A mobilização iniciada por Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia e fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), ganhou dimensão nacional ao colocar o fim da escala de trabalho 6×1 no centro do debate público e parlamentar. Em entrevista à Agência Brasil, o deputado federal eleito afirmou que a articulação nas redes sociais, o apoio de movimentos sociais e a atuação de parlamentares contribuíram para transformar uma reivindicação de trabalhadores em uma pauta legislativa.
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho reúne propostas apresentadas no Congresso Nacional, mobilização popular e negociações políticas. Entre os principais atores estão o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), autor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, e a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), responsável pela PEC 8/2025, que incorporou a reivindicação de redução dos dias de trabalho semanais.
Segundo o relato de Azevedo, o movimento surgiu de sua experiência profissional em uma rotina de seis dias de trabalho para um de descanso. A partir de vídeos publicados nas redes sociais, ele passou a reunir relatos de trabalhadores que enfrentavam condições semelhantes. A mobilização ampliou o alcance da discussão e contribuiu para consolidar o VAT como um movimento nacional em defesa de mudanças na organização do trabalho.
Origem do movimento Vida Além do Trabalho
Rick Azevedo nasceu em Taipas, no Tocantins, e se mudou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades profissionais. Homem negro e migrante, ele afirma que sua trajetória representa a realidade de brasileiros que deixam suas cidades de origem para trabalhar em outros centros urbanos.
Antes de ingressar na política, Azevedo trabalhava como balconista de farmácia e cumpria a escala 6×1. Nesse regime, o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias consecutivos e tem um dia de descanso semanal, conforme a organização da jornada e as regras aplicáveis ao vínculo empregatício.
Em seus vídeos, Azevedo relatava as dificuldades de conciliar o emprego com tarefas domésticas, estudos, cuidados com a saúde e convivência familiar. A repercussão das publicações revelou, segundo ele, que a insatisfação não era individual, mas compartilhada por trabalhadores de diferentes setores da economia.
O movimento Vida Além do Trabalho surgiu dessa mobilização. A iniciativa passou a defender mudanças na jornada semanal e a questionar os efeitos da escala 6×1 sobre o tempo livre, o bem-estar e a vida familiar dos trabalhadores.
PEC de 2019 e mobilização parlamentar
A proposta de redução da jornada de trabalho já estava presente no Congresso antes da criação do VAT. Em 11 de dezembro de 2019, o deputado Reginaldo Lopes apresentou a PEC 221/2019, que previa a redução da carga horária máxima semanal de 44 para 36 horas.
A proposta permaneceu por mais de três anos sem avanço significativo na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A tramitação começou a avançar em 2023, período em que a mobilização de Azevedo ganhou visibilidade pública.
O fundador do VAT afirma que não conhecia a existência da PEC quando começou a publicar vídeos. Segundo ele, sua iniciativa surgiu da experiência cotidiana de trabalho e da busca por uma forma de apresentar ao poder público uma reivindicação que considerava necessária.
A mobilização também contribuiu para o debate em torno da PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton, com apoio de mais de 200 parlamentares de diferentes partidos, conforme o texto fornecido. A proposta defendia a redução dos dias de trabalho para quatro por semana, com mudanças na organização da jornada.
As propostas passaram por articulações e alterações durante a tramitação legislativa. O debate sobre a escala 6×1 passou, assim, a envolver tanto a redução do limite semanal de horas quanto a ampliação dos períodos de descanso.
Redes sociais, sindicatos e movimentos sociais
Na avaliação de Azevedo, um dos principais resultados do VAT foi transformar experiências individuais em uma reivindicação coletiva. Os vídeos publicados nas redes sociais estimularam trabalhadores a compartilhar relatos, participar de debates e apoiar a mudança da legislação.
O movimento também contou com a participação de organizações sociais, sindicatos e parlamentares. Entre os grupos citados pelo deputado eleito está o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que contribuiu para levar a pauta a espaços de mobilização popular.
A deputada Erika Hilton teve papel importante na articulação parlamentar da reivindicação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também manifestou apoio à pauta, de acordo com o relato de Azevedo.
O entrevistado mencionou que a campanha reuniu mais de 3 milhões de assinaturas. Para ele, a combinação entre mobilização digital, participação nas ruas e atuação institucional ajudou a ampliar a pressão política em torno da redução da jornada.
Azevedo ressaltou, contudo, que a conquista não deve ser atribuída a uma única pessoa. Em sua avaliação, a participação de trabalhadores, movimentos sociais, sindicatos e parlamentares foi determinante para levar o tema ao centro da discussão nacional.
Rick Azevedo ingressa na política eleitoral
A repercussão do VAT também marcou a trajetória política de seu fundador. Em 2024, Azevedo foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Em 2026, tornou-se candidato eleito a deputado federal, com 191.371 votos, segundo os dados apresentados no texto de origem.
O resultado eleitoral ampliou sua participação no debate nacional sobre direitos trabalhistas. Azevedo afirma que pretende levar ao Congresso as reivindicações de trabalhadores que enfrentam jornadas extensas e dificuldades para conciliar o emprego com outras dimensões da vida.
Na entrevista, ele relatou que, durante um encontro no Palácio do Planalto, Lula sugeriu que uma eventual legislação sobre o fim da escala 6×1 recebesse o nome de Lei Rick Azevedo. O deputado eleito afirmou ter recebido a declaração como reconhecimento da mobilização, mas reiterou que considera a conquista resultado de uma ação coletiva.
Sua trajetória, do balcão de uma farmácia à representação parlamentar, tornou-se um dos elementos centrais da narrativa pública do movimento. Azevedo sustenta que sua atuação política deve permanecer vinculada à defesa dos direitos de quem depende do trabalho assalariado para garantir a subsistência.
Efeitos esperados sobre trabalhadores e economia
Azevedo avalia que a redução da jornada pode ampliar o tempo disponível para descanso, convivência familiar, educação e cuidados com a saúde. Entre os exemplos mencionados estão pais que poderão acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos filhos e jovens que terão melhores condições para conciliar trabalho e estudo.
O deputado eleito também argumenta que trabalhadores mais descansados podem apresentar melhores condições de produtividade e menor exposição a problemas associados ao excesso de trabalho. Ele considera que a reorganização das jornadas pode estimular contratações e ampliar a atividade econômica em setores como comércio, turismo, cultura e lazer.
Esses efeitos, entretanto, dependem de como a mudança será implementada em cada setor. A reorganização de turnos, a necessidade de contratação de pessoal e os custos de adaptação estão entre os fatores que podem influenciar os resultados econômicos da redução da jornada.
Azevedo reconheceu que a transição exige planejamento, especialmente para pequenos negócios. Ao mesmo tempo, defendeu que o desenvolvimento econômico seja acompanhado de condições de trabalho compatíveis com a saúde e a vida social dos empregados.
A avaliação dos resultados exigirá acompanhar indicadores como produtividade, remuneração, emprego formal, custos operacionais, afastamentos por problemas de saúde e distribuição das horas trabalhadas. Esses dados poderão ajudar a identificar os efeitos concretos das mudanças sobre trabalhadores e empregadores.
Fiscalização e riscos de precarização dos vínculos trabalhistas
Um dos pontos de preocupação apresentados por Azevedo é a possibilidade de empregadores tentarem contornar novas regras por meio de formas de contratação que reduzam a proteção trabalhista. Entre os riscos citados estão a pejotização fraudulenta, a terceirização utilizada para retirar direitos e a redução indireta dos salários.
A pejotização consiste na contratação de uma pessoa por meio de uma pessoa jurídica, em vez de um vínculo empregatício tradicional. Essa modalidade pode ser legítima em determinadas situações, mas sua utilização para dissimular uma relação de emprego pode gerar questionamentos jurídicos.
Para evitar que a mudança da jornada produza efeitos apenas formais, Azevedo defende o fortalecimento da fiscalização trabalhista, a atuação do Ministério do Trabalho e Emprego, do Ministério Público do Trabalho e dos sindicatos.
O deputado eleito também considera necessária a participação dos próprios trabalhadores na fiscalização do cumprimento das regras. Em sua avaliação, a organização coletiva será importante para identificar eventuais violações e assegurar que os períodos de descanso sejam efetivamente respeitados.
A aplicação da legislação dependerá, portanto, não apenas do texto aprovado, mas também dos mecanismos de fiscalização, da interpretação jurídica e da capacidade dos órgãos competentes de responder às irregularidades.
Bancada CLT e defesa dos direitos trabalhistas
A possibilidade de mudanças legislativas futuras é outra preocupação de Azevedo. Ele avalia que a composição do Congresso pode influenciar a manutenção ou a revisão de direitos trabalhistas e afirma que pretende articular uma frente parlamentar voltada à defesa dos trabalhadores contratados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
A proposta, denominada por ele de Bancada CLT, pretende reunir parlamentares de diferentes partidos comprometidos com a preservação de direitos trabalhistas. A iniciativa também deverá dialogar com sindicatos, movimentos sociais e organizações de trabalhadores.
Azevedo afirma que a mobilização não ficará restrita ao Congresso. Segundo ele, o VAT pretende continuar atuando nas redes sociais, nas ruas e nos locais de trabalho para manter o tema em discussão pública.
A estratégia apresentada pelo deputado eleito parte da avaliação de que a aprovação de uma mudança legislativa não encerra a disputa política sobre sua aplicação e continuidade. A manutenção dos direitos dependerá também da fiscalização, da atuação parlamentar e da mobilização social.
Fim da escala 6×1 e próximos desafios
A trajetória do VAT demonstra como uma mobilização iniciada nas redes sociais pode ampliar o alcance de uma reivindicação trabalhista e conectá-la a propostas legislativas que já estavam em discussão. A experiência de Rick Azevedo contribuiu para dar visibilidade às dificuldades enfrentadas por trabalhadores submetidos a jornadas com apenas um dia de descanso semanal.
A articulação entre o movimento, parlamentares, sindicatos e organizações sociais ajudou a consolidar o tema no debate público. As PECs 221/2019 e 8/2025 representam etapas distintas dessa discussão, que envolve a duração da jornada, os dias de descanso e os efeitos da reorganização do trabalho sobre a economia.
Para Azevedo, o fim da escala 6×1 deve ser o ponto de partida para novas iniciativas de proteção aos trabalhadores. Ele defende a ampliação do tempo destinado à vida pessoal e a adoção de mecanismos que impeçam a perda indireta de direitos.
A efetividade de qualquer mudança dependerá da redação final da legislação, de sua entrada em vigor, da regulamentação aplicável e da fiscalização. Também será necessário acompanhar os impactos sobre os diferentes setores econômicos, considerando as condições específicas de empresas e trabalhadores.
Ao projetar sua atuação parlamentar, Azevedo afirma que pretende manter a ligação com sua origem profissional e com os trabalhadores que impulsionaram o movimento. Sua principal bandeira, segundo a entrevista, é ampliar as condições para que o trabalho seja compatível com o descanso, a convivência familiar e a participação social.
*Com informações da Agência Brasil.








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