A produção científica do Nordeste conquistou reconhecimento nacional na edição de 2026 do Prêmio CAPES de Tese, com 18 trabalhos vinculados a instituições de ensino e pesquisa da região. Do total, oito teses foram premiadas na categoria principal e dez receberam Menção Honrosa, segundo os dados divulgados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Os resultados evidenciam a participação de universidades e instituições nordestinas em diferentes áreas do conhecimento.
O levantamento ganha destaque no contexto do Dia do Nordestino, celebrado em 8 de outubro (quinta-feira), data que ressalta a diversidade cultural, histórica e social dos nove estados da região. Com cerca de 55 milhões de habitantes, o Nordeste também reúne centros de pesquisa que desenvolvem estudos relacionados à história, à filosofia, à saúde pública, à educação, à sustentabilidade e às tecnologias.
Entre os trabalhos reconhecidos estão a tese do historiador Bruno de Oliveira Moreira, vinculada à Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre a repressão da ditadura civil-militar contra intelectuais, e a pesquisa da filósofa Renata Dias Ribeiro, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), sobre a psicologia das massas a partir de uma abordagem interseccional. As duas pesquisas exemplificam a diversidade temática da produção acadêmica regional.
Nordeste reúne 18 trabalhos reconhecidos no Prêmio CAPES de Tese
Na categoria principal, oito trabalhos vinculados a instituições nordestinas foram selecionados entre os 50 vencedores nacionais. As pesquisas estão associadas a universidades e instituições de seis estados: Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, Maranhão e Sergipe.
Na categoria Menção Honrosa, outros dez trabalhos vinculados a instituições de quatro estados — Bahia, Pernambuco, Sergipe e Maranhão — receberam reconhecimento. Somadas as duas categorias, são 18 teses nordestinas contempladas na edição de 2026.
A Universidade Federal da Bahia aparece entre as instituições com maior número de representantes no conjunto regional, com cinco pesquisadores reconhecidos: um na categoria principal e quatro na Menção Honrosa. O resultado também inclui universidades federais, uma universidade estadual e uma unidade da Fundação Oswaldo Cruz.
Veja os pesquisadores nordestinos vencedores na categoria principal
Os oito pesquisadores vinculados a instituições nordestinas reconhecidos na categoria principal do Prêmio CAPES de Tese 2026 são:
- Bianca Beatriz Torres de Assis — Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
- Jamylle Lucas Diniz — Universidade Federal do Ceará (UFC).
- Larissa Silva Queiroz — Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
- Bruno de Oliveira Moreira — Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Renan da Ponte Castelo Branco — Universidade Estadual do Ceará (UECE).
- Mateus Santana do Rosário — Fiocruz Bahia/Instituto Gonçalo Moniz.
- Silas Alves Costa — Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
- Jean Jesus Santos — Universidade Federal de Sergipe (UFS).
A relação demonstra a participação de instituições de diferentes estados na premiação nacional. Os trabalhos contemplados abrangem áreas distintas, refletindo a diversidade da pesquisa desenvolvida nos programas de pós-graduação da região.
Bruno de Oliveira Moreira pesquisa a repressão da ditadura contra intelectuais
Professor de História do Instituto Federal da Bahia (IFBA), no Campus Santo Amaro, Bruno de Oliveira Moreira venceu na área de História com a tese O exílio da memória: Milton Santos e a ditadura civil-militar. O trabalho foi defendido no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia, sob orientação da professora doutora Lucileide Cardoso.
A pesquisa investiga mecanismos de repressão utilizados pela ditadura civil-militar contra intelectuais brasileiros, tomando como referência a trajetória do geógrafo e cientista baiano Milton Santos (1926–2001). Reconhecido por suas contribuições à Geografia, Santos esteve entre os intelectuais que tiveram suas trajetórias afetadas pela perseguição política durante o regime instaurado após o golpe de 1964.
Segundo Bruno Moreira, o ponto de partida para a investigação foi a descoberta de textos de Milton Santos sobre a Revolução Cubana, publicados no jornal A Tarde em 1960. O material contribuiu para o desenvolvimento de uma pesquisa sobre as circunstâncias políticas que levaram o intelectual a deixar o Brasil durante a ditadura.
Acervos históricos ajudam a reconstruir a trajetória de Milton Santos
Para desenvolver o estudo, o historiador consultou diferentes conjuntos documentais, incluindo o acervo pessoal de Milton Santos, preservado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), e documentos do projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.
A investigação também recorreu a registros de universidades francesas nas quais o geógrafo esteve durante o exílio e a documentos do Judiciário baiano. A diversidade das fontes permitiu examinar a atuação das instituições e os mecanismos empregados pelo regime para perseguir intelectuais e restringir a atividade pública.
O trabalho relaciona a trajetória de Milton Santos ao contexto político brasileiro e às consequências da repressão sobre a produção intelectual. A pesquisa também aborda os efeitos do autoritarismo sobre instituições e projetos acadêmicos, contribuindo para a compreensão histórica do período.
Pesquisador destaca o papel da produção científica nordestina
Ao comentar o reconhecimento, Bruno Moreira afirmou que a premiação reforça sua disposição para continuar pesquisando, especialmente na área de História Política do Brasil. O professor também destacou a presença da produção acadêmica nordestina no cenário científico nacional.
Para o historiador, o reconhecimento de pesquisas desenvolvidas na região contribui para ampliar a visibilidade dos trabalhos realizados nas universidades e instituições de pesquisa locais. A premiação ocorre em um contexto no qual a produção científica regional busca ampliar sua participação nos debates nacionais.
A tese sobre Milton Santos integra esse conjunto de pesquisas ao investigar a relação entre conhecimento, política e repressão. O estudo também recupera aspectos da trajetória de um intelectual baiano cuja produção teve repercussão na Geografia brasileira e em debates sobre a sociedade e o território.
Renata Dias Ribeiro recebe Menção Honrosa por tese sobre psicologia das massas
Entre os trabalhos reconhecidos com Menção Honrosa está a tese da filósofa Renata Dias Ribeiro, natural de Valença, na Bahia, e doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe. A pesquisadora também realizou na UFS sua graduação e seu mestrado.
Intitulada A Psicologia das Massas: Uma Leitura Interseccional, a tese foi orientada pelo professor Antônio José Pereira Filho, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFS. O trabalho investiga como raça, gênero e outros marcadores sociais influenciam a formação e o comportamento de indivíduos inseridos em grupos ou multidões.
A pesquisa foi desenvolvida ao longo de quase dez anos e parte dos estudos sobre as multidões realizados no final do século XIX, especialmente pelas obras de Gustave Le Bon e Gabriel Tarde. A investigação também acompanha a apropriação posterior desse debate por Sigmund Freud e por pensadores ligados à Teoria Crítica.
Tese relaciona comportamento coletivo, raça e gênero
A abordagem interseccional utilizada por Renata Dias Ribeiro procura compreender como diferentes marcadores sociais continuam influenciando a posição e o tratamento dos indivíduos mesmo quando eles passam a integrar uma multidão ou um grupo social.
Segundo a pesquisadora, a proposta consiste em reformular questões tradicionais da psicologia das massas, considerando que as desigualdades sociais não desaparecem com a participação coletiva. A análise busca examinar como essas diferenças interferem nas experiências e nas relações estabelecidas entre os integrantes dos grupos.
Renata afirmou que a Menção Honrosa representa o reconhecimento de uma trajetória de pesquisa construída na Universidade Federal de Sergipe. A filósofa também ressaltou o caráter coletivo da produção acadêmica, que envolve diálogos, intercâmbios e contribuições de outros pesquisadores.
Pesquisadora destaca a importância de produzir conhecimento no Nordeste
Para Renata Dias Ribeiro, o reconhecimento da tese também valoriza a pesquisa desenvolvida nas universidades nordestinas e as questões formuladas a partir das experiências sociais da região.
A pesquisadora defende que o fortalecimento da ciência no Nordeste amplia a capacidade das instituições locais de definir prioridades e desenvolver estudos relacionados às necessidades de suas populações. Na avaliação dela, a produção de conhecimento deve considerar as particularidades territoriais e sociais na definição das agendas de pesquisa.
A presença de pesquisadores nordestinos na premiação nacional, nesse sentido, permite observar a contribuição de diferentes instituições para a produção científica brasileira. Os trabalhos reconhecidos também mostram como pesquisas em História e Filosofia podem abordar questões políticas, sociais e institucionais a partir de perspectivas específicas.
Conheça os dez trabalhos nordestinos que receberam Menção Honrosa
Além de Renata Dias Ribeiro, outros nove pesquisadores vinculados a instituições nordestinas receberam Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2026. A relação divulgada reúne representantes de universidades da Bahia, de Pernambuco, de Sergipe e do Maranhão.
Os pesquisadores reconhecidos nessa categoria são:
- Jorge Luiz Alencar Sampaio — Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- José Diego Marques de Lima — Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
- Gabriela Alves Ferreira — Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
- Nívea Maria Santos Souto Maior — Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
- Marimeire Morais da Conceição — Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Caroline Silva Araujo — Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Rafael Gomes Nóbrega Paiva — Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
- Renata Dias Ribeiro — Universidade Federal de Sergipe (UFS).
- Giovanna de Carli Lopes — Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Beatriz da Silva Batista — Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
A lista evidencia a participação de diferentes instituições e programas de pós-graduação na produção científica regional. A UFBA reúne quatro representantes nessa categoria, enquanto a UFPE aparece com três pesquisadores, de acordo com a relação apresentada.
CAPES anuncia rede de pesquisa para fortalecer a ciência no Nordeste
A premiação ocorre em um contexto de iniciativas voltadas à ampliação da capacidade científica da região. Em 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, vinculada ao Ministério da Educação, lançou a Rede de Pesquisa e Desenvolvimento da Região Nordeste, com previsão de investimentos de até R$ 114,8 milhões.
A iniciativa tem como objetivos fortalecer a pós-graduação, ampliar a pesquisa e a inovação, estimular o desenvolvimento regional e promover a cooperação entre instituições dos nove estados nordestinos. Também prevê medidas para interiorizar a pós-graduação, formar pesquisadores e favorecer sua permanência na região.
A proposta contempla áreas como sustentabilidade, saúde, educação, energias renováveis, mudanças climáticas, segurança alimentar e hídrica, oceanos e tecnologias de fronteira. Esses campos estão relacionados a desafios regionais e a oportunidades de desenvolvimento científico e tecnológico.
Pesquisa regional pode contribuir para políticas públicas e desenvolvimento
O fortalecimento da ciência produzida no Nordeste está relacionado à capacidade de desenvolver pesquisas que considerem as características sociais, econômicas e ambientais da região. Estudos sobre recursos hídricos, saúde pública, educação, energia e mudanças climáticas podem contribuir para a formulação de políticas públicas e para a identificação de soluções adaptadas às necessidades locais.
A articulação entre universidades, institutos de pesquisa e programas de pós-graduação também pode ampliar o intercâmbio de conhecimentos e a formação de profissionais qualificados. A cooperação entre instituições é um dos objetivos da rede anunciada pela CAPES, que prevê ações em diferentes áreas estratégicas.
Os resultados do Prêmio CAPES de Tese 2026 mostram a presença de pesquisadores nordestinos em uma premiação de alcance nacional. Embora a quantidade de trabalhos reconhecidos não represente, isoladamente, toda a produção científica da região, os números oferecem um recorte da participação de universidades e instituições nordestinas na pesquisa brasileira.
Prêmio destaca diversidade de temas e instituições nordestinas
A presença de 18 trabalhos vinculados a instituições do Nordeste entre as categorias de premiação e Menção Honrosa reúne pesquisas com objetos e abordagens distintos. A investigação histórica sobre a ditadura civil-militar e Milton Santos e o estudo filosófico sobre psicologia das massas e interseccionalidade ilustram parte dessa diversidade.
Os reconhecimentos também abrangem instituições federais, estaduais e centros de pesquisa, distribuídos por diferentes estados. Esse cenário reforça a importância dos programas de pós-graduação na formação de pesquisadores e na produção de conhecimento em áreas variadas.
O desafio de ampliar a ciência regional envolve, além do reconhecimento acadêmico, condições de financiamento, formação de pessoal, cooperação institucional e continuidade das políticas de pesquisa. A rede anunciada pela CAPES integra esse conjunto de iniciativas, enquanto os resultados da premiação oferecem um panorama da contribuição de pesquisadores nordestinos para a ciência brasileira.








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