a equipe a adaptar o planejamento da missão. Conforme explicou Yevhenii, é comum que os socorristas encontrem mais pessoas do que o previsto nos pontos de retirada, exigindo reorganização do espaço nos veículos ou acionamento de reforços.
Mãe deixa a região para proteger os filhos
Na segunda parada, a equipe encontrou Liliia e seus dois filhos pequenos, que aguardavam com poucos pertences reunidos em sacolas plásticas.
A família embarcou rapidamente nos veículos blindados, que seguiram em direção ao centro de refugiados de Kharkiv. Após aproximadamente duas horas, todos chegaram ao destino sem novos incidentes.
Apesar do desfecho positivo da operação, Liliia relatou preocupação com o futuro e sofrimento pela necessidade de abandonar a própria residência. A mãe também informou que sua mãe, de 66 anos, decidiu permanecer na região, tornando a separação familiar mais um dos efeitos da guerra sobre os civis.
Ataques russos atingem Kiev, Odessa e Donetsk
Enquanto equipes realizavam evacuações no leste do país, ataques russos atingiram diferentes pontos da Ucrânia na quarta-feira (23/09/2026).
Em Kiev, ao menos duas pessoas morreram e outras 41 ficaram feridas, segundo autoridades municipais. Os bombardeios danificaram um posto de gasolina, um centro comercial e estabelecimentos comerciais.
Na região de Odessa, no sul, um cargueiro com bandeira de Antígua e Barbuda foi atingido. O capitão da embarcação, cidadão ucraniano, morreu no ataque.
Donetsk registra mortes em prédio residencial
Em Oleksandrivka, na região de Donetsk, quatro pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas após um ataque atingir um edifício residencial.
A região concentra parte significativa dos combates entre forças russas e ucranianas, mantendo comunidades sob risco de deslocamentos forçados e destruição de infraestrutura.
O governo ucraniano acusou a Rússia de ampliar as operações contra estruturas de transporte civil e instalações essenciais para o funcionamento da economia e das cidades.
Zelensky pede sanções e defesa antiaérea na ONU
Durante seu pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Volodymyr Zelensky solicitou novas sanções contra as finanças russas e medidas para encerrar a guerra antes da chegada de mais um inverno.
O presidente ucraniano afirmou que a continuidade dos ataques pode fazer com que o conflito ultrapasse as fronteiras da Ucrânia e alcance outras partes da Europa.
Zelensky também voltou a pedir apoio aos países ocidentais para o fornecimento de sistemas de defesa antiaérea, considerados pelo governo ucraniano essenciais para proteger cidades e infraestruturas contra ataques russos.
Presidente acusa Moscou de tentar paralisar a economia
Em declarações relacionadas aos ataques recentes, Zelensky acusou a Rússia de tentar “paralisar a economia e destruir a vida das pessoas”.
A avaliação do governo ucraniano é que a destruição de instalações de energia, transporte e abastecimento compromete tanto a capacidade de resistência militar quanto as condições de vida da população.
A ofensiva diplomática de Kiev ocorre paralelamente à busca por medidas que reduzam os impactos dos ataques sobre o sistema energético, especialmente diante da aproximação do período de temperaturas mais baixas.
Proposta de trégua energética encontra obstáculos diplomáticos
Em reunião realizada na terça-feira (22/09/2026), à margem da Assembleia Geral da ONU, Zelensky e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discutiram possíveis medidas de desescalada capazes de abrir caminho para negociações diplomáticas.
Entre as propostas mencionadas está uma moratória recíproca sobre ataques contra instalações de energia russas e ucranianas.
A ideia também foi defendida pelo presidente francês Emmanuel Macron, que sugeriu uma suspensão dos ataques contra infraestruturas energéticas dos dois países.
Zelensky afirmou estar disposto a interromper as operações contra instalações russas caso Moscou adote medida equivalente e suspenda os ataques contra estruturas ucranianas de aquecimento, eletricidade e abastecimento de água.
Especialista aponta baixa possibilidade de adesão russa
O especialista em geopolítica Samir Puri avaliou que existem poucas possibilidades de o Kremlin aderir à proposta de trégua energética.
Segundo sua análise, os ataques contra a infraestrutura de energia ucraniana representam um instrumento de pressão utilizado pela Rússia para enfraquecer a economia do país e ampliar os efeitos da guerra de desgaste.
Puri afirmou que, embora os ataques ucranianos contra refinarias russas causem impactos econômicos em Moscou, a Rússia teria menos incentivos estratégicos para aceitar uma suspensão recíproca das ofensivas.
Infraestrutura energética ucraniana enfrenta novo período de risco
A rede de energia da Ucrânia já foi afetada por anos de ataques russos. Em 2026, o país também realizou operações contra refinarias russas localizadas a milhares de quilômetros da linha de frente, provocando impactos no abastecimento de petróleo em território russo, conforme as informações apresentadas na reportagem.
A possibilidade de novos ataques contra instalações de eletricidade, aquecimento e abastecimento preocupa as autoridades ucranianas diante da aproximação do inverno.
O especialista Samir Puri alertou que as temperaturas em algumas regiões podem cair para -20 °C ou até -30 °C, elevando os riscos para a população caso ocorram interrupções prolongadas no fornecimento de energia.
Cortes de energia podem comprometer habitabilidade de cidades
De acordo com Puri, a destruição de instalações essenciais poderia tornar determinadas cidades ucranianas inabitáveis durante os meses mais frios.
A avaliação considera a dependência da população em relação aos sistemas de aquecimento e eletricidade para enfrentar as condições climáticas do inverno.
O governo ucraniano busca, por isso, ampliar o acesso a mísseis interceptadores norte-americanos, apontados por Zelensky como necessários para enfrentar os mísseis balísticos russos.
Estados Unidos pressionam por suspensão de ataques energéticos
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou na quarta-feira (23/09/2026) que Washington pressionava Moscou e Kiev para interromperem os ataques recíprocos contra infraestruturas energéticas.
Segundo Rubio, uma suspensão limitada dessas operações poderia servir como base inicial para discussões diplomáticas, mesmo diante do fracasso das negociações mais amplas de cessar-fogo.
A posição norte-americana indica uma tentativa de construir medidas parciais de redução das hostilidades, sem que tenha sido anunciado um acordo abrangente entre Rússia e Ucrânia.
Diplomacia permanece condicionada à continuidade dos combates
A proposta de trégua energética representa uma das iniciativas discutidas internacionalmente para reduzir os impactos humanitários do conflito.
Entretanto, as divergências sobre objetivos militares, garantias de segurança e condições para um cessar-fogo continuam dificultando avanços nas negociações.
A guerra permanece marcada pela combinação entre operações militares, destruição de infraestrutura, deslocamento de civis e esforços diplomáticos que ainda não resultaram em um acordo definitivo.
Evacuação e pressão internacional revelam dimensão humanitária da guerra
A missão acompanhada pela RFI em Khotimlia demonstra como a população civil continua exposta a riscos durante deslocamentos em regiões próximas à linha de frente.
Famílias que deixam suas casas enfrentam perdas materiais, separações e incertezas sobre o futuro, enquanto as equipes de resgate precisam adaptar suas operações às ameaças de drones e mísseis.
No campo diplomático, Volodymyr Zelensky busca ampliar o apoio internacional à Ucrânia e pressionar Moscou por meio de sanções e propostas de redução dos ataques contra infraestruturas essenciais.
Conflito segue sem perspectiva imediata de encerramento
Os acontecimentos registrados em setembro de 2026 indicam que a guerra continua produzindo efeitos sobre a população, a economia e a segurança energética da Ucrânia.
A aproximação do inverno amplia a urgência de proteger redes de eletricidade, aquecimento e abastecimento, enquanto a continuidade dos bombardeios dificulta a reconstrução e o retorno dos moradores às áreas afetadas.
Sem um acordo de cessar-fogo consolidado, a Ucrânia permanece diante do desafio de proteger civis, manter serviços essenciais e obter apoio internacional para enfrentar a continuidade das operações russas.
*Com informações da RFI.








Deixe um comentário