Mensagens da PF indicam rede de influência de Daniel Vorcaro em sites por meio de patrocínios, investimentos e interferências editoriais

Na quinta-feira (15/10/2026), novas informações extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do liquidado Banco Master, revelaram como o empresário estabeleceu relações financeiras, societárias e pessoais com diferentes veículos de comunicação e intermediários do setor, obtendo, segundo as mensagens divulgadas, acesso antecipado a reportagens, possibilidade de sugerir alterações, solicitar exclusões de informações, interferir em abordagens e, em determinados casos, buscar impedir a publicação de conteúdos negativos. As revelações alcançam Brazil Journal, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM), CartaCapital e Metrópoles e se somam às investigações da Operação Compliance Zero, que já apurou campanhas digitais, intimidação de jornalistas e ações destinadas a influenciar a percepção pública sobre o Banco Master e seus interesses. As relações comerciais ou publicitárias, por si mesmas, não caracterizam irregularidade; o ponto sob escrutínio é a possível conexão entre aportes financeiros e decisões editoriais documentada nas conversas.

Mensagens revelam uma estrutura de influência que atravessava diferentes perfis editoriais

O material divulgado pelo UOL mostra que a atuação atribuída a Vorcaro não se concentrava em um único segmento da imprensa. As conversas mencionam veículos especializados em economia, revistas semanais, um portal de forte presença em Brasília e publicações identificadas com diferentes campos políticos.

O padrão encontrado varia conforme o veículo. Em alguns casos, aparecem participações societárias indiretas; em outros, contratos de publicidade, patrocínios, adiantamentos financeiros ou interlocutores encarregados da reputação do banqueiro. Há ainda registros de textos submetidos previamente, pedidos de alteração depois da publicação e orientações sobre personagens que deveriam ou não receber espaço.

O conjunto sugere uma estratégia menos vinculada a orientação ideológica do que à proteção dos interesses empresariais e da imagem pública de Vorcaro. Essa interpretação decorre da diversidade dos veículos envolvidos e da recorrência de intervenções relacionadas ao Banco Master, seus investimentos, a tentativa de aquisição pelo Banco de Brasília (BRB) e personagens que se posicionavam sobre a operação.

PlatôBR: empresa ligada a assessor de Vorcaro entrou na estrutura societária

Um dos elos mais diretos apontados pelas mensagens envolve o PlatôBR e Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro.

A empresa Foone, ligada a Carneiro, aparece como sócia do veículo. No fim de março de 2025, poucos dias depois de o BRB anunciar o acordo para adquirir participação no Master, o assessor informou ao banqueiro que enviaria textos para análise antes da publicação.

Uma entrevista com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, foi encaminhada previamente. Vorcaro questionou o destaque dado aos precatórios, e a conversa indica que a apresentação da reportagem foi posteriormente modificada.

Em abril daquele ano, quando o PlatôBR publicou conteúdos negativos sobre o Master, Carneiro informou ao empresário que buscaria retirá-los do ar.

As mensagens avançam da defesa reputacional para a definição de alvos políticos. Em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o portal não abordasse Ciro Nogueira e Antônio Rueda. Em outra conversa, cobrou uma ofensiva contra Ricardo Cappelli, então presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e pré-candidato ao Governo do Distrito Federal. Carneiro respondeu que alinharia a abordagem.

Até a publicação da reportagem que revelou as conversas, Flávio Carneiro não havia apresentado resposta ao UOL sobre esses episódios.

IstoÉ e IstoÉ Dinheiro aparecem nas conversas sobre controle editorial

Carneiro também mantinha investimento nas publicações IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, controladas por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro e apontado em investigações do Caso Master como operador ligado a Vorcaro.

Em 2024, mensagens mostram Vorcaro discutindo com Carneiro uma capa da IstoÉ Dinheiro relacionada à Biomm, farmacêutica na qual o banqueiro havia investido.

Em uma das conversas, Vorcaro afirmou: “Na IstoÉ é que controlamos mais”. Meses depois, determinou que referências a Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta não fossem publicadas sem consulta prévia. Carneiro respondeu acrescentando Lira à relação de nomes submetidos ao controle.

A existência dessas mensagens demonstra a intenção expressa atribuída aos interlocutores. Determinar a extensão efetiva da interferência em cada edição, porém, exige confrontar as conversas com a produção publicada e com documentos empresariais e comerciais dos veículos.

Brazil Journal: investimento indireto e textos submetidos antes da publicação

No Brazil Journal, a relação descrita nas mensagens combinava investimento empresarial indireto e contato editorial com Geraldo Samor, fundador da publicação especializada em negócios.

Em 2023, Samor criou a BJ Conteúdo, destinada a atividades como vídeos e eventos. A Foone, empresa relacionada a Flávio Carneiro, ficou com 49,86% da companhia.

Em dezembro daquele ano, Vorcaro e Carneiro discutiram como incluir Antônio Carlos Freixo Júnior no investimento sem que ele aparecesse diretamente como sócio de Samor. A solução mencionada nas conversas era utilizar outra estrutura empresarial para acomodar a participação.

A partir de 2024, aparecem diálogos nos quais Samor envia textos sobre o Master antes da publicação e aceita pedidos de modificações. Em fevereiro, uma expressão referente ao agronegócio foi retirada após solicitação de Vorcaro. Em outra reportagem, sobre a reorganização societária ligada ao Will Bank, o nome Voiter deixou de aparecer depois de uma intervenção do banqueiro.

Em abril de 2024, durante evento realizado em Londres com participação do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, Samor enviou ao empresário uma versão antecipada da matéria. Vorcaro solicitou a inclusão da informação de que os ministros do Supremo Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes haviam se reunido reservadamente com Blair antes do debate. Reportagem anterior da Folha já havia identificado conversas relacionadas a esse episódio.

Procurado pelo UOL, Geraldo Samor não havia respondido aos contatos até a divulgação da apuração.

Metrópoles: contrato de R$ 20 milhões e 14 textos enviados previamente

Outra frente revelada nesta quinta-feira envolve o Metrópoles. Segundo levantamento do UOL baseado nas mensagens apreendidas pela PF, ao menos 14 textos foram enviados a Vorcaro antes da publicação, e 11 sofreram modificações após pedidos dele. A investigação jornalística identificou ainda duas reportagens publicadas a pedido do então controlador do Master.

A aproximação com a CEO do grupo, Lilian Tahan, começou em maio de 2024. Um mês depois, o Master pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, foram acertados outros R$ 900 mil para projetos de educação financeira vinculados à seguradora Kovr e ao banco digital Will.

Em novembro de 2024, as conversas registram uma negociação publicitária de R$ 20 milhões. Ao comentar internamente o valor, uma executiva de marketing considerou a proposta elevada. Vorcaro respondeu que o Metrópoles era uma das relações mais importantes para o grupo. Segundo as mensagens, o montante foi pago em 2025 em parcelas de R$ 5 milhões.

A existência do contrato publicitário não comprova, isoladamente, interferência editorial. O elemento relevante é que, paralelamente aos pagamentos, aparecem diálogos sobre alterações concretas em reportagens.

Em 02/04/2025, por exemplo, Vorcaro contestou a menção a uma suposta oferta de R$ 1 por ativos do Master. Tahan respondeu que a referência havia sido retirada. Em outra ocasião, a CEO perguntou ao banqueiro se uma comparação entre os balanços do Master e do BRB ajudaria ou prejudicaria os interesses envolvidos; Vorcaro respondeu que poderia examinar previamente os dados, e o texto foi enviado antes da publicação.

Em maio, o empresário pediu a retirada da Hapvida de outra reportagem e foi atendido.

Cobertura sobre Banco Central e Ricardo Cappelli também entrou nas conversas

A relação editorial ganhou maior relevância pública durante a análise, pelo Banco Central, da proposta de aquisição do Master pelo BRB.

Em agosto de 2025, mensagens mostram Vorcaro opinando sobre uma reportagem que citava Renato Gomes, então diretor do Banco Central envolvido na análise da transação. O banqueiro sugeriu reduzir as referências ao diretor naquele texto e reservar o assunto para outra matéria.

Dias depois, ao receber antecipadamente um perfil de Gomes, sugeriu retirar referência à possibilidade de falência do banco, mencionar divergências internas no BC e acrescentar especulações sobre o futuro profissional do diretor. Segundo a apuração, as sugestões foram incorporadas.

No mesmo período, Vorcaro pediu que o Metrópoles reduzisse temporariamente a cobertura de Ricardo Cappelli, crítico da aquisição do Master pelo banco público brasiliense. Tahan respondeu que cuidaria do assunto.

A última troca identificada ocorreu em 17/11/2025, dia em que Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos. A CEO enviou antecipadamente textos sobre a possível venda do Master à Fictor e comunicou a publicação após alterações pedidas pelo empresário.

Lilian Tahan nega relação entre publicidade e cobertura editorial

Questionada pelo UOL, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes para verificar se uma reportagem reproduz corretamente o contexto apresentado é prática que utiliza com empresários, políticos e integrantes do Judiciário.

A executiva também rejeitou qualquer vínculo entre o contrato publicitário e a linha editorial do Metrópoles. Como argumento, destacou que o portal publicou reportagens críticas ou desfavoráveis sobre empresas associadas a Vorcaro, entre elas Master, Ambipar, Fictor e Oncoclínicas.

Sobre Ricardo Cappelli, afirmou ainda que o proprietário do grupo, Luiz Estevão, era crítico da aquisição do Master pelo BRB e teria fornecido ao próprio Cappelli análises sobre problemas nos balanços do banco público.

O contraditório estabelece uma questão central para a continuidade da apuração: diferenciar procedimentos legítimos de checagem factual com fontes de situações em que uma fonte economicamente interessada passa a decidir enfoque, omissões, oportunidade de publicação ou tratamento concedido a terceiros.

DCM: mensagens mencionam pagamento mensal e exclusão de críticas; veículo já negou vínculo

No caso do Diário do Centro do Mundo, as mensagens atribuídas a Felipe Mourão, responsável pela gestão de reputação digital de Vorcaro, descrevem uma relação de natureza diferente.

Depois de publicação negativa em outubro de 2024, Vorcaro teria pedido a Mourão uma parceria regular com pagamento mensal e a condição de que não fossem publicadas referências negativas a seu nome ou ao Master.

Segundo as mensagens divulgadas pelo UOL, o interlocutor informou posteriormente que o acordo havia sido fechado, que conteúdos desfavoráveis poderiam ser retirados e que o grupo teria direito a inserir mensalmente uma matéria. Em 21/10/2024, Mourão registrou que o “Dcm está pago e fechado”.

Em maio de 2025, após a publicação de um artigo crítico ao Master, Vorcaro pediu sua retirada imediata. A conversa indica que o texto foi excluído naquele mesmo dia.

Há, contudo, uma controvérsia relevante. Em 05/03/2026, o próprio DCM publicou nota afirmando que uma referência à sigla “DCM” existente em decisão judicial da Operação Compliance Zero não identificava o Diário do Centro do Mundo. O veículo declarou, naquela ocasião, que não havia recebido recursos ou benefícios dos investigados e negou relação com os fatos.

A reportagem desta quinta-feira acrescenta conversas e contexto não apresentados naquela nota. Após a nova publicação, o UOL informou que procurou o veículo e aguardava manifestação atualizada. Assim, permanece necessário confrontar as mensagens com registros bancários, contratos e documentação empresarial capaz de comprovar ou afastar o pagamento descrito pelos interlocutores.

CartaCapital: patrocínio começou ainda no período do Banco Máxima

A relação com CartaCapital remonta ao período anterior à adoção da marca Banco Master.

Em dezembro de 2020, o então Banco Máxima adiantou R$ 300 mil à publicação. Em 2021, foi firmado um contrato de publicidade por cinco anos. O próprio banco registrou em seus documentos societários de 2021 que Banco Master e Grupo Master eram as novas denominações do antigo Banco Máxima e Grupo Máxima.

Mensagens divulgadas indicam que recursos provenientes dessa relação comercial ajudavam no pagamento de despesas da revista. No início de 2021, Manuela Carta, publisher da publicação, comunicou a Vorcaro a necessidade de novo recurso para a folha de pagamentos.

Em agosto de 2023, conversas mostram que uma reportagem em preparação foi submetida à decisão de Vorcaro sobre sua publicação. No mesmo período, havia discussões sobre uma eventual entrada do banqueiro na sociedade da revista. Manuela Carta chegou a enviar informações sobre o endividamento da empresa e aguardar uma proposta. O negócio não foi concluído.

Em 2024, houve novo pedido de antecipação publicitária.

CartaCapital apresentou manifestação negando interferência editorial. Manuela Carta afirmou que o contrato firmado em 2021 era uma relação publicitária regular e disse que Vorcaro nunca lhe pediu publicação de notícias favoráveis nem interferência em conteúdo jornalístico. Segundo ela, a separação entre as áreas comercial e editorial deveria ser preservada.

A influência digital não se limitava às redações

As revelações sobre veículos jornalísticos se inserem em um conjunto maior de apurações sobre a administração da reputação pública do antigo controlador do Master.

Reportagens publicadas em março de 2026, com base em material da investigação, já haviam descrito ações destinadas a reduzir a visibilidade de conteúdos negativos em mecanismos de busca e promover resultados favoráveis. Felipe Mourão aparece nessas investigações como um dos responsáveis pela estrutura de reputação digital do banqueiro.

A dimensão institucional dessa frente ficou mais clara em 09/07/2026, quando a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero.

Segundo comunicado oficial, a etapa passou a investigar indícios de uma atuação coordenada em redes sociais destinada, em tese, a comprometer a credibilidade do Banco Central. A PF afirmou ainda que apurava possível organização criminosa voltada à intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, obtenção indevida de informações sigilosas e interferência em investigações criminais.

A investigação também identificou pagamentos de até R$ 2 milhões a influenciadores digitais no contexto da campanha contra o BC, segundo informações tornadas públicas sobre aquela fase da operação.

Esses elementos não permitem concluir que todos os contratos de comunicação ou publicidade mantidos pelo Master tenham integrado um único arranjo ilícito. Eles demonstram, porém, que a influência sobre o ambiente informacional se tornou uma linha específica da investigação federal.

Crise do Banco Master elevou valor estratégico da cobertura jornalística

A disputa pela narrativa pública se intensificou justamente durante o período em que a situação financeira do Master se deteriorava.

Em 28/03/2025, o BRB anunciou acordo para adquirir 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total do Master. A operação dependia da aprovação do Banco Central.

A transação passou a receber crescente escrutínio de parlamentares, autoridades regulatórias e imprensa. Em 03/09/2025, o Banco Central rejeitou o pedido de aquisição.

Em 17/11/2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos quando se preparava para viajar ao exterior. A primeira fase da Compliance Zero apurava suspeitas envolvendo carteiras de crédito sem lastro negociadas no sistema financeiro e operações com o BRB.

No dia seguinte, 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. A autoridade monetária justificou a medida pela grave crise de liquidez, pelo comprometimento significativo da situação econômico-financeira e por graves violações das normas do Sistema Financeiro Nacional.

Vorcaro voltou a ser preso preventivamente em 04/03/2026, na terceira fase da Compliance Zero. A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, foi baseada em elementos da investigação que também apontavam para uma estrutura de vigilância e intimidação de pessoas consideradas adversárias.

Em setembro de 2026, a defesa pediu novamente a revogação da prisão preventiva. Até as informações públicas mais recentes utilizadas nesta reportagem, o ex-banqueiro permanecia preso.

Relações comerciais são legais; interferência editorial é o ponto crítico

Publicidade, patrocínio e investimento em empresas de comunicação são atividades lícitas. Também é procedimento jornalístico legítimo procurar uma fonte antes da publicação para conferir informações, dados, documentos, números ou declarações.

A questão muda de natureza quando uma fonte passa a interferir na seleção de assuntos, retirar informações corretas por conveniência, escolher alvos de cobertura, impedir referências a pessoas ou condicionar recursos comerciais ao tratamento editorial.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional dos Jornalistas, estabelece que a informação precisa e correta deve ser divulgada independentemente da natureza econômica das empresas de comunicação e determina que conteúdos de caráter publicitário ou decorrentes de patrocínio sejam identificados de forma transparente. Também prevê que jornalistas não devem submeter-se a diretrizes contrárias à correta apuração e divulgação dos acontecimentos.

Por isso, o significado público das mensagens vai além das relações privadas entre empresários e executivos de mídia. O material coloca em discussão a independência editorial, a transparência de participações societárias e contratos publicitários, a separação entre redação e área comercial e o direito do leitor de conhecer eventuais conflitos de interesse.

Contraditórios, lacunas e questões ainda abertas

Os documentos divulgados permitem afirmar que conversas envolvendo Vorcaro e interlocutores ligados aos veículos existiram e que diversas delas tratavam explicitamente de publicação, alteração ou retirada de conteúdos. Também são documentados contratos comerciais e determinadas participações societárias.

Não está demonstrado, porém, que todo investimento ou contrato mantido pelo Master com empresas jornalísticas tivesse como finalidade controlar conteúdo. Essa generalização dependeria de documentação adicional e da análise individual de cada relação.

Há igualmente diferentes versões dos envolvidos. CartaCapital nega interferência editorial; Lilian Tahan nega relação entre o contrato do Master e a cobertura do Metrópoles; o DCM já negou ter recebido recursos de Vorcaro ou dos investigados, embora a reportagem atual apresente novas mensagens que precisam ser confrontadas com sua posição; Geraldo Samor e Flávio Carneiro não haviam respondido ao UOL até a divulgação das apurações utilizadas nesta reportagem.

Também permanecem sem esclarecimento público completo os valores totais investidos por Vorcaro ou por empresas relacionadas a ele no conjunto de veículos, os contratos efetivamente celebrados, a origem de determinados recursos, a eventual participação de outros sócios e a extensão das alterações realizadas em conteúdos jornalísticos.

Essas questões dependem da análise integral das mensagens, registros bancários, contratos, estruturas societárias e depoimentos reunidos pela investigação.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • Dezembro de 2020 — O Banco Máxima adianta R$ 300 mil à CartaCapital; as conversas posteriormente divulgadas indicam relação financeira que antecede a adoção da marca Banco Master.
  • 2021 — Banco Máxima passa a utilizar a denominação Banco Master e firma contrato publicitário de cinco anos com CartaCapital.
  • 2023 — Geraldo Samor cria a BJ Conteúdo; a Foone, relacionada a Flávio Carneiro, passa a deter 49,86% da empresa. No mesmo ano, são discutidas eventual participação de Vorcaro em CartaCapital e estruturas indiretas de investimento no Brazil Journal.
  • 2024 — Conversas registram envio prévio e alterações de conteúdos no Brazil Journal, discussões sobre cobertura da IstoÉ Dinheiro, contatos com o DCM e o início da relação comercial e editorial entre Master e Metrópoles.
  • Outubro de 2024 — Mensagens de Felipe Mourão descrevem um suposto acordo mensal com o DCM para administração de conteúdos relacionados a Vorcaro e ao Master. O veículo negaria, em março de 2026, ter recebido recursos dos investigados.
  • Novembro de 2024 — Master negocia contrato publicitário de R$ 20 milhões com Metrópoles. As mensagens indicam que o valor seria pago em 2025.
  • 28/03/2025 — BRB anuncia acordo para adquirir 58% do capital total do Banco Master; a transação fica condicionada à aprovação regulatória.
  • Abril a agosto de 2025 — Aumentam as conversas sobre alteração de matérias, tratamento de personagens políticos, cobertura sobre o Banco Central, precatórios e críticos da operação Master–BRB.
  • 03/09/2025 — Banco Central rejeita a aquisição do Master pelo BRB.
  • 17/11/2025 — Daniel Vorcaro é preso no Aeroporto de Guarulhos; naquele dia, segundo as mensagens, ainda recebe textos do Metrópoles antes da publicação.
  • 18/11/2025 — Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, citando grave crise de liquidez, deterioração econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
  • 04/03/2026 — Vorcaro é novamente preso preventivamente na terceira fase da Operação Compliance Zero, que amplia a investigação para estruturas de vigilância e intimidação.
  • 05/03/2026 — DCM publica nota negando que referência à sigla existente em decisão judicial identificasse o veículo e afirma não ter recebido recursos dos investigados.
  • 09/07/2026 — PF deflagra a 10ª fase da Compliance Zero para investigar atuação coordenada nas redes sociais contra a credibilidade do Banco Central e possíveis ações de intimidação de jornalistas e obtenção indevida de informações.
  • 15/10/2026 — Novas reportagens baseadas nas mensagens extraídas pela PF detalham relações de Vorcaro com Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, DCM, CartaCapital e Metrópoles.

O aspecto mais relevante das novas revelações não está na existência de publicidade bancária em empresas de comunicação, prática corrente e legítima, mas na aparente sobreposição, em determinadas relações, entre financiamento, participação empresarial, gestão de reputação e interferência no processo editorial. Quando mensagens registram uma fonte analisando textos previamente, sugerindo exclusões, escolhendo personagens que devem ou não ser mencionados ou pedindo redução de cobertura de adversários, a discussão deixa de ser apenas comercial e alcança a independência necessária ao funcionamento do jornalismo.

O alcance político do caso também é significativo. Parte das intervenções ocorreu durante a tentativa de aquisição do Master pelo BRB, justamente quando o banco dependia de decisões regulatórias do Banco Central e enfrentava crescente questionamento sobre sua situação financeira. Nesse contexto, a capacidade de moldar notícias sobre o próprio banco, autoridades reguladoras e críticos da operação poderia produzir efeitos sobre reputação empresarial, percepção de investidores e ambiente político. Demonstrar consequências concretas de cada publicação, entretanto, exigirá investigação específica e não pode ser presumido apenas pelas conversas.

No plano institucional, os próximos passos deveriam esclarecer a origem e o destino dos recursos destinados aos veículos e intermediários, a natureza dos contratos, eventuais participações ocultas, os critérios utilizados para retirar ou alterar conteúdos e se houve conexão entre pagamentos e decisões editoriais. Também será necessário preservar o contraditório dos profissionais e empresas citados. Mensagens privadas podem documentar intenção e comportamento dos interlocutores, mas a responsabilização criminal, civil ou administrativa exige demonstração individualizada de condutas e enquadramento pelas autoridades competentes.

O núcleo factual já conhecido demonstra que Daniel Vorcaro construiu uma extensa rede de relações com empresas e profissionais da comunicação enquanto o Banco Master expandia sua presença econômica e enfrentava crescente escrutínio regulatório. As mensagens reveladas indicam que algumas dessas relações ultrapassaram o campo convencional da publicidade e alcançaram decisões sobre conteúdos jornalísticos. A relevância pública decorre justamente da possibilidade de interesses econômicos privados interferirem na informação oferecida à sociedade. Caberá à Polícia Federal, Ministério Público, Supremo Tribunal Federal, aos próprios veículos envolvidos e às entidades representativas do jornalismo esclarecer a extensão das práticas, eventuais ilegalidades e responsabilidades individuais.


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