A oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho assumiu a Secretaria-Geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) como a primeira mulher a ocupar o cargo e em um período marcado pelo avanço das discussões sobre mineração em águas profundas. Em entrevista à ONU News, durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, ela apresentou uma agenda voltada à ampliação do conhecimento científico sobre o fundo dos oceanos e à criação de regras para eventual exploração de minerais.
A ISA exerce autoridade sobre mais de 54% dos oceanos do planeta, em áreas que estão além das jurisdições nacionais. O espaço sob sua competência inclui regiões com profundidades que variam de 2 mil a 11 mil metros, consideradas patrimônio comum da humanidade.
A nova secretária-geral defende que a definição de normas para atividades industriais nos fundos marinhos deve ocorrer antes de uma eventual expansão comercial da mineração submarina. Segundo a visão apresentada por Carvalho, a regulamentação deve buscar conciliar benefícios econômicos, interesses dos países em desenvolvimento e proteção dos ecossistemas marinhos.
Mineração submarina e proteção ambiental
A transição energética ampliou a procura internacional por minerais considerados estratégicos para diferentes tecnologias. Nesse cenário, os fundos oceânicos passaram a ocupar espaço nas discussões econômicas, ambientais e geopolíticas relacionadas ao acesso a recursos minerais.
Carvalho afirma defender a possibilidade de desenvolvimento de uma indústria baseada na extração desses recursos, desde que exista um sistema internacional de governança capaz de estabelecer regras para a atividade e mecanismos de proteção ambiental.
A proposta apresentada pela dirigente envolve a criação de normas consideradas rigorosas e abrangentes antes do início de uma exploração comercial em larga escala. A intenção é estabelecer parâmetros que permitam avaliar os impactos sobre a fauna e a flora submarinas, além da distribuição dos possíveis benefícios econômicos.
A atuação da ISA ocorre em áreas oceânicas de grande profundidade e ainda pouco conhecidas pela ciência. Por isso, a ampliação do conhecimento sobre os ecossistemas abissais também integra a agenda apresentada pela nova gestão.
Representatividade feminina ganha espaço na agenda da ISA
Outro eixo da atuação de Letícia Carvalho é o aumento da participação feminina na ciência, na governança dos oceanos e nas atividades marítimas. Segundo ela, a presença de mulheres ainda é menor em posições de liderança e em ambientes de pesquisa e trabalho embarcado.
A dirigente também chama atenção para as condições de segurança de mulheres a bordo de embarcações de pesquisa e outros navios. A ISA, segundo Carvalho, trabalha com parceiros, incluindo a Organização Marítima Internacional (OMI), para ampliar as condições de segurança e participação feminina nesses ambientes.
A questão da representatividade está associada ao programa SHE (See Her Exceed), iniciativa apresentada pela gestão de Carvalho para estimular a participação de mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) e na diplomacia relacionada aos oceanos.
Programa SHE aposta em formação e mentoria
O programa prevê ações como centros globais de treinamento, programas de mentoria e políticas relacionadas à segurança e à flexibilidade para mulheres a bordo de navios de pesquisa.
A iniciativa busca aproximar jovens mulheres das carreiras científicas e profissionais ligadas ao ambiente marinho. A proposta também pretende ampliar a participação feminina em atividades de pesquisa e nos espaços internacionais de formulação de políticas para os oceanos.
Entre os exemplos citados está a trajetória da geóloga marinha brasileira Malena Palmieri, que segue em direção ao doutorado no Havaí. Ela também passou a atuar como embaixadora do programa SHE.
Ciência colaborativa para ampliar conhecimento sobre os oceanos
A trajetória de Malena Palmieri é apresentada como referência para aproximar novas gerações do estudo dos oceanos, especialmente entre jovens meninas de países e comunidades de língua portuguesa.
A estratégia da nova gestão da ISA também prevê ampliar iniciativas destinadas a aproximar o público dos ambientes de águas profundas. O objetivo é aumentar o conhecimento sobre regiões oceânicas que permanecem pouco exploradas e estudadas.
Nesse contexto, a ciência colaborativa aparece como instrumento para ampliar pesquisas e disseminar informações sobre os ecossistemas marinhos. A proteção dos oceanos passa, na proposta apresentada por Carvalho, pela combinação entre conhecimento científico, governança internacional e participação social.
ISA enfrenta discussão sobre futuro da mineração em águas profundas
A chegada de Letícia Carvalho à Secretaria-Geral da ISA ocorre em um período de debates sobre a possibilidade de exploração de minerais em áreas profundas do oceano. O tema envolve interesses econômicos, transição energética, pesquisa científica, preservação ambiental e participação dos países em desenvolvimento.
A dirigente defende que qualquer atividade futura seja submetida a regras internacionais estabelecidas previamente, com mecanismos de proteção ambiental e critérios relacionados à distribuição dos benefícios.
Paralelamente, a agenda apresentada inclui iniciativas para ampliar a participação feminina em áreas científicas e marítimas. O programa SHE representa uma das frentes destinadas a estimular essa presença, enquanto ações de treinamento e mentoria buscam criar oportunidades para novas pesquisadoras.
A gestão de Carvalho, portanto, combina dois eixos apresentados como complementares: o desenvolvimento de mecanismos internacionais de governança para os fundos marinhos e a ampliação do conhecimento científico sobre essas regiões. A estratégia também incorpora políticas de participação feminina na ciência e na diplomacia oceânica.
*Com informações da ONU News.








Deixe um comentário